Brasil

Da ‘semiescravidão’ às sete Copas: Quem foi Mário Américo, lenda esquecida da Seleção

Trivela conta história de massagista cuja história marcou época no futebol brasileiro

Era outubro do ano passado. Eu estava pesquisando algumas fotos para uma publicação nas redes sociais da Trivela sobre o aniversário de Pelé. Em uma das agências de fotos que temos acesso, havia uma imagem de 1958, de um rapaz aplicando uma injeção no garoto prodígio que viria a se tornar o maior jogador do esporte.

O que me chamou a atenção mesmo foi que além da óbvia identificação a Pelé, a agência também dava nome àquele homem, o que é incomum, já que geralmente apenas pessoas públicas são identificadas: Mário Américo, “caretaker” (algo como “cuidador”). Aquilo ali ficou na minha cabeça, mas a vida seguiu. 

Agora em 2025, durante um trabalho acadêmico, eu precisava de uma história para contar. Mas não queria uma história que todo mundo já contou ou conta frequentemente. Não que ninguém tenha contado essa história, pelo contrário. Depois eu descobri que meu pai, que nem é dos mais viciados em futebol, conhecia o Mário Américo. Portanto, se tratava de um personagem lendário de sua época, folclórico e popular. Mas que naturalmente vai se tornando uma história esquecida. 

Enfim, havia aí uma história.

Mário Américo aplica injeção em Pelé
Mário Américo aplica injeção em Pelé. Foto: IMAGO

Mário Américo viveu a dor do Maracanazo e a alegria do tri

Mário chegou ao futebol por acaso. Não se sabe muito como ele conheceu doutor Almir do Amaral, médico do Madureira nos anos 1940, mas foi ele quem o incentivou a deixar os ringues de boxe, onde teve breve passagem, e o convidou a frequentar, como aluno ouvinte, um curso na Escola Nacional de Educação Física. Ali começara sua relação com o futebol.

Em seu currículo até a Copa de 1950, constavam alguns anos no Madureira e, especialmente, os anos super vitoriosos com o “Expresso da Vitória”, apelido dado ao time do Vasco multicampeão nos anos 1940. Pelo Cruzmaltino, o “tio Mário”, como era carinhosamente chamado pelos jogadores, venceu os Campeonatos Cariocas de 1947, 1949, 1950 e foi campeão Sul-Americano de Clubes Campeões em 1948, torneio que deu origem à Copa Libertadores. 

O sucesso do time ajudou a impulsioná-lo para a seleção brasileira e ele foi convocado para fazer parte do time de massagistas para a Copa do Mundo de 1950, em solo brasileiro. O trauma na final perdida para o Uruguai em um Maracanã completamente lotado faria de Mário, assim como todos daquela delegação, um dos que sofreria com as consequências da derrota.

O massagista Mário Américo entra em campo durante jogo

O trabalho no time de massagistas da Seleção foi bem feito em 1950 e, quatro anos depois, Mário retornou, mas foi na Copa de 1958 que de fato se tornou o “chefe” dos massagistas da CBD (Confederação Brasileira de Desportos — a antiga CBF). Antes de viajar para a Suécia, veio o episódio que mudou a história dele, de Pelé, e consequentemente do Brasil.

Em um amistoso entre seleção brasileira e Corinthians, no Pacaembu, o garoto prodígio do Santos sofreu uma entrada forte de Ari Clemente, beque do Timão que entrou na onda das arquibancadas, que clamavam pela convocação de um atleta do Timão no lugar daquele garotinho franzino da Baixada Santista e que por isso, pegavam no pé do jovem Edson.

— Paulo Machado (de Carvalho, chefe da delegação da CBD) ficou super preocupado. Disse ‘você precisa cuidar desse menino’. E meu avô ficou a noite toda cuidando do Pelé, fazendo contraste, para que ele pudesse ir à Copa. E depois de alguns dias meu avô falou que podiam levá-lo porque ele estava apto –, conta Mário Américo Netto, neto e estudioso da vida de seu lendário avô, à Trivela.

O resto da história da Copa de 1958 todo mundo sabe. Mas há um detalhe depois do apito final que se tornou um dos grandes “feitos” da vida de Mário. A pedido de Paulo Machado de Carvalho, e com ajuda do dentista Mário Trigo, membro da equipe, ele roubou a bola em que o Brasil fez 5 a 2 na Suécia, em Estocolmo, ao garantir o primeiro título mundial da Seleção. Trouxe para o Brasil como um troféu e sabe-se lá o que aconteceu com o objeto. 

Mário Américo, à esquerda na fileira de baixo, com a seleção brasileira
Mário Américo, à esquerda na fileira de baixo, com a seleção brasileira. Foto: IMAGO

Mário também esteve na campanha do bimundial no Chile, em 1962, quando suas “mãos de ouro”, apelido dado pela imprensa da época, não conseguiram recuperar o lesionado Pelé após a segunda rodada. No Mundial de 1966, na Inglaterra, Mário, muito amigo do já Rei do Futebol, foi uma das vozes mais ativas para que Pelé desistisse de “se aposentar” das Copas. 

— Essa amizade dos dois perdurou por muito tempo, a ponto que na Copa de 66 quando Pelé se machucou, teve aquela situação com a seleção de Portugal, Pelé não queria mais ir para a Copa de 70. E o meu avô foi uma das pessoas que, como naquele tempo não se tinha o psicólogo, meu avô durante o tratamento falava para ele ir porque seria a última Copa. E o Pelé dizia que não teve sorte nas últimas duas. E o meu avô insistiu para que ele fosse –, explica o neto. 

Uma prova da amizade de Pelé e Mário é que o Rei do Futebol foi quem bancou financeiramente a graduação de Mário Américo Netto em fisioterapia, como um presente à família em nome dos anos de amizade entre os dois.

Mário América beija a bola
Mário América beija a bola. Foto: IMAGO

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Infância com avô escravizado e breve carreira política

O termo “semiescravidão” foi utilizado pelo “UOL”, que em uma matéria especial sobre Mário Américo, de 2020, afirma que o massagista viveu nessa situação durante a sua infância, antes de fugir para São Paulo. Refere-se ao que na época aconteceu com muitos negros que, mesmo após a abolição da escravidão, não tinham para onde ir ou onde trabalhar, e por isso eram forçados a permanecer em condição análoga àquela antes da Lei Áurea

— Ele nasceu no sul de Minas, numa cidade chamada Monte Santo de Minas. Pela idade dele, nascido em 1912, ele teve acesso ao avô. Eles moravam numa fazenda naquela região. Então com certeza o avô dele, Sebastião, foi escravo. Toda vez que ele ia conversar com o avô, o avô era ranzinza, duro, pela sua história totalmente cruel. E o avô falava: o negro não serve para nada, a não ser ter uma vida assim. Isso que o levou a fugir, foi para Rio e São Paulo, porque achou que para ele aquele lugar não iria dar certo –, detalha Mário Netto. 

Em suas andanças pelo mundo, Mário foi baterista, teve uma carreira breve como boxeador, mas não vingou. E sua vida fora dos gramados não parou por aí. Depois da Copa de 1974, sua última pela seleção, o massagista já gozava de enorme notoriedade como pessoa pública no Brasil e também no exterior. Chegou a ser garoto propaganda da pomada analgésica Gelol. E criou na Alemanha, com um fisioterapeuta alemão, um creme chamado Amazonas Balm. 

Logo depois do fim da carreira nas salas de fisioterapia dos clubes, Mário ingressou na política, graças a sua amizade com políticos da época, mas também devido a seu trabalho comunitário no bairro do Imirim, Zona Norte de São Paulo. Foi eleito como vereador de São Paulo, em 1976, mas teve apenas um mandato.

— E por ser um bairro muito precário na época, ele foi sempre envolvido com essa questão de ser um líder comunitário, então ele ajudava quando as ruas estavam cheias de lama. Nos anos 1980, ele fez uma amizade com Orestes Quércia e Paulo Maluf e um dia com muita conversa pediram para ele se tornar vereador. Ele achou uma boa e disse que no bairro não tinha nenhum representante –, relembra o neto. 

— Foi ele que criou a Lei dos Cronistas Esportivos, foi uma ideia dele, o sindicato reconheceu. Porque ele foi um dos primeiros políticos que veio do mundo do esporte. Mesmo não sendo atleta, ele veio do esporte, ficou famoso pelo futebol. Pela idade dele avançada ele não continuou. Ele cumpriu apenas um mandato –, conclui. 

O Dia do Cronista Esportivo existe até hoje. É celebrado no dia 08 de dezembro. No documento, elaborado junto a Comissão de Educação, Cultura e Esportes, o projeto de Lei (nº37/80) dizia: “Os cronistas esportivos, há mais de cinquenta anos, vêm desempenhando um papel sumamente importante na intensa vida esportiva da capital paulista. Acreditamos que se houvesse tão-somente uma mera crônica esportiv’a, esta metrópole seria tremendamente enfadonha”. 

Um herói negro em um mundo racista

Mário Américo dedicou grande parte de sua carreira à Seleção
Mário Américo dedicou grande parte de sua carreira à Seleção. Foto: GazetaPress

— Conversando com a minha avó e meu pai, quando ele se tornou vereador foi quando ele começou a ter voz para falar muito disso. No final dos anos 50, ele conheceu a minha avó, foi fundado em São Paulo, um clube da comunidade negra, o Aristocrata Clube. E meu avô fez parte desse clube. Eu acho que ali ele começou a entender a posição política daquilo que o negro sofria –, conta com orgulho Mário Netto.

— Era difícil se posicionar, eles talvez entendiam que era normal ser xingado. Parecia normal, mas hoje a gente entende que não é. Nos relatos dele nos livros dificilmente você encontra algo dele brigando com alguém, até porque eu acho que o negro vinha numa posição de precisar do emprego. Você jamais iria contra alguém porque você precisava muito daquilo –, relata. 

O livro citado por Mário Américo Netto é uma biografia chamada “Memórias De Mário Américo”, de Henrique Matteucci, publicado em 1986. O ex-massagista morreu em 9 de abril de 1990, em São Paulo.

Filho de Mário Américo, Mário Américo Júnior criou um instituto com o nome do pai lendário. Inaugurado em 2012, o Instituto Mário Américo visa auxiliar crianças, jovens, adultos e pessoas com deficiência através de cursos de capacitação, organização de atividades esportivas e sistema de apoio a pessoas necessitadas.

Foto de Nelson Coltro

Nelson ColtroCoordenador de conteúdo

Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Coordenador das redes sociais da Trivela e vira e mexe apareço no site.

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