BrasilFiscalize Catar 2022

Ricardo Teixeira é investigado pela justiça suíça e brasileira e FBI já está de olho

“Vai tomar no c*, Douglas”, gritava Mano Menezes à beira do gramado do estádio Khalifa International, em Doha. Foi o meia que perdeu a bola no meio-campo em um lance que resultou no gol de Lionel Messi, vitória da Argentina sobre o Brasil, então dirigido pelo técnico, por 1 a 0. Era 17 de novembro de 2010. O jogo foi semanas antes do Catar ser escolhido como sede da Copa de 2022, em dezembro daquele ano. A partida, patrocinada por uma construtora importante do Catar, está sob suspeita de ter sido usado para pagar pelos votos de Brasil e Argentina na disputa através de uma empresa do país do Oriente Médio que se beneficiaria muito com isso.

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O caso é suspeito por dois lados: por ser uma forma de pagamento de suborno e por ser também suspeito por lavagem de dinheiro. A justiça suíça e brasileira trabalham no caso e o nome de Ricardo Teixeira aparece como suspeito de ambas e parece chegar ao principal dirigente do futebol brasileiro de 1989 a 2012, quando deixou seus cargos na CBF e na Fifa por condenações por corrupção justamente na Suíça.

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As suspeitas sobre o amistoso

A justiça suíça suspeita do pagamento de uma empresa do Catar para a Argentina, segundo a World Soccer. Segundo o prometo geral da Suíça, foram coletados documentos da Kentaro, empresa que organizou a partida, e o executivo-chefe da empresa, Philipp Grothe, tem colaborado com as investigações para saber como o pagamento foi feito.

A AFA (Associação de Futebol Argentino) era presidida na época por Julio Grondona, que também era membro do Comitê Executivo da Fifa, justamente quem tinha poder de voto para escolher o país sede dos Mundiais de 2018 e 2022 pouco tempo depois. A investigação foca no pagamento de US$ 2 milhões, valor cobrado pela seleção argentina para disputar o amistoso.

A empresa suíça Swiss Mideast fez o papel de intermediária em nome da GSSG, uma construtora do Catar, e alega que não pagou nada além dos US$ 8,6 milhões do custo total do amistoso. O jogo foi investigado por Michael Garcia, que foi chefe de investigação da Fifa, na investigação da própria entidade sobre as candidaturas às Copas de 2018 e 2022.

Segundo o relatório publicado em novembro por Hans Joachim-Eckert, presidente do Comitê de Ética da Fifa, com base no relatório de Garcia, o amistoso teve suspeitas. “O financiamento do evento e a estrutura contratual em relação a este aspecto, em parte, levanta suspeitas… EM particular em relação a certos arranjos de pagamentos destinados à AFA”. Mesmo assim, a conclusão do relatório é estranha. “Os arranjos relevantes não estão conectados com a candidatura do Catar a 2022”. Garcia pediu demissão em dezembro depois de contestar o relatório de Eckert, dizendo que partes importantes não foram reveladas.

O caminho do dinheiro que pagou o amistoso é complexo. Sai da construtora catariana GSSG pagou à Swiss Mideast, que fez a intermediação com a Kentaro, pagando US$ 8,6 milhões. Esta organizou o jogo e pagou uma comissão de US$ 2 milhões à BCS Ltd, empresa de Cingapura que intermediou a apresentação às duas seleções. A Kentaro ainda pagou US$ 2 milhões à World Eleven, que têm os direitos dos jogos da Argentina, e outro US$ 1,15 milhão de cachê e € 345.833 de comissão à ISE, empresa que detém os direitos dos jogos do Brasil. A suspeita maior da justiça suíça é que o dinheiro pago à Argentina tinha como destino o pagamento de uma propina à Grondona.

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Suspeitas das contas em Monaco

Segundo matéria da revista inglesa World Soccer, uma investigação no Brasil mostrou provas de pagamentos feitos por uma empresa do Catar em uma conta secreta de Ricardo Teixeira, então presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), que também era membro do Comitê Executivo da Fifa. O dinheiro teria sido pago em uma conta do dirigente em Mônaco por empresas ligadas ao Catar. Teixeira admitiu a existência da conta no principado – que é um paraíso fiscal -, mas afirmou a conta foi aberta dois anos após a eleição e só continha dinheiro vindo do Brasil. A conta teria € 30 milhões.

Nesta terça-feira, matéria da Folha fala em um relógio de ouro dado de presente pelo Emir do Catar, Hamad bom Khalifa Al Thani, a todos os dirigentes sul-americanos que tinham voto na Fifa – ou seja, membros do Comitê Executivo. A reportagem diz que o objeto foi entregue em 19 de janeiro de 2010 em um almoço na sede do Itanhangá Golf Club, no Rio de Janeiro, que teria sido organizado por Teixeira. O brasileiro seria cabo eleitoral da candidatura do Catar. “Votei no Catar, mas não recebi um tostão por isso. Nem em real, nem em dólar, nem em euro”, respondeu Teixeira quando questionado pela World Soccer.

A justiça suíça e brasileira têm trocado informações para investigar as suspeitas de lavagem de dinheiro. Vale lembrar que Teixeira deixou o Comitê Executivo da Fifa em março de 2012, quando foi condenado pela justiça suíça a devolver dinheiro de suborno que recebeu, junto com João Havelange, da empresa de marketing esportivo ISL por direitos da Copa do Mundo. Foi a razão do dirigente ter renunciado também à presidência da CBF e ficar isolado em Miami. Com os últimos acontecimentos das investigações do FBI, Teixeira, segundo relatos, está no Brasil e não pensa em voltar aos Estados Unidos com receio de ser convocado a prestar explicações à IRS, equivalente à Receita Federal americana.

Isso sem falar que um dos 25 co-conspiradores indicados no relatório da Justiça Americana, ao que tudo indica, é Ricardo Teixeira. Ele é o co-conspirador #11 e encaixa perfeitamente na descrição dada pelo documento, que diz que ele era um alto oficial da CBF e que assinou o contrato de fornecimento de material esportivo com a “Sportswear Company A”, que, pela descrição, é a Nike. Ou seja, além da justiça suíça e da brasileira, é bem provável que Teixeira também seja indiciado pela justiça americana. Com todo o poder que já teve, Ricardo Teixeira seria um peixe grande. E o cerco parece estar fechando contra ele.

Confira a cobertura da Trivela do Fifagate

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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