O Brasil goleou e tem base para 2018. Mas veja essa imagem antes
O Brasil goleou a Turquia por 4 a 0 em Istambul, dois gols de Neymar, grande atuação de Willian e quinta vitória em cinco jogos desde a volta de Dunga ao comanda da seleção brasileira. Tudo muito bom, tudo muito bem, e analistas já elogiam o novo velho técnico dizendo que temos esquema tático definido, que o Brasil tem um jeito de jogar, identidade… Mas, espera um pouco, que ano é hoje?
Ah, sim, estamos em 2014. Ano de Copa do Mundo, lembra? Faz 127 dias que o Brasil tomou 7 a 1 da Alemanha em uma semifinal da Copa que jogou em casa. Foi um 7 a 1, não foi um 2 a 0 sofrido na prorrogação, como a Alemanha perdendo em casa para a Itália em 2006, nem uma derrota nos pênaltis como a Itália de 1990. Foi um 7 a 1. Em casa. É bom lembrar disso, porque o placar de 4 a 0 contra a Turquia nesta quarta realmente deixou uma excelente impressão. Mas antes de falar mais sobre tudo isso, pedimos que você olhe essa imagem:

Sim, calma, muita calma. Cinco jogos e cinco vitórias é realmente um excelente início de trabalho. Quem vai dizer que não? Em termos de resultados, é ótimo. Dunga, aliás, é um mago dos números. Seu aproveitamento como técnico da seleção brasileira foi celebrado como motivo para que ele tenha sido alçado novamente ao cargo. Mas antes de falarmos desses 4 a 0 em Istambul e os evidentes méritos que há nisso, é preciso lembrar o momento em que estamos e como chegamos até aqui.
A era dos resultados
Dunga é um técnico de resultados. Ele nunca esconde e sempre que é trazido à tona a discussão sobre a eficiência de 1994 contra a arte de 1982, isso fica evidente. É preciso tirar os exageros daí também. Em 1994, o time não era um bando de operários que só jogava em função de resultados burocráticos, assim como a seleção de 1982 também não é só pura arte e magia.
O que é importante é lembrar que Dunga foi chamado porque o Brasil tomou 7 a 1 da Alemanha e tornou insustentável a continuidade de Luiz Felipe Scolari (e de Parreira, o coordenador) no cargo. E por que Felipão foi chamado ao cargo? Porque Mano Menezes falhou na missão de construir um time que propusesse jogo, que resgatasse a identidade do futebol brasileiro, como era a proposta em 2010, quando ele assumiu. Então, apelou-se para Felipão, o homem de resultados. Ele veio. A taça das Copa das Confederações veio. O favoritismo veio. A esperança também. Mas o time ficou engessado, os dirigentes, soberbos – assim como a comissão técnica. Se apoiaram em acertos, esqueceram dos próprios erros e, com um ano a mais, os adversários vieram muito melhores. Na Copa, o futebol não foi encontrado e o resultado, esse fim pelo qual se abriu mão do meio, tornou-se o maior vexame da história da seleção brasileira.
Passado e futuro na era Marin
É preciso lembrar do caminho até aqui antes de só olhar para o futuro. Tomar 7 a 1 é por demais simbólico para ser ignorado. Vamos lá:
- A CBF continua nas mãos de José Maria Marin e em 2015 passará às mãos de Marco Polo Del Nero.
- O jogo da seleção é na mesma quarta-feira que será jogada a final da Copa do Brasil. Tudo porque a CBF não respeita data Fifa, o que fez com que Dunga não convocasse jogadores que atuam no Brasil.O time ainda joga na terça-feira contra a Áustria e não só nesta quarta como no fim de semana e no meio da semana que vem temos Campeonato Brasileiro sendo disputado também. Todos os jogadores que estão na seleção atuam no exterior exatamente por isso.
- O Brasil continua repleto de dirigentes nos clubes que estão tentando barrar a Lei de Responsabilidade Fiscal, que tenta tornar mais racional a gestão dos clubes e que tem o pedido dos jogadores para ter até teto salarial.
- Vemos aqui o absurdo de jogadores pedindo teto salarial para não verem os clubes deverem tanto, mas os clubes não querem essa limitação para poderem continuar gastando à vontade e depois negociar as dívidas com o governo.
- O 7 a 1 da semifinal da Copa continua vivo a cada rodada do Campeonato Brasileiro disputada em gramados ruins, em horários que desrespeitam o torcedor (alguém aí falou em jogo 22h?) e com arbitragens de péssimo nível.
Isso tudo não quer dizer que não há nada a ser aproveitado, pensando ao menos em termos de jogadores para a seleção brasileira. Como escrevi nesse texto logo depois da Copa, apesar do desastre contra a Alemanha, o Brasil tem uma base de jogadores para 2018. Mas é preciso começar a mudar tudo que permeia o futebol brasileiro. Dunga não teve todos os jogadores que quis à disposição porque sabia que, se convocasse os jogadores que estão no Brasil, abriria uma guerra com os clubes. Uma guerra da qual ele não tem culpa. Quem tem culpa é a CBF.
Mas e o jogo? O Brasil é implacável com quem dá espaço
Depois das críticas a tudo o que levou ao 7 a 1, é hora de avaliar o trabalho de campo. Sim, Dunga merece ser elogiado pela ótima partida nos 4 a 0 contra a Turquia. Vamos aos pontos:
- Estilo implacável. O time de Dunga é realmente bem montado. É impiedoso com adversários que dão espaço, como foi o caso da Turquia. É preciso valorizar o bom futebol que o time tem jogado mesmo com alguns jogadores que eram criticados antes, durante e mais ainda depois da Copa, como Luiz Gustavo, que fez um lançamento primoroso para o primeiro gol do jogo, de Neymar. Vale também falar sobre Willian, outro destaque do jogo e autor do terceiro gol – depois que Samih Kaya fez contra, completando um cruzamento para a área.
- Fator Willian. Ele era cotado para ser titular da seleção brasileira desde antes da Copa do Mundo. O desempenho do jogador nos jogos imediatamente anteriores à estreia contra à Croácia vinham dando a ideia de que o meia do Chelsea deveria ganhar a posição no time. A discussão, na época, era que ele deveria substituir Oscar. Durante a Copa, a discussão era se Willian deveria ganhar a posição no time no lugar de Fred para o Brasil ganhar mobilidade na frente. Também não aconteceu. Ele foi mantido no banco, mesmo quando o desastre contra a Alemanha se desenhava nos dias anteriores ao massacre de Belo Horizonte. Sua atuação merece ser elogiada porque havia quem acreditasse que depois da vexatória derrota contra a Alemanha, um jogador como ele, que não era destaque, seria descartado. Não foi, e nem merece ser.
- Neymar com tudo. O Brasil é um time que aproveita de forma veloz e mortal os espaços que os adversários deram. A Turquia deixou Neymar entrar na área andando com a bola. Aí não tem jeito mesmo, porque Neymar é um jogador muito acima da média. Seus dois gols no amistoso o levam a 42 pela seleção brasileira, atrás apenas de Zico (48), Romário (55), Ronaldo (62) e Pelé (77). Neymar tem tudo para subir muito mais nessa lista. Tem só 22 anos e muitos anos de talento pela frente.
Mas, em campo, há críticas a serem feitas também. A elas.
- Falta de laboratório. Dunga poderia ter aproveitado que o Brasil fez 4 a 0 cedo, aos 15 minutos do segundo tempo, para fazer mais testes. Amistosos, afinal, também são para isso, ainda mais quando o placar já está garantido como era o caso desta quarta. Roberto Firmino, uma das novidades, entrou aos 28 minutos do segundo tempo no lugar de Luiz Adriano. Jogou atrás de Neymar, como um meia ofensivo, deixando Neymar mais avançado. Não conseguiu fazer muito no tempo que esteve em campo.
- Antídoto contra veneno velho. Outra novidade foi Douglas Costa, que entrou aos 32 minutos do segundo tempo. Também pouco tocou na bola. Entraram ainda Philippe Coutinho, um nome certo e que tem entrado sempre na gestão Dunga, Fred, estreante, que jogou alguns poucos minutos no lugar de Luiz Adriano, e Casemiro, novidade desta convocação. Não deu para ver muito de nenhum deles. É de se esperar que mais jogadores ganhem minutos de jogo contra a Áustria, não só porque o adversário é mais fraco, mas para Dunga poder explorar possibilidades. Em um começo de trabalho como esse, é preciso testar. O técnico não pode ser refém de um jeito de jogar e Dunga viveu isso na última vez que dirigiu a seleção, sabe (ou deveria saber) disso. Que contra a Áustria outra novidade, Anderson Talisca, também ganhe uma chance de mostrar um pouco do que tem feito no Benfica com a camisa da seleção.
Não dá para falar de esquema tático bem definido em um time que só jogou cinco amistosos, que não tem o caráter competitivo que veremos na Copa América e nas Eliminatórias da Copa. E não dá para falar isso 127 dias depois de tomar um 7 a 1 da Alemanha em uma semifinal de Copa com essa mesma base. Sim, nós temos base para 2018, há jogadores com talento e o Brasil pode se tornar novamente uma das melhores seleções do mundo. Mas, como diz o ditado, devagar com o andor que o santo é de barro.




