Só eles salvam

Entre os muitos jogos fracos que os Campeonatos Estaduais apresentam, os clássicos são um ponto de salvação. Tudo porque clássicos são jogos à parte. Mesmo no caso de Corinthians e São Paulo, que se enfrentaram neste final de semana e teriam motivação pela classificação às semifinais, é o fato de ser um clássico que trouxe os dois times com escalações titulares (ou próximo disso, já que ambos ainda buscam a formação ideal).
Isso porque o clássico é um jogo de afirmação. Neste campeonato onde há poucos testes de verdade para os times mais fortes, os clássicos são os poucos jogos que, de fato, põem à prova a qualidade dos times para o resto do ano. Não são sentenças definitivas (eis o Vasco que não me deixa mentir), mas são amostras de virtudes e deficiências contra um adversário com mais qualidade. Isso do ponto de vista técnico.
Do ponto de vista do torcedor, o estadual existe é pela rivalidade. É para que os torcedores do Corinthians possam tirar sarro dos amigos são-paulinos. É o mesmo sentimento que os vascaínos, que tiveram que aguentar os rivais nas últimas semanas, podendo ir à forra quando vencem por 3 a 0 o Fluminense e vestem, orgulhosos, a camisa do time no dia seguinte com aquele sorriso estampado no rosto.
Gostaria de dizer que esse é o motivo de os Estaduais existirem. Mas não é. Se fosse por isso, teriam menos times e fórmulas que privilegiassem essa sensação que os clássicos trazem. Os estaduais existem, cada vez mais inchados, para privilegiar a estrutura de poder nas Federações. Quanto mais times na primeira divisão estadual, mais apoio os seus presidentes conseguem. Foi por isso que a fórmula que beirava o interessante em 2003, tanto no Rio quanto em São Paulo, foram abandonadas para inchar o campeonato e torná-lo menos interessante para o torcedor, mas mais interessante politicamente.
Só para lembrar: em 2003, o Campeonato Carioca era disputado em turno único, a Taça Guanabara, com 12 times. Todos jogavam contra todos e os quatro primeiros classificavam-se para as semifinais (1º x 4º e 2º x 3º). Tanto semifinais quanto finais foram disputadas em ida e volta.
No Campeonato Paulista, o número de clubes era absurdo, 21. Mas a fórmula tornava o campeonato viável. Eram três grupos de sete clubes, com os dois primeiros colocados classificados de cada grupo, mais os dois times de melhores campanhas entre os demais, classificados para as quartas de final. As quartas de final foram disputadas em jogo único e eliminatório. As semifinais e finais foram disputadas em jogos de ida e volta.
Com essas fórmulas, os campeonatos paulista e carioca tinham duração mais curta do que a atual: de 18 de janeiro a 23 de março. Se não era o ideal, era muito mais perto desse objetivo do que as fórmulas atuais, com fases de classificação longas e modorrentas, recheadas de jogos desinteressantes.
Os clássicos têm a rivalidade como fio condutor, porque não depende de nenhum outro fator. Vencer um rival, seja em qual circunstância for, sempre traz alegria aos vencedores e tristeza aos perdedores. Essa é a essência do jogo: a disputa, saudável, para saber quem é melhor – e em um jogo que permite que essa disputa permita reviravoltas, porque é parte do esporte.



