Brasil

Síndrome de Kléber Leite

O ano já é 2009, mas o torcedor flamenguista parece viver entre 1995 e 98, período em que Kléber Leite esteve presidente na Gávea. Famoso pelas contratações bombásticas de maneira desenfreada – cerca de uma centena de negócios em quatro anos -, o manda-chuva retornou ao Flamengo como vice-presidente de futebol. E hoje o cenário é bem parecido àquela época.

As saídas de Marcinho, Renato Augusto e Souza e a perda da liderança no último Campeonato Brasileiro trouxeram desespero à Gávea. Mesmo sem respaldo financeiro para tal, o Flamengo foi às compras de qualquer maneira e prometeu o que não podia pagar. De uma vez só, trouxe dois centroavantes: Josiel, que voltou do Oriente Médio com alto salário, e Vandinho, maior artilheiro do país àquele momento. Ainda repatriou Marcelinho Paraíba, prometendo luvas caríssimas, comprou Fierro, um dos maiores jogadores do futebol chileno, Sambueza, bom meia do River Plate, e Éverton, revelação do Paraná Clube.

O desespero tinha explicação: o Flamengo precisava se reencontrar e de uma hora para outra, Caio Júnior se viu cheio de opções. Mas não remediou a situação: o Fla seguiu oscilando, Caio mostrou-se despreparado e o ambiente azedou com a melancólica quinta posição, com derrota no último jogo. O clube precisava da vaga à Libertadores para honrar o que havia prometido, mas ela não veio.

Esse processo tem provocado desmanche: Sambueza entrou em acordo e se foi, Vandinho foi liberado ao Sport, e Marcelinho Paraíba deve ser o próximo. Depois de reclamar publicamente dos atrasos, o atacante foi liberado para encontrar outro clube e ouviu, de Kléber Leite, que o Flamengo não poderia pagar o que havia lhe prometido.

Vitórias magras e com gols no fim, assim como um empate contra o Botafogo, escondem uma situação que é muito difícil. Os salários estão atrasados e Cuca admite as dificuldades: “A falta de dinheiro influi. Sinto dificuldade de mobilização”, afirmou o treinador, uma das poucas novidades de 2009. Zé Roberto foi a única contratação de nome, mas veio praticamente sem custos, assim como Willians e Douglas, destaques do Santo André na Série B.

Para dificultar mais as coisas, o presidente Márcio Braga precisou ser submetido, às pressas, a uma operação delicada e deve desfalcar o clube por algumas semanas. Centralizador, Braga fará falta às decisões e ao cotidiano flamenguista. Pior ainda é deixar o barco à deriva, com Kléber Leite no comando, o que já provou ser uma enorme roubada.

A ponto de explodir

Turbulência não é uma palavra particularmente flamenguista no cenário carioca. O Vasco vive dias de muita tensão nas últimas semanas e a esperança que Roberto Dinamite trouxe consigo já não é mais confortante. Hoje, o presidente tem é muitas explicações a entregar à população vascaína.

As acusações de José Roberto Coelho, ex-vice presidente de marketing do Vasco e presidente do MUV, que levou Dinamite para o posto máximo em São Januário, são gravíssimas. Entre denúncias de nepotismo, críticas ao relacionamento passivo com torcedores organizados, aos salários acima da média que vêm sendo pagos, sobrou até para a honestidade de Roberto Dinamite. De acordo com Coelho, há irregularidades em torno de R$ 12 milhões no balanço financeiro de 2008.

As críticas de José Roberto Coelho teriam sido diluídas se Dinamite tivesse dado explicações convincentes sobre as denúncias. Mas não deu. O presidente do Vasco não foi nada pedagógico em suas ponderações, deixando viva a imagem transmitida pelo ex-dirigente.

Não bastasse isso, o bom trabalho inicial de Dorival Júnior foi jogado no lixo por um vacilo administrativo. Com problemas de inscrição, Jéfferson, que veio do Santo André, jogou normalmente, tirando seis pontos que colocariam o Vasco entre os semifinalistas da Taça Guanabara. Para se ter idéia da importância desse torneio em São Januário – e isso é possível debater -, Júnior pouparia os titulares para a estréia na Copa do Brasil.

Dorival Júnior, aliás, esteve envolvido em mais uma polêmica que envolve o Vasco. Seu salário, estimado em R$ 260 mil mensais, vazou publicamente, causando descontentamento geral. Parece, de fato, acima das possibilidades vascaínas. No clube, aliás, funcionários cobram três meses de salários atrasados, além de benefícios, transformando a atmosfera cruzmaltina em um caldeirão em erupção.

Corinthians: quase 50 dias sem patrocínio

A chegada de Ronaldo ao Parque São Jorge fez surtar de otimismo os dirigentes corintianos. Pela presença do Fenômeno e o bom trabalho de marketing em 2008, imaginavam conseguir um patrocínio de camisa na casa de R$ 30 milhões anuais, praticamente o dobro em relação ao ano passado. A inflexibilidade nas negociações faz com que até hoje o Corinthians atue sem marca na camisa.

Especialistas no assunto, como Amir Sommogi, da Casual Auditoria, acreditam que, em uma maré economicamente boa e CNTP, o Corinthians conseguiria algo em torno de R$ 25 milhões, mas a crise financeira atrasa todo esse processo. Para piorar, as eleições presidenciais que deram mais três anos para Andrés Sanchez auxiliaram nesta lentidão.

Wagner Vilaron, do Diário de São Paulo, afirmou na última semana que o Corinthians tem tudo certo para estampar Fly Emirates para a temporada, e depende apenas de detalhes burocráticos. Mas o fato é que a demora se transforma em preocupante. É possível que o próprio Ronaldo, que imagina lucrar com os patrocínios de meia, manga e shorts, esteja preocupado.

Enquanto isso, São Paulo e Palmeiras fizeram apostas seguras, entenderam o momento e direcionaram os esforços para obter outras formas de receita. Resta saber se o Corinthians vai rir por último, ou não.

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Equipe Trivela

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