Brasil

Tite confirmou que encerrará seu ciclo ao final da Copa e a dúvida fica sobre quem se candidatará a substitui-lo nos próximos meses

A declaração de Tite não causa surpresa, mas enfatiza a necessidade de encontrar um sucessor - o que está totalmente aberto no momento

Era de se imaginar que o ciclo de Tite na seleção brasileira não se estenderia a uma terceira Copa do Mundo. O treinador naturalmente lida com os desgastes do tempo à frente da equipe. O aproveitamento nas Eliminatórias é excepcional, mas a régua para o nível de futebol apresentado é sempre alta e isso não agrada com tanta frequência. Nesta sexta-feira, o comandante confirmou que não deverá permanecer à frente da equipe nacional após a Copa do Mundo de 2022, seja qual for o resultado.

“Eu estou muito focado no meu trabalho. Sei do ciclo. Sou um cara que teve a oportunidade, enquanto outros profissionais também teriam a capacidade de estar aqui ao longo da história – Rubens Minelli, Ênio Andrade, Abel Braga, que foi campeão do mundo. Eu fechando o… Eu tô fugindo, né? Não convém responder agora. Não é legal. Mas o meu ciclo, eu tenho a consciência exata da minha participação”, se esquivou Tite, no programa Redação SporTV, em participação nesta sexta-feira. Isso até finalmente admitir: “Meu ciclo vai até o final do Mundial”.

A declaração de Tite não tem nada de surpreendente. Durar duas Copas do Mundo consecutivas já era um ponto fora da curva na história da Seleção. Apenas Zagallo, depois do tricampeonato mundial, tinha permanecido de maneira ininterrupta até a próxima edição do torneio. Tite vai completar seis anos consecutivos no comando do time em setembro de 2022, algo nunca antes alcançado por um treinador do Brasil, superando a marca de Flávio Costa. Pesa a ascensão a partir de 2016, que valeu muito para a permanência do gaúcho após o Mundial de 2018, assim como o ciclo sem muitas turbulências, apesar dos questionamentos, rumo a 2022.

O maior ponto de inflexão sobre o posicionamento de Tite é a certeza de que a seleção brasileira está a menos de um ano de escolher o seu próximo treinador. E, nesse momento, parece existir um vácuo. Tite pode não ser o predileto de muita gente, e sua popularidade diminuiu com o passar dos anos, mas é difícil pensar em algum nome que chegue tão respaldado para suplantá-lo nesse momento. Não à toa, os clubes brasileiros recorrem cada vez mais a técnicos estrangeiros.

Tite teve, sim, algumas sombras durante esses quase seis anos de trabalho. Os resultados são consistentes e o nível de apresentação em campo muitas vezes foi ótimo, o que não o livrou de concorrentes. A questão é que mesmo os treinadores mais vitoriosos do futebol brasileiro neste ciclo não conseguiram se manter. Renato Gaúcho muitas vezes foi pedido, em seus tempos no Grêmio, mas o trabalho no Flamengo descredenciou o ex-atacante do cargo. Foi quem mais pareceu propenso a, por ventura, ocupar a cadeira de Tite. Mas não que, por motivos esportivos, ele fosse realmente ameaçado em algum momento.

Se o futebol brasileiro vive um momento de questionamento sobre os seus treinadores, o nome mais respaldado é o de Cuca. Possui conquistas importantes o suficiente nos últimos anos e deixou o Atlético Mineiro em alta. Porém, não é uma unanimidade por seu estilo de jogo ou mesmo pelos frequentes debates em relação ao antigo envolvimento no caso de estupro na Suíça. Por esse entrave, muito provavelmente seria descartado de antemão em diferentes países. No Brasil, ainda tem portas abertas em vários clubes e não parece a CBF que iria levar em conta o assunto – o que não impediria, porém, uma reação negativa que pudesse desencorajar a entidade. Considerando a representatividade da Seleção, tal manifestação contrária tende a ser maior que em clubes.

Dentre os mais jovens, não surge nenhum nome confiável o suficiente ou com currículo para tanto. A montanha-russa é enorme. É difícil imaginar até mesmo alguém que pudesse dar um salto como foi o de Mano Menezes em 2010, com uma crescente clara. Treinadores mais novos que ganharam títulos importantes nos últimos anos, como Tiago Nunes ou Rogério Ceni, provocariam uma celeuma muito maior e a própria inconsistência de suas carreiras os afasta de qualquer cogitação neste momento.

Talvez seja o momento mais propenso para a Seleção buscar também um treinador estrangeiro. Há nomes de sucesso dentro do próprio futebol brasileiro e que certamente não descartariam uma abertura. Não duvide se a especulação de Jorge Jesus ou Abel Ferreira pipocar. Além do mais, o peso do Brasil também poderia atrair algum comandante com mais mercado na Europa – embora pareça difícil de imaginar, hoje, algum técnico de ponta abandonando as possibilidades com seus clubes para dirigir uma seleção. Por mais que Pep Guardiola já tenha flertado com isso, não parece mais o caso para ele ou para menos badalados.

E não dá para duvidar nem mesmo que a CBF reviva algum dinossauro. A entidade adora buscar treinadores que fizeram grandes trabalhos, vide Felipão ou Parreira, e mesmo aqueles de passagens sem tanto brilho, como ocorreu com Dunga. Só que o leque de opções nesse sentido é mais escasso, até porque Vanderlei Luxemburgo e Mano Menezes certamente não serão procurados. Não duvide de cartolas lamentando que o tempo de Zagallo já passou, porque seria uma escolha bem mais fácil. E nem há alguém tão incensado nos times de base, apesar do ouro olímpico recente com André Jardine, ou um assistente de Tite que se indique à sucessão, ainda mais depois das frustrações de Sylvinho, apesar de seu trânsito na CBF.

A sequência de 2022 tende a ser bastante decisiva nesse sentido. Considerando até mesmo a maneira como a temporada se encerrará pouco antes da Copa do Mundo, há chances enormes de que algum nome venha mais forte após um título da Libertadores, do Brasileiro ou da Copa do Brasil. Vai ser um apelo, ainda mais quando Tite estiver contando os dias para a sua despedida, com ou sem taça. Todavia, talvez esse clamor se volte mesmo a um gringo. Com os principais clubes do país dirigidos por estrangeiros, são eles os mais próximos de terminar a temporada em alta, a não ser que surja alguma surpresa correndo por fora.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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