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Santos contratou um condenado por estupro: mais do que dizê-lo, o importante é não esquecê-lo

O futebol é extremamente tolerante com casos de violência contra mulher e, se quiserem uma prova concreta, além de todo mundo (que se importa com o assunto) saber que o futebol o é, teremos um jogo emblemático na próxima quarta-feira.

De um lado, o Santos. Anunciou, no último sábado, com emojis e brincadeirinhas, a contratação de Robinho, condenado em primeira instância por estupro. Ainda não cumpriu pena, nem parece especialmente inclinado a se apresentar à Justiça italiana, mesmo que seja para tentar provar a inocência que alega ter.

Do outro, o Atlético Goianiense. Acusado de ter dado oito socos na esposa Milena Bemfica – o que ele admitiu ter feito –, o goleiro Jean foi contratado antes mesmo de sua culpa ter sido determinada, ou antes de começar aquele processo de “recuperação do ser humano” que os dirigentes usam de álibi quando aproveitam esse tipo de situação para contratar bons jogadores por preços baixos.

Não sei se eles realmente entrarão em campo e pouco importa. O jogo não vale três pontos, nem é sobre futebol. Vale o cinturão do Campeonato Brasileiro de Clubes Que Não Se Importam Com As Mulheres.

É uma disputa acirrada, na verdade. Antes do Atlético Goianiense, o Ceará tentou contratar Jean. Recuou por causa da reação da torcida. O goleiro Bruno, condenado por homicídio triplamente qualificado, recebeu oportunidades do Boa Esporte e do Poços de Caldas. Quase foi contratado pelo Fluminense de Feira de Santana e atualmente joga no Rio Branco, do Acre. Dudu, condenado a serviços comunitários por chegar às “vias de fato” com a esposa e a sogra em 2013, fugiu para o Catar após uma segunda denúncia de violência doméstica. O Palmeiras se despediu dele com um “até breve”.

O estupro é um crime cruel, não apenas pela sua natureza, mas porque é muito complicado de ser provado, por todo o contexto social que o envolve. Por isso que as acusações têm – na verdade, deveriam ter – mais peso do que normalmente têm. É um equilíbrio difícil entre a presunção de inocência e fazer Justiça às vítimas, embora as estatísticas indicam para onde a balança pende: não há dados oficiais de denúncias falsas de estupro no Brasil, mas segundo um artigo de pesquisadores das Universidades de Massachussets e Northwestern, em 2010, apenas oito em 136 relatos (5,9%) de violência sexual  em uma universidade entre 1998 e 2007 eram falsos. Segundo a pesquisa, a literatura sobre o tema indica que a taxa nos EUA varia entre 2,1% e 10,9%.

E isso porque o estupro é um crime subnotificado. Apenas 35% dos casos são relatados às autoridades. Há medo de uma reincidência – 70% dos casos acontecem em casa e maioria das agressões é cometida por pessoas próximas, como cônjugues e parceiros -, pelo estigma social – “mas olha a roupa que ela estava usando” – e porque na maioria das vezes a acusação não dá em nada – há 3,5 vezes mais registros de estupro do que presos por terem cometido o crime.

São dados importantes, mas nem se aplicam a Robinho. Ele já foi condenado em uma instância. Sua culpa foi determinada por um tribunal, em que pese ainda haver possibilidade de recurso. Que ainda haja um clube de futebol querendo contratá-lo é muito grave. O caso de Jean, porém, explica por que é assim: o Santos sabe que em breve nossa atenção será atraída por outra coisa.

O completo desrespeito do Santos às suas torcedoras não seria menos grave se Robinho chegasse com um contrato longo, ainda com plenos poderes para resolver jogos e campeonatos, mas é sintomático que o clube tenha aceitado a repercussão negativa e a degradação moral em troca de uma solução emergencial de cinco meses. É que o futebol não vê dessa maneira. A condenação de estupro simplesmente não é fatorada na decisão, ou se é, mal a influencia.

O que entra na conta é se o jogador é bom, como ele pode ajudar politicamente os dirigentes da situação e se as condições financeiras são realistas. O presidente santista Orlando Rollo assumiu o poder após o afastamento de José Carlos Peres. O clube está em frangalhos e, a partir da próxima terça-feira, estará novamente proibido de fazer contratações por causa de dívidas com o Huachipato e o Atlético Nacional. Haverá eleições em dezembro, e o ex-presidente Marcelo Teixeira – candidato, depois não-candidato – pagará dois dos cinco salários de Robinho, segundo o UOL.

Rollo havia desistido do negócio não porque tinha consciência, mas porque não dava para pagar. Agora dá, e se Robinho ajudar a apaziguar o clima na Vila Belmiro, e a grande tragédia é que talvez ele realmente possa, bola para a frente.

Foi assim com Jean, não foi? Quando surgiram as primeiras notícias sobre a agressão, houve comoção. Quando o Ceará quis contratá-lo, houve mais comoção. Quando o Atlético Goianiense realmente o contratou, houve revolta. E, depois, parou. Se não há um gancho, costuma parar. Neste domingo, contra o Bragantino, ele deve fazer seu 14º jogo pelo Campeonato Brasileiro, e quantas vezes você ouviu falar sobre a agressão de Jean nos últimos meses? É verdade que ele “pediu desculpas a todas as mulheres que se sentiram ofendidas e a todos em geral”, mas nenhum código penal prevê que a punição por oito socos na esposa é uma entrevista coletiva em tom de arrependimento.

Robinho foi contratado por um clube treinado por Cuca. Em 1987, ele passou 28 dias em uma prisão na Suíça, onde estava com o Grêmio para uma excursão, acusado de estupro de uma menor de idade ao lado de outros dois jogadores. Segundo esta matéria da Folha de S. Paulo, nove anos depois, eles chegaram a ser condenados, mas cumpriram pena em liberdade. Outra reportagem, da Placar, em 2004, uma das raras ocasiões em que Cuca tocou no assunto – “essa história é complicada” –  diz que ele acabou absolvido pela Justiça local.

Não faz tanto tempo que tomei conhecimento da acusação contra Cuca. Foi provavelmente no final de 2017, quando a jornalista Ana Carolina Silva compilou uma lista de jogadores envolvidos em agressões contra a mulher para o UOL. Outras pessoas provavelmente souberam antes. Em parte, foi culpa minha de não ter me informado melhor, mas um caso sério como esse deveria ser bombardeado a ponto de ser impossível que alguém passe 15 anos consumindo notícias de futebol além do recomendável pelos médicos sem conhecê-lo. Mas, se agora não se fala o bastante sobre o assunto, antes era muito pior, e não é coincidência que esse panorama tenha mudado significativamente à medida em que mais mulheres passaram a ter voz e relevância na cobertura do futebol.

Elas sempre tocaram nesse assunto. Elas nunca esquecem. Mas elas também não podem travar essa batalha sozinhas. É necessário que esse combate se torne o discurso hegemônico do mundo do futebol – dirigentes, imprensa, torcida – e que principalmente os torcedores, os homens, se disponham a ir além da indignação, mantenham a pressão a seus dirigentes, protestem (como fizeram as Feministas do Galo), cobrem, continuem protestando e cobrando e até mesmo tomem ações concretas, como cancelar o plano de sócio-torcedor.

É necessário, também, que condenações ou acusações sérias de estupro e violência doméstica não sejam notas de rodapé, não sejam tratadas como “problemas pessoais”, não sejam sobrepostas pelos melhores momentos da última rodada, não sejam esquecidas porque estamos cansados de falar no assunto, não sejam esquecidas porque não dão mais audiência ou cliques, não sejam esquecidas porque o cara joga bem e aceita ganhar pouco, não sejam esquecidas porque o cara é um ídolo que marcou não sei quantos gols e me deu não sei quantas alegrias.

Não é fácil, não é simples, não tem receita. A relação que o torcedor tem com o futebol é complexa, emocional, por vezes irracional. A indústria, do jogo em si e da imprensa, tem suas exigências, pressões enormes por resultados. Para ser sincero, eu ainda não sei como fazer isso, mas precisamos encontrar uma maneira para que elas não sejam esquecidas para que, na próxima vez que um clube decidir contratar um condenado por estupro, ele não se sinta protegido pela certeza de que daqui a algumas semanas estaremos todos falando de outra coisa.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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