Brasil

Testes na prancheta

Quando o ano se inicia com jogos já em janeiro, pouco mais de um mês depois do final do Campeonato Brasileiro, os técnicos são obrigados a começar a montar o time da temporada. Com a ausência de pré-temporada, os primeiros jogos dos estaduais acabam sendo usados para fazer testes, tanto com jogadores, quanto com esquemas táticos.

É comum, assim, que o time titular escalados para os primeiros jogos são completamente modificados alguns meses depois. O São Paulo de 2004, montado por Cuca, tinha Vélber e Marquinhos (esse mesmo do Santos) no meio-campo. A formação com os dois não funcionou e o técnico tirou um dos meis para adotar o sistema com três zagueiros poucos jogos depois – o que acabou dando a consistência que o time precisava e que, em parte, se mantém até hoje no time do Morumbi, a ponto de ter se tornado um problema para sair do 3-5-2 para voltar ao 4-4-2.

Times já acertados, como o Flamengo, ainda precisam fazer suas peças funcionarem quando, por exemplo, Petkovic não joga – espaço que Vinícius Pacheco tem ocupado com qualidade. E derrotas como a para o Botafogo são normais em um período em que os times ainda não estão completamente prontos. Com o foco na Libertadores, Andrade tem mesmo que se preocupar em fazer o time estar o mais entrosado e definido possível antes da estreia.

A pressão por resultados, porém, pode atropelar o trabalho da comissão técnica. O Palmeiras, que vive crise política, viu o projeto de um ano e meio com o técnico Muricy Ramalho degringolar com a falta de um futebol consistente e resultados ruins. Se o trabalho de Muricy não era bom, a falta de um elenco melhor também pesou na combinação de maus resultados e futebol ruim. A ausência de um atacante capaz de jogar entre os zagueiros faz falta ao time.

O novo comandante, Antônio Carlos, tinha como missão levar de novo o Palmeiras aos trilhos das vitórias. Depois do sucesso contra o São Paulo no clássico, a equipe acabou fazendo uma partida muito ruim no péssimo campo de Rio Claro e perdeu o jogo. Perguntado se o time iria classificar para a fase final do Paulista, Antonio Carlos se esquivou dizendo que “a diretoria sabia que a classificação era difícil”, o que é cedo para dizer, considerando que o time ainda tem oito jogos pela frente. O técnico parece ter uma ideia de como pretende postar o time taticamente, com dois volantes, dois meias e dois atacantes. Como começou o trabalho depois, pode não ter tempo de testar as opções disponíveis antes de achar o seu time ideal para a disputa das fases mais avançadas da Copa do Brasil.

Mano Menezes e Ricardo Gomes anunciaram que rodariam os elencos de Corinthians e São Paulo para conhecer o potencial dos jogadores, testar novas formações e, ao mesmo tempo, evitar desgastar o time logo no início da temporada, sem o devido preparo físico. Para os times grandes, especialmente em São Paulo, o estadual não é prioridade dos clubes. Por isso, os jogos de início de temporada acabam funcionando como uma espécie de pré-temporada, inclusive para ajeitar o elenco, com muitos jogadores que voltam de empréstimos, juniores que se destacaram e contratações.

Foi assim que Mano percebeu que era possível alterar o 4-2-3-1 que o time atuou com primor em 2009. Com jogadores como Tcheco e Danilo, seria necessário compor o meio-campo de outra forma ou colocar um deles no banco. Mais do que apenas definir os titulares, Mano testou opções para alterar o jogo.

O técnico testou as duas coisas e chegou em uma formação mais ou menos constante, com Tcheco caindo pelo centro e direita e Danilo caindo mais para a esquerda. Jorge Henrique, melhor jogador do time neste início de temporada, mostrou que precisa ser titular do time. Dentinho é uma opção para voltar ao esquema antigo, atuando pela direita e abrindo Jorge Henrique pela esquerda, com a saída de um dos meias. Ronaldo, no centro do ataque, é presença garantida.

Se o time ainda não empolgou pelas atuações nesse início de ano, mostrou consistência no jogo da Libertadores que venceu o Racing. Sem uma grande atuação, o time teve consistência, fator fundamental na disputa, especialmente em jogos de mata-mata, quando uma atuação ruim pode significar a eliminação.

No São Paulo, Ricardo Gomes tem mais problemas. O time contratou jogadores demais – foram 11, um time inteiro – e tem muitos jogadores no elenco a serem observados, especialmente os garotos de Cotia. Gomes rodou o elenco mais do que Mano Menezes, mas variou demais o esquema tático, ora em um 4-3-3 com Marcelinho, Dagoberto e Washington no ataque e laterais que atacam e defendem, ora com 4-4-2 com duas linhas de quatro e zagueiro na lateral ou, ainda, 4-4-2 com laterais de ofício, dois volantes, dois meias e dois atacantes.

A composição do meio-campo, porém, ainda está longe de uma definição. Hernanes funciona melhor como segundo ou terceiro homem do meio-campo, assim como Cléber Santana. Atuando com os dois como meias, o time perde força de chegada ao ataque e os dois jogadores ocupam faixas de espaço muito parecidas. Quem volta para buscar a bola é Marcelinho Paraíba, que passou a ser companheiro de Washington no ataque depois da contusão de Dagoberto. Com um elenco recheado de jogadores polivantes, o time tem batido cabeça e, em alguns casos, se mostrado desorganizado.

Com o problema de saúde de Ricardo Gomes, o São Paulo pode ter ainda mais dificuldades para encontrar o seus titulares e, mais do que isso, seu esquema tático. Os resultados no Campeonato Paulista não são suficientes para avaliar a equipe, mas os jogos da Libertadores exigirão um time definido, o que ainda falta ao time. Com a volta de Dagoberto e com Fernandinho disponível, Milton Cruz, sob ordens de Ricardo Gomes, pode ter mais opções táticas para definir como o São Paulo jogará.

O tempo, porém, está passando e os jogos da Libertadores serão decisivos para o futuro do clube na competição sul-americana. A pressão da presidência do clube para atuar com o time completo em clássicos, sempre antes de partidas da Libertadores, já atrapalhou nos dois primeiros compromissos e pode atrapalhar novamente. Em 2009, o time priorizou a semifinal do Paulista em função da última rodada da Libertadores, e acabou ficando em uma colocação pior entre os primeiros colocados.

Os estaduais têm o seu valor como competição charmosa e cheia de rivalidades. Mas priorizar a competição regional ao invés de pensar nas competições mais importantes do semestre – Copa do Brasil e Libertadores – pode trazer consequências ao time – como eliminação. Aconteceu com o Palmeiras, em 2008, que venceu o Campeonato Paulista, mas jogou com reservas em jogo decisivo da Copa do Brasil e acabou eliminado pelo Sport. Cruzeiro e São Paulo não deram a devida importância ao jogo da última rodada da fase de grupos do campeonato sul-americano para jogar com titulares no campeonato regional e acabaram enfrentando adversários mais fortes nas eliminatórias. Sem priorização e sem planejamento, os times dificilmente conseguem resultados satisfatórios para diretoria e torcida. O difícil é encontrar o equilíbrio entre os testes e os resultados, que já pressionam os treinadores no início do ano.

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Equipe Trivela

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