Ah, o . Época em que caem por terra as convenções da sociedade, onde cada um pode brincar de ser o que bem entender. Seja um super-herói, uma odalisca, um vampiro, a Cléopatra… Momentos em que, em nome da diversão e sem maiores consequências, homem pode virar mulher, mulher pode virar homem, Neymar pode usar um corte de cabelo decente (o que não ocorrerá), qualquer um pode ser a Megan Fox e até pessoas sem um pingo de criatividade podem virar publicitários e trabalharem com a conta de uma grande cervejaria. OK, essa última parte tem acontecido durante o ano inteiro.

Brasil afora, escolas de samba escolhem as histórias que servirão de base para os seus desfiles. É verdade que o interesse do público por elas anda em queda. Em parte, porque há uma clara dificuldade de comunicação com a plateia. Mesmo Paulo Barros, o novo xodó do povão, diverte com suas referências pop, mas não chega a despertar emoções. Pensando nisso, ofereço algumas sugestões de boas histórias a serem contadas, todas com um pezinho no meio futebolístico, honrando preferência nacional. Para que ninguém diga que elas não dão samba, já as apresento devidamente carnavalizadas. Ou seja, com as forçadas de barra tradicionais. Vamos a elas:

no Brasil das Maravilhas

Enredos infantis sempre evocam memórias saudosas. O intenso colorido transforma tudo em sonho e nos desconecta um pouco da dura realidade do cotidiano. Algo parecido aconteceu com o herói dessa , um menino baiano que só se sentia à vontade jogando bola. E ele era muito bom nisso, um dos melhores da turma. Só que sempre foi meio mimado e bastante reclamão. Numa dessas, seus coleguinhas cansaram de tanto chororô e ordenaram: “a partir de agora, você não pode mais jogar com a gente!”. Sem a sua única diversão, o garoto Bebeto tentava se esconder a todo custo da maturidade, fugindo para os arbustos do jardim de sua casa sempre que surgia um tiquinho de responsabilidade.

Um belo dia, encontra um coelho vestindo uma camisa da seleção brasileira. Decide segui-lo até a sua toca e acaba sugado por um imenso túnel, que o leva a um reino encantado, onde as críticas são proibidas e os elogios vazios obrigatórios, do jeitinho que ele gostava. Logo de cara, é incumbido de zelar pelo bem estar do povo de sua nova casa. Mas como ele poderia fazer isso, se para ele tudo sempre estava lindo e maravilhoso? Deslumbrado, o menino Bebeto só saiu desse transe quando conheceu um senhor de cartola e discurso ultrapassado e ufanista. Dele, recebeu o convite para trabalhar na organização do maior espetáculo que aquelas terras já haviam visto.

Tudo que Bebeto precisava fazer era servir de figuração e não atrapalhar os adultos. Sorrir e acenar, como se fosse um pinguim de Madagascar. Sua inércia agradou tanto, que a ele foi destinada outra missão: tomar conta do futuro da nação. Embalar feito neném as crianças do Brasil das Maravilhas, mesmo que ele mal soubesse tomar conta de si próprio. O enredo termina com a chegada do circo da Copa à terra encantada. Do alto de gigantescos elefantes brancos, simbolizando os novos castelos de areia de Brasília, Manaus, Cuiabá e Natal, José Maria Marin, Sepp Blatter, Jérôme Valcke e Ronaldo acenarão para o público. Só não espere ganhar o título com um enredo assim. Porque legado é algo que passará longe dessa história.

De bar em bar, Didico, um palerma

Adriano

Homenagens sempre fizeram sucesso entre as escolas de samba. E voltaram à moda depois de 2011, quando a Beija-Flor se sagrou campeã celebrando o rei Roberto Carlos e a Vai-Vai levantou a taça com um enredo sobre o azarado (ou sortudo, dependendo de como você vê o copo) maestro João Carlos Martins. Craques da bola também já viraram enredo, como Ronaldo e Nílton Santos. Não seria a hora de ser reverenciado por tudo que fez (e, principalmente, pelo que deixou de fazer) na carreira? Para dar aquele toque pessoal à homenagem, nada mais justo que a vida do artilheiro seja contada do ponto de vista etílico.

O desfile começa com o abatido infante Didico tomando a sua singela mamadeira, em um mundo de trevas e tristeza, um verdadeiro caos apocalíptico que representa a vida do jogador antes de conhecer as delícias do álcool. Em seguida, virão a primeira cervejada com os amigos, os botecos pés-sujos dos tempos de juventude, os bailes funk, as farras na concentração, as boates da moda no Rio, até chegar à badalada noite de Milão. Cada carro alegórico exalará o aroma de uma das bebidas prediletas do atacante, inebriando (literalmente) o público presente.

Como nem tudo são flores e drinques, o último deles representará a ressaca, retratando os efeitos negativos que a boemia trouxe à trajetória de Adriano. Na alegoria, com cheiro de vômito, o homenageado acenará para as arquibancadas, de dentro de uma redoma de vidro, uma prevenção para evitar que ele despenque lá de cima. Se o carnavalesco for chegado em uma polêmica com a Igreja Católica, poderá trazer um Cristo Redentor com o rosto do atacante. Logicamente, a imagem acabaria proibida e cruzaria a avenida coberta por plástico preto e uma faixa dizendo “Que Deus perdoe essas pessoas ruins”.

Mais vale um que me carregue, que um Ganso que me derrube, lá no Morumbi

Jadson e Ganso, do São Paulo

O enredo começa com a domesticação dos animais, ainda na pré-história. A partir dela, o homem passou a delegar a outras espécies alguns aspectos físicos do seu trabalho de subsistência. A invenção da roda e do fogo, as pinturas rupestres, os dinossauros, tudo que gerar um visual bacana e puder enrolar para chegar no verdadeiro tema do enredo será bem-vindo. Entre as manifestações culturais dos povos antigos, será mostrada a glorificação do ganso, que para algumas tribos era tão sagrado quanto a vaca é até hoje para os indianos mais conservadores. Com seu andar elegante, eram utilizados para arar e semear a terra, na cadência de seu rebolado.

Um salto na história acontece e chegamos à época da revolução industrial, onde um magnata de fala excessivamente pausada e bochechas excessivamente coradas planeja a formação da maior das lavouras. Para tal, resolve aposentar os equipamentos de tração tradicional e trocá-los todos por máquinas. Inspirado pelas enciclopédias históricas que devorava entre uma leitura de rótulo de garrafa de uísque e outra, abraça a crença no ganso e investe mundos e fundos para adquirir vários exemplares da espécie. A eles seria encarregado o trabalho de comandar todo o maquinário, poupando os gastos com a mão de obra do proletariado.

Balançou, não deu certo não, pois não passou de ilusão. A adaptação do ganso a um novo ritmo de trabalho, alucinante por visar a produção em série e não mais a delicadeza artesanal, se mostra penosa (com trocadilho). Para a moral da história, entra em cena um camponês chamado Jadson, que prova ao bonachudo magnata que ele sim, pode dominar aquelas bestas mecânicas com a mesma eficiência e dedicação com a qual comandava os animais de sua acanhada fazendinha. Trata-se de um enredo para escolas que se orgulham de fazer desfiles “tecnicamente perfeitos”, sem se importar que o povão os considere extremamente sonolentos.

Peguei um Ibra no norte

Ibrahimovic, destaque do PSG

Grandes casos de amor sempre geram histórias emocionantes. Ainda mais quando esse amor é proibido, por qualquer razão que seja. Pensando nisso, alguma escola pode investir em um enredo sobre o episódio de carinho mútuo entre um certo sueco e um espanhol, o qual conheceu durante um período de férias (muito bem remuneradas) em uma região mediterrânea, no norte da Espanha. O maquiavélico professor engomadinho e a sedutora feiticeira colombiana com o diabo nos quadris (eita demônio de sorte!), responsáveis por separar o casal de bons e íntimos amigos, serão os vilões dessa fábula. O abre-alas será impactante, com 60 metros de comprimento. 50 deles são só do nariz de uma das esculturas.

Para dar força aos rapazes e mostrar que nem tudo está perdido, bem como que eles não foram os únicos a sofrerem preconceito parecido, desfilarão pela avenida outros romances trágicos imortais, como os de Romeu e Julieta, Orfeu e Eurídice, um faraó e uma múmia (porque todo enredo que se preza tem de passar pelo Egito) e dos cowboys gays (que na verdade eram pastores bissexuais, mas isso não vem ao caso) de Brokeback Mountain. No final, tudo acaba em carnaval (porque todo enredo que se preza acaba em carnaval), com a paixão foliã entre o pierrô e a colombina. Não importa quem é o pierrô e quem é a colombina entre o sueco e o espanhol, não é da nossa conta. O importante é que eles sejam felizes. E que aquela gostosa da feiticeira colombiana seja rainha de bateria. Evoé!