BrasilBrasileirão Série A

Rindo na cara do perigo

Na volta para o Rio de Janeiro, com a festa pelo título brasileiro já montada, apenas à espera de seus protagonistas, o Fluminense passou por um inesperado perrengue. O trem de aterrissagem da aeronave apresentou um problema e veio o anúncio de que um pouso de emergência seria necessário. Por mais que alguém não tenha medo de andar de avião, um momento assim deve trazer um certo aperreio até aos mais valentes. Imagine então o desespero daqueles que jamais se acostumarão a passear pelo céu a bordo de uma geringonça alada.

O avião arremeteu três vezes, mas, felizmente, pousou em segurança. Os tricolores, gratos pela conquista da taça, certamente ficaram sensibilizados quando souberam do pequeno drama pelo qual passaram os seus heróis. Eu, que não tenho nada a ver com isso, posso dizer: bem feito. Muito bem feito. Viram como é bom tomar sustos desnecessários? Agora, vocês sabem como a torcida do Fluminense ficou com o coração na mão, a cada partida em que vocês jogaram menos do que podiam e deram todos os sinais de que colocariam tudo a perder. Mas nunca colocavam. Mesmo que na base do sufoco, sempre davam o seu jeito de vencer.

A competência pode ser irritante

O Flu campeão de 2012 lembra outro time tricolor que venceu a competição, o São Paulo de 2007. Ambos foram campeões com relativa tranquilidade e algumas rodadas de antecedência. Não se mostraram muito afeitos a espetáculos, mas foram de uma solidez invejável, refletida em um voraz aproveitamento de oportunidades cedidas pelos adversários. Irritaram de tão competentes. E sortudos.

A diferença é que a equipe de Muricy tinha um ataque esforçado, mas brilhava mesmo na defesa, que ganhou ares de intransponível. No time de Abelão, o setor defensivo é que era apenas dedicado, o que não era totalmente suficiente. Prova disso foi a quantidade de vezes que Diego Cavalieri era exigido a cada partida. Serviu para que o arqueiro, que andou meio esquecido quando foi esquentar o banco do Liverpool, desse novas provas de seu grande talento, mas poderia ter colocado toda uma trajetória vitoriosa em risco. As estrelas da companhia, no entanto, estavam no ataque. E se não apresentaram um futebol dos mais vistosos, fizeram aquilo que mais importa: decidiram.

Especialmente, Fred, que mais uma vez nos fez questionar o quão longe poderia ter ido se levasse a sua carreira um pouquinho mais a sério. O mais técnico centroavante brasileiro em atividade sempre aparecia para salvar os seus companheiros quando a coisa apertava. Tornou-se uma espécie de Mestre dos Magos às avessas. Sua efetividade formou um ótimo par com a abnegação de Wellington Nem que, incansável, azucrinava seus marcadores quando acionado pelas beiradas da retaguarda adversária. Deco teve brilho reduzido, muito por conta das inúmeras vezes em que desfalcou a equipe. Mas seguiu sendo aquele ponto de referência, por sua experiência e categoria. Tanto em campo, quanto nos bastidores.

Se Thiago Neves não fez dos seus melhores campeonatos, alguns jogadores cujas grifes pareciam se apagar puderam recuperar confiança e respeito. Jean, que saiu por baixo do São Paulo, voltou a apresentar o seu melhor futebol, apagando o receio de que, assim como Richarlyson, o seu antecessor no tricolor paulista, fosse jogador de uma boa fase só. Já Rafael Sóbis acabou se provando útil, mesmo que muito custoso para um reserva. Gum, Leandro Euzébio e Carlinhos não arrancam suspiros de ninguém (minto, às vezes proporcionam aquele suspiro de “sério que não tem ninguém melhor que ele para escalar?”), mas fizeram um campeonato raçudo e correto. Com participações efetivas, venceram o Brasileirão pela segunda vez em três anos, algo que muitos virtuosos nunca alcançaram.

Alheio a turbulências

Abel Braga está longe de ser uma sumidade na parte tática, mas fez as modificações de esquema necessárias para que o time continuasse rendendo, conforme o campeonato ia mudando de feição. Sua serenidade de boleiro velho de guerra se refletia em seus comandados, que não se abalavam diante das maiores dificuldades. Algumas causadas pelo próprio treinador, ao adotar um estilo de jogo que deixava os rivais bem à vontade. De um time caro e estrelado, normalmente se espera que ele proponha o jogo. O Fluminense subverteu essa lógica, trocando exuberância por paciência e eficiência. A superioridade incontestável na tabela não se repetia em vários momentos das partidas.

Mas foi assim, gelado e calculista, que o Flu seguiu pela temporada. Poderia ter se enganado com uma conquista tão facinha no estadual, mas não deu margem a acomodações. Tampouco, caiu em depressão quando o Boca Juniors o eliminou da Libertadores, em jogo que parecia controlado. Não se assustou quando o Atlético Mineiro disparou na frente, manteve-se sempre na órbita do adversário. Diria Galvão Bueno que chegar é uma coisa, mas passar é outra. O Fluminense chegou, passou e não olhou mais para trás. Logo deu a impressão de que não seria mais desbancado por ninguém. E cumpriu à risca tal prognóstico.

Alguns jogadores até cederam à troca de farpas quando viram o clube acusado de favorecimento pela arbitragem (um assunto no qual eu fiz questão de não entrar durante este post), mas o mesmo destempero nunca foi visto em campo. Em um campeonato marcado por polêmicas que muitas vezes tiraram o foco daquilo que acontecia dentro das quatro linhas, venceu quem prestou mais atenção no serviço. O Fluminense manteve um curso, sem fazer escalas, sem arremeter e sem perder contato com a torre de navegação. Não são todos que conseguem construir um céu de brigadeiro em meio ao temporal. Muitas vezes, é justamente essa a diferença entre um campeão e os seus desafiantes.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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