Brasil

Saudades do barbeiro Renatinho e do Garrincha loiro de Aguaí

O facebook me avisa que hoje é o Dia do Cabeleireiro. E eu me pergunto porque barbeiro virou cabeleireiro? Faz parte das muitas mudanças de um país que segue a agenda dos que se acham modernos. Se você for a um restaurante e elogiar o cozinheiro será olhado como um marciano. Cozinheiro não há mais, meu amigo. Agora, é chef. Diagramador já era, trabalhamos com webdesigners. No basquete, corta-luz atora é piquenrol. E o pessoal moderno do futebol chega ao orgasmo a cada novo hattrick, a cada assistência feita por playmakers.

Saudades do tempo em que beque era beque. Quando eu tentava jogar futebol – era ruim, era péssimo, era horroroso, mas era do no da bola – e de quando desisti e passei a ser apenas incentivador dos meus amigos da General Osório, que passaram a jogar no estádio Leonardo Guaranha. Zeca do Anísio, Mirto do Anísio, que depois virou Mirto do Itaú e da Ibéria, Nono, que virou Ratão, Valdirzinho Sorence, nosso Garrincha loiro, Tininho, Paulo Grilo, tantos outros.

 

Bem, os últimos exemplos antes dessa digressão, são apenas de submissão à língua de quem não nos colonizou. É algo comportamental, ah como esse Brasil seria diferente se fosse colonizado pelos holandeses e não pelos portugueses, já não ouviram isso. O que seria o Brasil dos holandeses? Um enorme Suriname?

Bem, deixando estrangeirismos de lado, tenho saudades do tempo em que barbeiro era barbeiro e salão era salão. Não sou machista, mas cada um no seu quadrado. Cortar o cabelo em barbearia é um ritual que está se perdendo. Sentar na cadeira Ferrante – são lindas, fortes e reclináveis – e falar sobre política, futebol e mulheres. Quem está governando bem, quem fez o mais belo gol, quem está se dando bem com quem. É possível algo parecido em um salão onde também haja mulheres esperando sua vez? Quem já foi a um barbeiro, sabe que não.

Mesmo os barbeiros estão mudando. Você se senta e o cara pergunta se quer máquina um ou dois ou zero. E toda vez eu respondo que não sei qual é uma ou outra. Qual corta mais rente. E sufoco a vontade de dizer que se eu entendesse disso, seria barbeiro. Já não há navalha para se fazer a barba. É na máquina. E, depois de tudo terminado, poucos me oferecem a possibilidade de escolher entre acqua velva ou talco. VÉRVA O TARCO, como se dizia antigamente.

Em São Paulo, há salões assim, mas essa volta ao passado é cobrada e bem cobrada. Cabelo + barba = 100 reais.

Saudades do Renatinho, que dividia o salão com seu Américo. Ia com meu pai e escutava os mais velhos falarem sobre tudo. Tinha um pouco de medo do vidro de mercurio cromo que ficava no pequeno armário. Sempre achava que, a qualquer momento, minha cabeça sangraria. Que o Renatinho erraria. Nunca ocorreu.

Tenho duas lembranças de lá. Em 1962, Edson de Souza garantia que o Brasil não passaria pela segunda fase da Copa. Que a gente seria eliminado pela Espanha. Não fomos, mas basta procurar no youtube para ver que o juiz nos ajudou bastante. Talvez seu Edson estivesse certo.

Outra lembrança é de 1964. Lutércio Martucci chegou gritando e soltando rojões. “Jango caiu, Jango caiu”. Todos se abraçaram. Alguém passou a mão na minha cabeça, dizendo, de maneira não verbal, que agora sim, eu poderia ter um futuro longe do comunismo.

Não foi assim. Houve um mergulho visceral na ditadura. Tortura, morte e durante muito tempo, nos salões do Brasil só de discutiu sobre gols, faltas, peitos e bundas. Política, não. Era proibido. Todos deviam pensar da mesma maneira. Ou, não pensar

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