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Se 2022 será a última Copa de Neymar, não sabemos, mas a despedida promete ser melancólica

Em empate morno contra a Colômbia, o Brasil seguiu com ampla vantagem nas Eliminatórias e sem encantar

Era para ser um domingo comum para quem acompanha a Seleção Brasileira. Afinal, a rodada das Eliminatórias da América do Sul foi concentrada num só dia e o Brasil era o protagonista, com a missão de enfrentar a Colômbia, em Barranquilla. O empate em 0 a 0, no calor colombiano, acabou ofuscado pela divulgação de uma entrevista de Neymar, na qual ele afirma que não sabe ser jogará outra Copa do Mundo após 2022.

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O dia da marmota

No filme “Feitiço do Tempo” (1993), estrelado por Bill Murray e Andie MacDowell, o protagonista Phil Connors, um repórter mal-humorado, fica preso no tempo durante uma viagem à cidade de Punxsutawney, na Pensilvânia, enquanto cobria o evento nacionalmente conhecido do “Dia da Marmota”. O que faz do filme um clássico é que ele permite que sejam feitas várias metáforas a partir da premissa de que um homem ranzinza é forçado a repetir em um loop eterno um dos piores dias da sua existência.

Contexto feito, podemos afirmar que a Seleção está presa em um momento de puro marasmo. E em vez de mudar ou propor algo de diferente, acaba caindo no erro de fazer a mesma coisa. Não se engane, amigo leitor, este Brasil que empatou sem gols contra a Colômbia tem bem mais desculpas para não ter entregado um bom resultado do que o Brasil que venceu a Venezuela jogando mal no meio de semana.

A começar pelo nível do adversário, pelas condições climáticas desgastantes e pela sensação de altitude experimentada em Barranquilla. Isso não absolve o Brasil de Tite pela tarde horrível e sem criatividade, mas ajuda a digerir o empate como um resultado não tão ruim assim. Afinal de contas, a Seleção segue invicta nas Eliminatórias e, mesmo sem inspirar muita confiança, não deve ser incomodada pelos demais, até por conta da vantagem adquirida na tabela.

O Brasil desse domingo errou demais, propôs pouco, cansou cedo e testou David Ospina tarde demais, em um chute de Antony. É possível resumir o enredo do encontro em poucas palavras. Quase ninguém chutou a gol, e se fosse para termos um vencedor, provavelmente este time deveria ter sido a Colômbia. Um jogo em que os goleiros são os melhores em campo diz muito sobre o que foi apresentado em 90 minutos.

Desta vez, nem Raphinha conseguiu causar o impacto esperado. Nervoso e bem marcado pela defesa colombiana, o meia do Leeds United bateu na parede e não conseguiu reagir. Antony acabou sendo o grande destaque do Brasil na segunda etapa, demonstrando vontade e ímpeto para driblar e arriscar. Foi dele a melhor chance criada, forçando Ospina a fazer uma defesa espetacular.

Do outro lado, Alisson foi testado várias vezes e não deu chances para a ofensiva cafetera. O desafio foi mais complicado na segunda etapa, com um bombardeio de Juan Quintero, Duván Zapata e Mateus Uribe. Mas não pareceu que o arqueiro brasileiro seria vazado em algum momento.

Neymar não sabe se vai ou se fica

E se vamos falar de interrogações, precisamos falar sobre Neymar. Surgiu, na manhã deste domingo, a entrevista concedida pelo atacante à DAZN, na qual ele revelou que não sabe se jogará alguma outra Copa do Mundo depois de 2022, no Catar. E os motivos, apesar de desagradarem os críticos do craque, são um tanto legítimos.

“Acho que é minha última Copa do Mundo. Eu encaro como a minha última porque não sei se terei mais condições, de cabeça, de aguentar mais futebol. Então vou fazer de tudo para chegar muito bem, fazer de tudo para ganhar com meu país. Para realizar o meu sonho desde pequeno e espero poder conseguir”. Toda vez que algum atleta, de qualquer modalidade que seja, evoca esse tipo de discurso, é preciso ter um pouco de cuidado ao analisar o contexto.

Ainda que seja cedo demais para que Neymar se posicione dessa maneira, cabe a nós compreender que o tipo de desgaste e cobrança a que ele está sujeito são pontos que estão consideravelmente fora da curva. Desde cedo, se espera que ele carregue as expectativas de todo um país que viveu um hiato de ídolos à altura da Seleção, sobretudo após a conquista do Penta, em 2002. Nessa eterna busca de um novo Romário, um novo Ronaldo, Neymar parecia ser a resposta ideal. Mas ele ainda não foi esse centralizador de um projeto vencedor e tampouco parece interessado em sê-lo.

Se Neymar diz que não sabe mais se vai aguentar futebol por muito tempo, faz sentido. Só ele sabe o peso que tem carregado desde que surgiu da base do Santos até o momento em que chegou ao Paris Saint-Germain como um potencial Bola de Ouro. Do ponto de vista individual, é coerente que alguém que sempre esteve no olho do furacão considere que o fim está chegando, porque na vida há muito mais o que ser feito além de se candidatar a herói nacional.

E para o Brasil, o que significa?

Se já foi difícil parecer competitivo de 2006 em diante, carente de referências técnicas e de liderança, o que será do Brasil sem Neymar de 2022 para frente? A Seleção precisa muito mais de Neymar do que Neymar precisa da Seleção. E enquanto não houver alternativas viáveis ao talento do camisa 10, a relação de dependência se prolongará. Isso, claro, considerando que a fala do jogador divulgada hoje não passa de um blefe.

O Brasil que ganhou a Copa América de 2019, sem Neymar, envolto em polêmicas pessoais, provavelmente não bateria de frente com equipes grandes da Europa. Dois anos se passaram e essa sensação piorou, pelo futebol apresentado e porque simplesmente é impossível, por conta de agenda, testar minimamente a bola do time de Tite com a de qualquer concorrente europeu sério. Qualquer comparação entre o Brasil e, vá lá, Itália, França, Bélgica e Espanha, para ficar só no Final Four da Liga das Nações, é mero exercício de imaginação. Porque nos parâmetros sérios de comparação e entrega, os brasileiros estão muito atrás.

Não faz tanto tempo assim que os resultados serviam para alimentar algum otimismo perto da Copa do Mundo. Esse tempo passou, porém. Com o time e as opções que tem, Tite não deveria estar com tantas dificuldades para fazer o coletivo desempenhar o potencial que sabemos que esses jogadores possuem. A Copa América fraca é um argumento relevante para essa compreensão, e os recentes jogos pelas Eliminatórias também.

O que esperar de uma Copa do Mundo iminente, num contexto em que o Brasil sequer consegue convencer contra a Venezuela e o Chile? As coisas magicamente vão se encaixar enquanto o abismo técnico e tático cresce cada vez mais em relação ao resto do mundo? Não é só chegar, exibir as cinco estrelas acima do escudo e esperar que qualquer adversário se curve a nós. Essa lição já deveria ter sido aprendida na Copa de 2018.

Com ou sem Neymar no barco, a Seleção de Tite precisa se reinventar neste ano que terá de preparação até chegar ao Catar. Resta saber se o passeio nas Eliminatórias irá satisfazer alguém ou se os envolvidos na missão de 2022 conseguirão racionalizar que o que estamos vendo é muito, mas muito pouco para quem se propõe a ser um concorrente sério.

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Felipe Portes

Felipe Portes é editor-chefe da Revista Relvado, zagueiro ocasional, ex-jornalista, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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