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Como o Sampaio Corrêa cresceu após deixar Rio-SP para trás

Santa Cruz lota o Arruda, uma torcida fanática e fiel faz uma linda festa, o time conquista uma merecida vaga e volta para onde nunca deveria ter saído. Tudo verdade, mas a história coral já foi contada várias vezes nos últimos anos. E a final da Série C de 2013 tem outra grande história, e outra grande história nordestina. O Sampaio Corrêa também chegou à decisão, e dando de ombros (tanto no campo quanto na arquibancada) para o futebol do Sudeste para recolocar o Maranhão no cenário nacional.

A torcida da Bolívia Querida demorou para confiar no time, mas eventualmente o abraçou e levou o clube a uma média de público de dar inveja a equipes de Série A. Foram dois acessos seguidos, todos com estádios cheios nas fases finais. Na Série D do ano passado, as partidas da primeira fase não tiveram mais do que 6 mil torcedores no estádio Nhozinho Santos, mas a reforma do Castelão terminou e o estádio recebeu 40 mil nas oitavas e na decisão. As quartas e a semi tiveram 34 mil pessoas em cada jogo.

Na Série C, a história foi parecida. O público cresceu gradativamente: 9 mil no primeiro jogo em casa, 13 mil no segundo, 18 mil no terceiro e 27 mil no quarto. A média da primeira fase, após dez partidas, foi de 20.023 pessoas. O auge do Castelão na campanha foram as quartas de final, que valiam a vaga na segunda divisão, com 43.501 torcedores assistindo à vitória por 5 a 3 sobre o Macaé.

“A torcida do Sampaio Corrêa é de time grande, mas estava adormecida”, explica o jornalista Afonso Diniz, editor do site Globoesporte do Maranhão. “É fácil um time de Série A ter grande torcida. Em Série D, e não indo bem nela, é complicado. Ao passo que o time foi melhorando nas competições nacionais e mostrando que tinha capacidade, a torcida abraçou. Hoje, encher o estádio não é novidade.”

Novidade foi a torcida comparecer com a camisa do Sampaio Corrêa. É comum que moradores de cidades que não têm clubes nas principais divisões do futebol brasileiro acabem torcendo para o time local e para um grande do Sudeste, como Flamengo, Vasco ou Corinthians. A campanha “Jogo do Sampaio, camisa do Sampaio” serviu para reeducar os apaixonados pelo time de São Luís. “O Sampaio foi aumentando o seu público e iam com as camisas desses times”, disse. “Ainda hoje tem gente que torce com a camisa do Palmeiras.”

Não conseguiu ficar longe
Flávio Araújo treina o Sampaio Corrêa pela terceira vez na carreira
Flávio Araújo treina o Sampaio Corrêa pela terceira vez na carreira

Outro fator muito importante para o acesso do Sampaio Corrêa foi o técnico Flávio Araújo. Ele iniciou a sua segunda passagem no clube maranhense em 2012, depois de o time ser eliminado do primeiro turno do estadual, e mudou tudo. “A chegada do Flávio é o divisor de águas”, comenta Bruno Alves, repórter da rádio Mirante AM. “O treinador botou o time no seu esquema 4-2-3-1, contou com a grande fase do Pimentinha e do Roniery pela direita, além do Cleitinho na esquerda e o Eloir no meio.”

Flávio foi campeão maranhense e da Série D, mas não quis renovar. Voltou este ano após alguns meses no Remo para o lugar de Everton Goiano. “Com Everton Goiano, o tricolor teve um desempenho abaixo das expectativas no primeiro semestre deste ano”, acrescentou Gustavo Arruda, repórter do Portal Imirante. “Eliminado de forma inacreditável para o Campinense na Copa do Brasil e sem vaga na final do Maranhense, o técnico caiu antes da C. Com Flávio Araújo fracassando na tentativa de colocar o Remo em uma divisão (terceiro colocado do Paraense), o casamento foi reatado”.

Para Afonso Diniz, Flávio tem dois méritos muito grandes: fazer a equipe jogar bem fora de casa e indicar jogadores locais ao invés de medalhões e refugos do Sudeste que exigem salários milionários. “Ele às vezes não escala o time da forma correta, mas é especial”, comenta.

A exceção
O vereador Sérgio Frota (PSDB) banca o time do próprio bolso
O vereador Sérgio Frota (PSDB) banca o time do próprio bolso

O sucesso do Sampaio Corrêa é um ponto fora da curva. O futebol maranhense continua com vários problemas. Clubes que não pagam salários e não conseguem chegar ao fim de um campeonato. O estadual de 2013 chegou a ter jogo com 88 pessoas (Americano 1 x 0 Imperatriz) e a média foi de pouco mais de mil presentes. O Sampaio consegue manter-se financeiramente saudável com a ajuda do vereador Sérgio Frota (PSDB), presidente do clube desde 2007.

“O clube vive do seu próprio presidente, que é estourado, até toma decisões precipitadas. É uma diretoria unilateral, centralizadora, mas tira do próprio bolso e paga em dia os salários. O Sampaio Corrêa é uma individualidade dentro do futebol maranhense”, argumentou Diniz.

Ano que vem, o clube vai ter a oportunidade de voltar à primeira divisão – o Maranhão não tem time na elite desde 1986 – e a aposta deve ser a mesma dos últimos anos: manter o elenco. Da equipe que caiu para a quarta divisão em 2009, jogadores como o goleiro Rodrigo Ramos, o zagueiro Johildo, o meia Eloir e o atacante Célio Codó continuaram no time. É necessário aguentar as propostas por destaques como o zagueiro Paulo Sérgio e o volante Jonas. E, se possível, não desperdiçar o dinheiro que vai chegar.

“Considerando um aumento na receita do clube, com a chegada dos R$ 3 milhões do PPV, fora a possibilidade de ganhos com patrocínios, se bem investido o Sampaio tem condições até de ser uma Chapecoense e surpreender”, afirmou Alves. “Entretanto, isso esbarra em um porém. A diretoria do Sampaio não tem o feeling necessário para contratar jogadores. Nos últimos dois anos isso até mudou e ajudou no crescimento do time, mas o número de contratações inertes ainda impressiona. Danilo Cruz, Rômulo, Douglas Silva e André Beleza são só alguns exemplos dessa temporada”.

Por enquanto, o renascimento do Sampaio Corrêa ainda não representa um fortalecimento geral do futebol maranhense, mas atrai atenção para o estado. E um clube que coloca 40 mil torcedores no estádio, independente da camisa que eles estejam utilizando, merece muito voltar à segunda divisão e brigar por um lugar na elite.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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