Teremos estádios inacabados na Copa das Confederações?
A Copa das Confederações só terá seis dos 12 estádios da Copa do Mundo de 2014, mas o prazo para a entrega se aproxima e não há sinal que tudo ficará pronto a tempo. Ficará tudo pronto, não tenho muita dúvida disso. A questão é: o quão pronto os estádios realmente estarão?
A Fifa deu até o dia 15 de abril, próxima segunda-feira, para que os seis estádios sejam entregues. O prazo é só uma referência, porque os comitês organizadores dos estados trabalham com datas para o fim do mês, quando não para maio. O secretário geral da entidade, Jérôme Valcke, já disse que o prazo não será prorrogado mais uma vez – inicialmente, os estádios deveriam estar prontos até dezembro de 2012 e já foram atrasados ao menos três vezes. É mais um episódio de palavras ao vento.
Só três dos seis estádios prometidos para a Copa das Confederações já foram entregues: o Castelão, em Fortaleza, o Mineirão, em Belo Horizonte, e a Fonte Nova, em Salvador. Este o último dos três a ter o seu primeiro jogo, no dia 7 de março. O estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, o estádio de Recife e o Maracanã ainda estão em obras. Prestes a serem concluídas, é verdade, mas ainda em obras. E não haverá muito tempo para testes, como a Fifa exige – mas essa é a parte das exigências que não são tão exigências assim, diferente do “caderno de encargos” para a construção dos moderníssimos estádios.
Mais de 500 mil ingressos já foram vendidos para os jogos da Copa das Confederações, mas essa é uma das poucas certezas que a competição apresenta. E mais do que isso, há preocupações em relação aos problemas que o Brasil tem apresentado, como o fechamento do Engenhão, estádio inaugurado em 2007. Com Copa do Mundo e Olimpíadas, o Brasil está no centro do furacão e as preocupações aumentam. “Os atrasos nas construções e o aumento dos custos estão ameaçando transformar os dois eventos em uma vergonha internacional para o Brasil, ao invés de uma mostra da chegada do país como grande força econômica”, diz uma matéria da Reuters sobre as preparações do Brasil para o torneio.
O caso do Maracanã é preocupante. O palco da final da Copa das Confederações e da Copa do Mundo está com 95% das obras prontas, mas só o que diz respeito ao estádio em si. As obras no entorno do estádio não ficarão prontas para o evento teste da Fifa. E mais: o prazo do dia 15 de abril também não será cumprido.
O governo trabalha com o dia 27 de abril como data da entrega do estádio. Foram ao menos três adiamentos de datas desde o início da construção do estádio. Na terça-feira, dia 9, foi terminada a instalação da cobertura e as traves começaram a ser colocadas. Antes da inauguração, será feito um jogo teste com os amigos de Ronaldo e os amigos de Bebeto, no dia 8 de maio, e depois um amistoso da Seleção Brasileira com a Inglaterra, no dia 2 de junho.
No estádio Mané Garrincha, a data de 15 de abril também não será cumprida. O gramado será inaugurado no dia 27 de abril. Três dias depois, o estádio será inaugurado, mas o primeiro jogo só será disputado no dia 18 de maio, a final do Campeonato Brasiliense. Uma semana depois, Flamengo e Santos irão se enfrentar em jogo do Campeonato Brasileiro.
A Arena Pernambuco está praticamente pronta. A entrega do estádio está marcada para o dia 14 de abril, próximo domingo. Não haverá muito tempo para testes. Apesar da entrega ser já no domingo, haverá um jogo teste entre funcionários da obra um mês depois, que será considerado como teste pedido pela Fifa. No dia 22 de maio, o Náutico irá estrear o estádio, mas ainda não se sabe contra quem será o jogo.
As preocupações são grandes, porque os prazos são apertados e os testes, como se vê, serão feitos longe do ideal. Aliás, longe até do razoável. Os testes serão nas coxas mesmo e será feito tudo em cima da hora. Por que não deveríamos desconfiar que alguns procedimentos de segurança foram abdicados em função de um prazo menor de entrega? O caso Engenhão abre esse precedente da desconfiança.
Os dirigentes seguem dizendo que não há problemas e tudo estará pronto dentro do prazo. O ministro Aldo Rabelo deu uma entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, e não diminuiu as preocupações com a organizações desses dois eventos, muito pelo contrário.
Esqueçam o 4G para a Copa do Mundo
Uma surpresa (só que ao contrário): a tecnologia 4G não ficará pronta na Brasil para a Copa do Mundo de 2014. E estamos há mais de um ano da competição. Quem disse foi o presidente da Anatel, João Rezende, em entrevista. A frequência de 700 MHz, usada em outros lugares do mundo para a tecnologia, não ficará disponível a tempo.
A frequência de 2,5 GHz, que está em processo de licitação, precisa de mais antenas do que o padrão 700 Mhz, usado atualmente. Estrutura que não ficará pronta e não poderá entrar na conta dos muitos legados que a Copa deixaria. As operadoras que estão usando o 4G atualmente no Brasil usam a faixa de 2,5 GHz,o que não poderá ser compatível com a maioria dos aparelhos usados na Europa e na América do Norte.
Na abertura da Fonte Nova, a presidente Dilma Roussef usou palavras fortes para mostrar a confiança do governo ao dizer que o Brasil irá mostrar, dentro e fora de campo, que é imbatível em termos de esporte e irá exceder as expectativas na organização da maior competição de futebol do mundo.
O que se viu até agora não foi isso. Cada vez há menos obras públicas que deixarão de fato uma herança positiva para a população, como transportes, mobilidade, comunicação e infraestrutura urbana. A lista de obras da Copa vai tendo itens riscados, não por estarem prontos, mas por serem tirados porque não daria tempo de terminar para a Copa – como o monotrilho de São Paulo, o transporte público em Manaus, o VLT de Brasília e muitos outros. O site da ESPN mostrou, no dia 1º de abril, dez mentiras contadas pelos dirigentes para a Copa do Mundo de 2014, que incluem as citadas anteriormente.
Com tantos problemas, parece que os prazos terão que ser cumpridos à força. E isso requer sacrifícios. Esperamos que não sejam sacrifícios de segurança. A pergunta no título está próxima de se tornar uma afirmação. E esse é um problema que o Brasil terá que lidar. Esperamos que não de forma trágica.