Brasil

Sport pode estar dando passo maior que as pernas, mas se dá o direito de sonhar

Palmeiras e Flamengo disputam Diego Souza. Ambos o veem como um reforço fundamental para elevar o nível da equipe e sair da parte de baixo da tabela. E o jogador diz que quer voltar ao Brasil, não está mais a fim de seguir no ucraniano Metalist. O negócio é feito e o meia se apresenta. No Sport.

LEIA MAIS: O milagre do América contra o Flu é a maior virada da história da Copa do Brasil

O enredo soa estranho para os ouvidos ainda preconceituosos. Como é que um time do Nordeste conseguiu vencer o Palmeiras e o Flamengo na disputa por um jogador? De onde o Sport vai tirar dinheiro para pagar? Será que não tem algo errado com o Diego Souza, o suficiente para tirar o ímpeto de palmeirenses e flamenguistas?

É relevante analisar a contratação de um ponto de vista crítico. O meia tem um patamar salarial acima do padrão do Leão e, pela sua instabilidade em campo, talvez não dê um retorno. Mas isso é ilação do momento. Há um fator muito importante nessa negociação, e que pode ser um bom sinal para o futebol brasileiro: o Sport acreditou, e foi atrás disso.

Clubes do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste (e também clubes do interior nos centros mais tradicionais, mas isso fica para outro dia) têm dificuldades inegavelmente maiores para sobreviver. Têm alcance limitado para atrair torcedores, têm menos exposição na mídia para atrair patrocinadores e têm menos projeção técnica para atrair equipes estrangeiras interessadas em seus jogadores. O resultado material disso é óbvio: menos dinheiro. Mas também há um resultado psicológico, a crença de que não há como mudar esse cenário.

Dentro da estrutura atual do futebol brasileiro, a oportunidade para se mudar de patamar não é grande. Talvez esteja até diminuindo, devido ao novo modelo de distribuição do dinheiro da TV. Mas o único jeito de descobrir é tentando. E esse é o lado mais interessante na aposta do Sport por Diego Souza. O Rubro-Negro acreditou que era possível disputar um jogador com o Palmeiras e o Flamengo e venceu.

O retorno técnico e financeiro dessa contratação é menos importante que o potencial psicológico. Se Diego Souza tiver uma boa participação na Ilha do Retiro, pode chamar a atenção de outros jogadores para a possibilidade de considerar um grande clube nordestino como uma opção válida aos times do Sul e Sudeste. Também pode chamar a atenção de outras equipes da região a tentar reforçar suas equipes com jogadores que ainda têm mercado em centros mais ricos.

Talvez o Sport esteja dando um passo maior que sua perna, e pagará por isso se o fizer. Mas os clubes do Nordeste dão passos menores que a perna há décadas, e é bom ver alguém tentando esticar um pouquinho para ver até onde é possível andar.

Foto de Ubiratan Leal

Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.
Botão Voltar ao topo