Brasil

Ronaldo de todos brasileiros

Um menino franzino, rápido, que finalizava com precisão. Esse era o Ronaldo que surgiu, precocemente, no Cruzeiro em 1993. Foi naquele ano, em março, que ele foi para as categorias de base do clube mineiro, depois de passar pelo São Cristóvão, seu primeiro clube. E o início foi em território internacional, contra o Benfica.

Sem muitos atacantes no elenco, o técnico Carlos Alberto Silva testou o garoto, a pedido da diretoria, em excursão por Portugal. Foi titular nos jogos, vestindo a camisa 9, e marcou dois gols, contra Peñarol e Belenenses. Dali em diante, passou a ser titular do time. E no Campeonato Brasileiro daquele ano, mostrou que não seria por acaso que os italianos passaram a chamá-lo de Fenômeno.

Os números, colocados no papel, são impressionantes. São 59 jogos com a camisa Celeste e 57 gols. Se a média chama a atenção, impressionante mesmo é ver o que ele fazia, aos 17 anos, como titular do Cruzeiro. No Campeonato Brasileiro de 1993, fez 14 jogos e marcou 12 gols. Cinco deles foram na mesma partida, no impressionante jogo contra o Bahia. O Cruzeiro venceu por 6 a 0 e Ronaldo foi o artilheiro da partida.

Em 1994, foi o camisa 9 do Cruzeiro na Libertadores, que disputou pelo clube mineiro. E foi importante na campanha do time, sendo fundamental na partida contra o Boca Juniors, pela fase de grupos, quando foi o personagem da partida na vitória. O time acabou eliminado nas oitavas de final pelo Unión Española, mas já tinha marcado seu nome na história da competição.

Seleção Brasileira

O desempenho no Cruzeiro o levou à seleção, ainda antes da Copa do Mundo de 1994. Foi testado por Carlos Alberto Parreira em 23 de março daquele ano, em um amistoso contra a Argentina. Não marcou gol. Sua estreia balançando as redes foi em amistoso contra a Islândia, em 3 de maio de 1994. Vestindo a camisa 7, o atacante foi um dos principais nomes do time e marcou ainda no primeiro tempo, em chute de fora da área. Confira:

O casamento entre Ronaldo e Seleção Brasileira, então, era oficializado. Um casamento que seria só de sucesso a partir dali. Ronaldo ainda participou do amistoso contra Honduras, vencido pelo Brasil por 8 a 2, último antes da Copa. No Mundial, não teve chance de entrar, mas fazia parte do grupo campeão do mundo.

Foi para o PSV, ainda com pouco antes de completar 18 anos. Fez seu último jogo pelo Cruzeiro em um amistoso com o Botafogo, que terminou empatado por 1 a 1, no dia 7 de agosto de 1994. Com o sucesso no time holandês, foi convocado para o último amistoso da Seleção em 1994, contra a Iugoslávia.

Ronaldo tornou-se presença constante na Seleção e marcou gols na Copa Umbro, contra a Inglaterra, e em amistosos daquele ano. Em 1996, Ronaldo fez parte da Seleção que foi à Atlanta para a disputa das Olimpíadas. Começou como reserva, mas acabou tomando a posição de Sávio no ataque e foi importante na campanha, marcando cinco gols na campanha que acabou com a medalha de bronze.

Depois das Olimpíadas, Ronaldo, já no Barcelona, já era titular da Seleção principal. Aos 20 anos, era a maior estrela de um time que estava em transição, mudando o elenco experiente de 1994 rumo à Copa de 1998, na França.

Em 1997, ano anterior à Copa, Ronaldo era a estrela e fez uma parceria com Romário, astro de 1994, juntando dois dos maiores gênios do futebol brasileiro. Além de amistosos, jogaram o Torneio da França, uma espécie de preparatório para a Copa do Mundo. Em seguida, foi um dos protagonistas na campanha do título brasileiro na Copa América, com cinco gols marcados.

Àquela altura, Ronaldo estava com a transferência acertada para a Internazionale, na temporada que antecedeu a Copa do Mundo. Naquele ano, no dia 4 de dezembro, jogou um amistoso pela seleção da Fifa contra a seleção da Uefa e marcou dois gols. Pouco depois, fez parte da campanha brasileira na Copa das Confederações, que terminou em título brasileiro. Novamente, a parceria com Romário foi um sucesso e a expectativa por ver dois dos maiores astros em campo era enorme.

O ano de 1998 foi o da estreia de Ronaldo em Copas do Mundo. O seu primeiro gol veio na segunda partida brasileira, contra Marrocos, em um lindo chute da entrada da área. Nas oitavas de final, marcou dois contra o Chile. Na semifinal, marcou o gol no 1 a 1 contra a Holanda.

Antes da final, um dos episódios mais polêmicos da sua história na Seleção. Ronaldo teve uma convulsão horas antes do início da partida. O técnico Zagallo chegou a escalar Edmundo como titular para a final contra a França, mas Ronaldo voltou do hospital e disse que queria jogar. O departamento médico liberou e o atacante foi a campo. O Brasil perdeu por 3 a 0 e o episódio tornou-se um dos motivos alegados por aqueles que gostam de teorias conspiratórias – quando foi apenas uma derrota brasileira em um dia que Ronaldo não estava no seu melhor.

No ano seguinte, Ronaldo jogou a Copa América, já sob novo comando, com Vanderlei Luxemburgo. O Brasil foi novamente campeão e Ronaldo marcou cinco gols na campanha, quando teve Amoroso como parceiro de ataque. Naquele ano, porém, Ronaldo começou a viver seu drama com lesões. Disputou seu último amistoso contra a Holanda, no dia 9 de outubro – empate por 2 a 2.

Em novembro, lesionou o joelho e teve que ficar quase cinco meses afastado. No jogo que voltou, teve uma outra lesão, ainda mais séria, que o tirou de campo por mais de um ano. A contusão aconteceu no dia 12 de abril de 2000 e Ronaldo só voltou a jogar no dia 23 de julho de 2001, em amistoso na pré-temporada da Internazionale.

Mesmo jogando poucas partidas pelo clube, Ronaldo voltou à Seleção em 2002, no ano da Copa. Ele foi uma aposta pessoal de Luís Felipe Scolari, que o convocou para um amistoso contra a Iugoslávia, no dia 27 de março. Ronaldo estava há dois anos e cinco meses sem vestir a camisa da Seleção. Apesar de não ter ido bem, Scolari apostava que o jogador recuperaria sua melhor forma.

Jogou ainda amistoso contra Portugal e também não marcou gol, antes de receber a convocação definitiva para a Copa do Mundo. Voltou a marcar no último amistoso preparatório, contra a Malásia.

Veio a Copa do Mundo. E Ronaldo surpreendeu o mundo. Com um desempenho excepcional e com um parceiro genial, Rivaldo, foi o artilheiro da Copa do Mundo com oito gols, sendo dois deles na final contra a Alemanha. Um desempenho incrível, decisivo e digno dos melhores momentos de Ronaldo.

Em 2003, disputou as eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006. Continuava bem, marcando gols e sendo a figura mais importante da Seleção Brasileira. Em 2004, fez um jogo memorável contra a Argentina, no Mineirão. Marcou os três gols na vitória por 3 a 1, foi o nome do jogo e saiu de campo ovacionado. Terminou a campanha brasileira nas eliminatórias com nove gols marcados.

No ano de 2006, Ronaldo chegou já questionado pelo seu excesso de peso. No clube, era muito cobrado e na Seleção o seu desempenho era colocado em dúvida diante da aparente má forma. Especialmente depois do desempenho excepcional da Seleção, sem ele, na Copa das Confederações do ano anterior.

Chegou à Copa do Mundo muito acima do peso, mas o time, parecia, poderia compensar. Com Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Adriano, formou o que a imprensa passou a chamar de “quadrado mágico”, com o Brasil sendo amplo favorito para a conquista do título. E a campanha começou dando pinta que o time poderia mesmo levantar a taça.

Depois de passar em branco contra Croácia e Austrália, marcou dois gols contra o Japão, no último jogo da fase de grupos. Já nas oitavas de final, fez um dos gols da vitória sobre Gana por 3 a 0, um belo gol driblando o goleiro. Ele ainda não sabia, mas seria o seu último com a camisa do Brasil. Nas quartas de final, a França venceu o Brasil por 1 a 0 com show do então companheiro de clube, Zinedine Zidane.

Pela Seleção, Ronaldo fez 97 jogos e marcou 62 gols. Alguns deles, tão decisivos que ficarão marcados para sempre.

Veja todos os gols de Ronaldo em Copas:

A derrota na Copa, o excesso de peso e o desempenho irregular no Real Madrid o levaram a um claro declínio. Não apareceu mais nas convocação da Seleção Brasileira e acabou indo para o Milan, no início de 2007. Lá, sofreu a lesão que parecia que o obrigaria a encerrar a carreira, em 2008. No dia 13 de fevereiro, mais uma vez o seu joelho foi problema e o jogador, que tinha contrato com o Milan até o final da temporada, voltou ao Brasil para se tratar.

Ficou no Flamengo, se recuperando da cirurgia e esperando a chance de voltar a jogar. Sem contrato, poderia ser contratado por qualquer clube, mas a desconfiança sobre a sua condição física após a lesão, somada ao excesso de peso, tornava a contratação altamente arriscada. O Flamengo, onde ele treinava, era o favorito a ficar com o ídolo, flamenguista declarado.

No Corinthians, mais um renascimento

No final de 2008, Ronaldo acertou a transferência para o Corinthians, em uma ousada ação do clube paulista. Em dezembro, o atacante foi apresentado dizendo que era “mais um louco para esse bando de loucos”, referindo-se à torcida corintiana.

Demorou, mas ele entrou em campo no dia 4 de março, contra o Itumbiara, pela Copa do Brasil. Entrou em campo, mesmo fora de forma, e deixou a torcida na expectativa. Quatro dias depois, em um domingo, dia 8 de março, o atacante entrou em campo no segundo tempo da partida contra o Palmeiras, em Presidente Prudente. E aos 47 minutos, já nos acréscimos, marcou, de cabeça, o gol de empate do time. O alambrado do estádio veio abaixo com o jogador pendurado e a torcida festejando. Contra o São Caetano, no dia 11 de março, marcou pela primeira vez no Pacaembu, sua nova casa.

Foi fundamental para o Corinthians na conquista do Campeonato Paulista, ao marcar na semifinal contra o São Paulo, deixando para trás, na velocidade, o zagueiro Rodrigo e dando um toque de classe, e marcando dois gols na Vila Belmiro, na final contra o Santos. Um deles, um gol que mostrava a genialidade do atacante, com um corte seco em Triguinho, lateral do Peixe, e um toque por cobertura de canhota sobre Fábio Costa.

Continuou sendo decisivo na Copa do Brasil. Ajudou o time a eliminar o Atlético-PR e, na final da competição, fez um jogo memorável contra o Internacional, na vitória por 2 a 0, quando o camisa 9 marcou o segundo gol do time, depois de bela jogada. Somado ao empate por 2 a 2 na partida de volta, o Corinthians levantou mais uma Copa do Brasil, desta vez com o fenômeno em campo.

Nesse ano, lesionou a mão em uma partida contra o Palmeiras, o que o deixou dois meses fora dos gramados. O jogador teve que operar a mão e o tempo parado ajudou a manter Ronaldo fora de forma. Como o time não tinha aspirações no Brasileiro, acabou não tendo influência na campanha.

Em 2010, com a Libertadores, Ronaldo era o maior símbolo do Centenário do Corinthians. Embora sua presença em campo fosse sempre muito comemorada, seu desempenho na Libertadores não foi como o esperado. Acabou se afastando do time para “recuperar a forma”, conforme justificou o clube, apenas para se preparar para o confronto com o Flamengo, nas oitavas de final.

As duas semanas não bastaram e, depois de 14 dias parado, o fenômeno fez uma de suas piores camisas com a camisa do Corinthians, no dia 28 de abril, jogo de ida contra o Flamengo na Libertadores, vencido por 1 a 0 pelo rubro-negro. Na partida de volta, uma semana depois, viu o seu time fazer um grande primeiro tempo e a inda marcou um gol que dava a classificação ao Corinthians. Mas também viu o time fazer um segundo tempo muito ruim, sofrer um gol de Vagner Love, e ficar abalado, sem conseguir reagir. A eliminação na Libertadores veio mais uma vez, mesmo com Ronaldo.

No Campeonato Brasileiro, sofreu uma lesão muscular séria depois do primeiro jogo da equipe na competição, e acabou ficando quase quatro meses sem jogar. Voltou, fez um jogo, mas não conseguiu a sequência de partidas. Depois de novo jogo contra o Atlético-PR, em Curitiba, ficou fora novamente da equipe. Só voltou na reta final, contra o Guarani, como a grande esperança do time para conquistar o título.

Fez sete jogos consecutivos pelo time, que liderava rumo ao topo da tabela. A torcida esperava que o fenômeno, novamente, conseguiria superar os problemas e terminar o ano com o título brasileiro. A lesão contra o Vitória impediu que o jogador completasse os nove jogos planejados quando voltou de lesão.

Contra o Goiás, na última rodada, não conseguiu ser decisivo e viu o Corinthians empatar com o time reserva dos esmeraldinos, o que permitiu a ultrapassagem do Cruzeiro, que terminou em segundo lugar, e empurrou o time para a primeira fase da Libertadores – precisando fazer um confronto eliminatório antes da fase de grupos.

Ainda mais fora de forma, Ronaldo começou 2011 fazendo jogos apagados. Uma criança que foi ver o camisa 9 pela primeira vez não imaginaria que aquele jogaro foi um dos maiores da história.

No confronto contra o Tolima, veio a pá de cal. O primeiro jogo foi muito ruim, com o time todo do Corinthians mal, incluindo Ronaldo, que pouco pode fazer para ajudar o time. Na partida de volta, uma semana depois, nova atuação ruim do time e de Ronaldo e uma eliminação precoce ainda na fase preliminar.

Abalado pela derrota, o agora capitão do time passou a ser alvo de críticas duras de parte da torcida corintiana, que pedia sua saída. Além das ameaças e da má forma, Ronaldo convivia com dores fortes.

A combinação desses fatores com a eliminação na Libertadores levou o fenômeno a por um fim à sua carreira, que terminou de modo melancólico, mas que foi brilhante. Uma carreira de sucesso internacional, em alguns dos maiores times do mundo e pela Seleção Brasileira. Um jogador que assegurou, certamente, o seu lugar entre os maiores da história do futebol e talvez o maior ídolo brasileiro após Pelé.

Um jogador que deixará saudades em todos aqueles que gostam de futebol, em São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus ou Porto Alegre. Aqui no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo. Um ídolo que ultrapassou as barreiras nacionais para ser um ícone mundial do futebol.

Veja todos os gols de Ronaldo pelo Corinthians:

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo