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Saída de Crespo é mais uma lombada em uma gestão de futebol acidentada do São Paulo

O clube paulista agiu rápido e já anunciou o retorno de Rogério Ceni, que começou a carreira de técnico no Morumbi em 2017

Em entrevista em setembro ao Blog do Menon, Julio Casares afirmou que 2021 seria um ano de agonia e parece que ele não estava mentindo. Presidente desde janeiro, com o discurso de gestão moderna e colocar a casa em dia, o ano tem sido dos mais turbulentos para o São Paulo que, nesta quarta-feira, ficou mais uma vez sem treinador após o anúncio da saída de Hernán Crespo em “comum acordo”, como tem sido frequente neste ano em que foi introduzida a regra, entre aspas, que limita, entre aspas, demissões de treinadores.

Em um vácuo, a saída de Crespo, por comum acordo, convidado a se retirar ou de fato demitido, faz todo sentido porque o trabalho do argentino no Morumbi passa longe de ser bom. Está em 13º lugar, com uma sequência maravilhosa de cinco empates consecutivos e apenas uma vitória nos últimos dez jogos. Se é possível apontar falhas no elenco, foi eliminado da Copa do Brasil pelo Fortaleza, que não tem muito mais recurso, e pelo rival Palmeiras na Libertadores.

O título paulista foi importante pelo fim do jejum, mas passou a ficar pequeno diante de todos os outros problemas. Desde a conquista estadual, é difícil lembrar um grande jogo do São Paulo sob o comando do argentino, tirando a ótima vitória sobre o Racing nas oitavas de final do torneio sul-americano. A regra tem sido uma coleção de atuações fracas.

A saída de Crespo, porém, acontece dentro de um contexto. Um mais amplo, em que apenas Muricy Ramalho tem a receita para começar e terminar uma temporada como técnico do São Paulo neste século, e outro menor, de uma gestão de futebol acidentada sob o comando de Júlio Casares desde as primeiras semanas.

Há méritos. E ponderações. O São Paulo encerrou um jejum de nove anos sem títulos. Por menor que isso pareça no momento, por mais rápido que uma taça estadual derreta hoje em dia diante do restante da temporada, foi motivo de alegria e comemoração ao torcedor. A situação financeira herdada da gestão Leco era caótica, com explosão da dívida e queda de faturamento, em parte por causa da pandemia.

Entrou dinheiro das vendas de Antony e David Neres ao Ajax para impedir que fosse pior. Ainda assim, a diferença entre o orçamento para a temporada e o que foi de fato gasto chegou a quase R$ 200 milhões. Embora não seja tão grande quanto se propagandeou, Casares conseguiu fechar um patrocinador importante e está tentando acertar as contas. Bom para ele e para o clube.

Tudo isso posto, Casares não tem tomado as melhores decisões no futebol. Com todos os seus problemas, Fernando Diniz havia conseguido brigar pelo título brasileiro e o período de maior baixa coincidiu com a troca de gestão. O calendário eleitoral e o esportivo ficaram desencontrados por causa da pandemia, mas, em meio à reta final do Brasileirão, houve mudanças importantes, como a demissão do gerente de futebol Alexandre Pássaro, que desagradou jogadores e comissão técnica. O ambiente ficou imediatamente conturbado e pelo menos não contribuiu para que houvesse uma reação dentro de campo.

O São Paulo venceu apenas duas vezes entre o pleito, em 12 de dezembro, e a saída de Diniz, no começo de fevereiro. Apesar da queda de rendimento, estava em quarto lugar, ainda precisando de pontos para ganhar vaga direta na fase de grupos da Libertadores. Hernán Crespo foi anunciado pouco depois, mas assumiu apenas no começo do Campeonato Paulista. O interino Marcos Vizolli terminou o Brasileirão e conseguiu os pontos necessários para se manter entre os quatro primeiros – por pouco.

Os rombos financeiros fizeram com que fosse impossível recusar a proposta por Brenner, um dos destaques do time, que representava quase metade do previsto no orçamento em venda de jogadores. Houve uma queda técnica importante. Pelo mesmo motivo, os recursos à disposição para fazer contratações foram escassos, e o São Paulo precisou recorrer principalmente a empréstimos e reforços que não exigiram taxas de transferência. Nesse cenário, há sempre pouca margem de erro.

O aproveitamento não foi perfeito. Emiliano Rigoni foi um bom achado. E Miranda é o Miranda. Mas outros nomes como Eder, Orejuela, William e Benítez não deram tão certo quanto se esperava, seja por questões físicas ou por não terem se encaixado no time. Durante a temporada, ainda houve a saída de Daniel Alves.

Se a maior parte da culpa não pode ser colocada nesta administração, a resolução também não foi super bem conduzida. Devendo dinheiro ao lateral direito, o São Paulo não teve poder de barganha para impedi-lo de ir à Olimpíada, da qual o jogador retornou com declarações danosas à imagem do clube. A situação inteira foi embaraçosa e terminou com o veterano ganhando salário de craque para não defender mais o São Paulo.

Havia motivos legítimos para demitir Hernán Crespo. A equipe realmente não vinha bem. Mas o torcedor são-paulino está careca de saber que a troca de treinador não passa de um paliativo que não serve de remédio para uma doença muito mais ampla que, se não começou na gestão Casares, também não está sendo devidamente tratada.

E sempre há o risco de piorar. O São Paulo agiu rápido e promoveu o retorno de Rogério Ceni, que teve sua primeira experiência como técnico no Morumbi, em 2017, com acertos e erros típicos dos iniciantes. Está um profissional mais maduro agora, ou pelo menos seria o lógico, mas chega em um período mais de baixa após o trabalho no Flamengo. Para o bem de sua reputação, diante da situação na tabela de classificação e o ambiente ainda conturbado do clube, que não seja esse o caso.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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