Raí, 50 anos: mudou a história do São Paulo e eternizou a camisa 10
Eterno camisa 10 do Morumbi, Raí mudou a sua história, a do São Paulo e da Libertadores para se tornar um dos maiores ídolos do Morumbi de todos os tempos
“É falta perigosíssima para o tricolor (…). É a chance do tricolor, Raí na cobrança de falta. Capricha, garotinho, capricha. Rolou pra Cafu, pra Raí, pro gol… EEEEEE QUE GOOOOOLLLLLLLAÇO! GOLAÇO! Raí, cracaço! Pode ser o gol do título! Pode ser o gol do título! 34 da etapa complementar! Raí, Raí, Raí levanta o Estádio Nacional de Tóquio! Raí, Cafu, Raí, Cafu ajeitou e Raí mandou a bola no ângulo! Indefensável! Zubizarreta ficou estático no centro do gol! Estático no centro do gol! É goooooool do Brasil! É gol brasileiro!”
(Narração de Osmar Santos)
Raí de Souza Vieira de Oliveira é o irmão de Sócrates, um dos maiores símbolos da história do Corinthians e uma das figuras mais marcantes da seleção brasileira de 1982, aquela que é cantada em verso e prosa como um sonho interrompido pela realidade do despertador. Raí foi ídolo do São Paulo, um rival do Corinthians. Fez parte da seleção brasileira de 1994, aquela que para muitos era o contrário de 1982: em vez do sonho, a mediocridade. A comparação com Sócrates embaça a visão de que Raí foi um craque do futebol brasileiro e é um dos maiores jogadores da história do São Paulo, capaz de mudar a história do clube para sempre. Raí foi o símbolo daquele que talvez tenha sido o maior time da história do São Paulo, ou ao menos um dos maiores. Uma era tão vitoriosa e com um futebol tão empolgante que foi capaz de golear Barcelona e Real Madrid. Raí é um dos raros jogadores que mudou a história de um clube, fazendo o mundo saber quem é o São Paulo. Ajudou a mudar a forma como o Brasil inteiro vê a Libertadores.
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O mais novo dos irmãos Viera de Oliveira trilhou um caminho diferente do irmão. Tornou-se um dos maiores ídolos da história de um rival do Corinthians, o São Paulo. Fez parte da seleção brasileira que esteve longe de ser um sonho e virou símbolo de um futebol criticado por saudosistas, a seleção brasileira de 1994, que é vista por muitos como o oposto da arte, como um marco do futebol de resultados – uma avaliação injusta de um time que foi competente e tinha como foco a posse de bola, tão valorizada mais de uma década depois com a Espanha.
Raí, naquela Copa de 1994, perdeu a braçadeira de capitão e a posição de titular depois dos três primeiros jogos e sua trajetória na seleção brasileira nunca mais foi a mesma. Mas foi campeão, e foi um dos responsáveis pela formação do time que chegou aos Estados Unidos tão forte como foi. Ainda poderia ter disputado a Copa do Mundo de 1998, que foi na França, o país onde brilhou nos cinco anos até ali. Ficou fora, depois de um jogo que praticamente encerrou a sua carreira na seleção, no Maracanã, meses antes do embarque para terras francesas.
Encerrou a carreira aos 34 anos. Elementos que fizeram com que muitos não dessem a Raí a sua devida importância. O meia ajudou a mudar a história do São Paulo e entrou na memória e no coração dos torcedores são-paulinos para sempre.
Contratado junto ao Botafogo de Ribeirão Preto em 1987, Raí demorou para conseguir emplacar no clube. Foi naquele ano, contra o Grêmio, em Porto Alegre, que Raí marcou o seu primeiro gol com a camisa do tricolor paulista. O início pouco empolgante no time gerou críticas. Raí era considerado um jogador muito lento e pouco participativo.
A história, porém, iria mudar completamente com a chegada de Telê Santana ao São Paulo. O técnico tirou o melhor do meia, se tornou um jogador mais completo. Eternizou a camisa 10 do São Paulo em um dos melhores períodos da história do clube. O São Paulo era um antes da sua chegada. Foi outro depois que ele deixou o clube. Assim como Leônidas, nos anos 1940, Raí mudou a história do São Paulo para sempre.
Os primeiros capítulos, porém, foram muito duros. Aqueles primeiros anos sem emplacar pareciam selar o destino do jogador para longe do Morumbi. Em 1989, conquistou o seu primeiro título como profissional, o Campeonato Paulista daquele ano, já como titular. Ainda não era um dos destaques do time. A história só mudou no final de 1990, quando Tele Santana assumiu o comando do São Paulo.
Telê vinha dos fracassos com a Seleção Brasileira nas Copas do Mundo de 1982 e 1986. Era considerado um técnico pé-frio. Tinha deixado o Palmeiras, onde ficou poucos meses, um mês antes de assumir o São Paulo, em 12 outubro de 1990. O acordo era só até o final do ano, mas era só o começo de uma passagem que mudaria a trajetória tanto do técnico quanto do clube. Até ali, Raí tinha uma trajetória irregular no São Paulo, com 26 gols marcados em mais de três anos de clube. Naquele mesmo ano, Telê levou o São Paulo à final do Campeonato Brasileiro, contra o Corinthians, e entrou como favorito. Perdeu o título com duas derrotas. Telê reforçava a sua pecha de pé frio. Raí continuava sem empolgar no Morumbi. Essa história mudaria.
Em 1991, tudo mudou com. No Campeonato Brasileiro – na época, era disputado no primeiro semestre – , Raí foi a figura principal do time que liderou a fase de classificação, palmo a palmo com o Bragantino. Eliminou o Atlético Mineiro na semifinal e, na decisão, bateu o Bragantino com uma vitória no Morumbi e um empate em Bragança. Raí, capitão do time, foi quem levantou a taça. A primeira como capitão. O São Paulo vingava as derrotas nos dois anos anteriores, em 1989 para o Vasco de Sorato, em 1990 para o Corinthians de Neto e Tupãzinho. O São Paulo conquistava o Brasil. Viria mais.
Raí foi o artilheiro do Campeonato Paulista, com 20 gols, sendo três deles na final do campeonato contra o Corinthians. Raí tornou-se o capitão do time, o artilheiro e o destaque. Telê vencia o seu primeiro título no São Paulo de muitos que viriam. De jogador contestado passou a ser ídolo, artilheiro, capitão, referência. Nas ruas de São Paulo, crianças são-paulinas brincavam de ser Raí, de marcar gols nos rivais, de dar o salto e soco no ar que o craque costumava fazer. Fazia os são-paulinos sonharem com todos os títulos possíveis. E eles vieram.
A Libertadores estava longe de ser o que é hoje em 1992. Não havia transmissão da Globo e os clubes não a valorizavam tanto quanto atualmente. O São Paulo tinha um projeto de internacionalização, conseguir o que outros clubes brasileiros já tinham na época: projeção, não só fora do país, mas também fora de São Paulo. Quis o destino que o primeiro gol de Raí na Libertadores fosse na Bolívia, no estádio Hernando Siles, contra o Bolívar. Foi em um empate por 1 a 1 no dia 20 de março de 1992. Depois, marcaria o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Newell’s Old Boys, no dia 10 de junho, que levou a disputa para os pênaltis. O São Paulo de Raí foi campeão e o capitão, novamente, ergueu a taça.
No torneio Tereza Herrera, em 15 de agosto de 1992, o São Paulo de Raí venceu o Barcelona por 4 a 1. Voltou ao Brasil para dois jogos do Paulista e voltou à Espanha para a disputa do Torneio Ramón de Carranza e venceu o Real Madrid por 4 a 0. Os dois times estavam em pré-temporada, mas as vitórias repercutiram. Contra o Barcelona, Raí fez dois gols e mais um contra o Real Madrid. Era só pré-temporada, havia desculpas, mas o fim do ano reservaria uma revanche entre São Paulo e Barcelona. Desta vez, não seria só um torneio amistoso. Desta vez era para valer. Não havia desculpas.
Veio então o Mundial de Clubes, no final do ano, onde o adversário era o Barcelona de Johan Cruyff, campeão pela primeira vez da Copa dos Campeões da Europa. O timaço do holandês fez um grande jogo, mas Müller e Raí decidiram. O camisa 10 marcou de barriga em uma jogada do companheiro e depois, de falta, marcou o gol do título nos 2 a 1 em Tóquio. O São Paulo conquistava o título que passou a ser uma febre entre os brasileiros. O “Projeto Tóquio”, como era chamado na época pelo São Paulo, tornou-se um desejo de todos os clubes. O São Paulo tornava-se campeão mundial e a sua torcida criava uma relação com a Libertadores que seria completamente diferente a partir dali. Uma paixão por conquistar o continente. Uma paixão às vezes obsessiva, mas esse é assunto para outro dia.
Raí ainda seria protagonista na conquista do Campeonato Paulista de 1992 e na Libertadores de 1993, quando o camisa 10 se despediu. Raí deixava o São Paulo com um título Brasileiro, três Paulistas, duas Libertadores e um Mundial. Ganhou fama internacional e virou um dos grandes da América do Sul – até então, o São Paulo não tinha ganhado títulos sul-americanos. Deixava o São Paulo como uma potência que tinha vencido o Barcelona de Cruyff duas vezes no mesmo ano, que era bicampeão da Libertadores – algo que nenhum brasileiro tinha conseguido desde o Santos de Pelé.
No Paris Saint-Germain, fez parte do time montado com dinheiro do Canal Plus para ganhar o Campeonato Francês de 1993/94, a Copa da França em 1995 e 1998, Copa da Liga Francesa em 1995 e a Recopa da Europeia em 1996 – competição que não existe mais e reunia os campeões das copas nacionais. Foi parte importante da Seleção Brasileira, tornando-se capitão do time que chegou aos Estados Unidos em 1994. A má fase técnica o fez perder a posição de titular durante a Copa para Mazinho. Mesmo assim, marcou um gol na campanha, no jogo contra a Rússia, de pênalti.
Voltaria ao São Paulo em 1998 para jogar a final do Campeonato Paulista contra o Corinthians, aos 32 anos. Fez um gol e ajudou o time a conquistar o título. Em 1999, viveu um momento que ficaria marcado também em sua carreira: na semifinal do Campeonato Brasileiro, contra o Corinthians, teve dois pênaltis defendidos por Dida no primeiro jogo, vencido pelo rival por 3 a 2. O Corinthians venceu os dois jogos e avançou – na época, eram três jogos, mas como o Corinthians ganhou os dois primeiros, eliminou a necessidade de um terceiro.
Raí ainda participaria de duas campanhas importantes do São Paulo. Foi campeão Paulista em 2000, em uma final com o Santos. Na Copa do Brasil, marcou gols nos dois jogos contra o Palmeiras. Primeiro no jogo de ida, vitória por 2 a 1 no Morumbi. Depois, no dia 27 de junho, na volta, no Parque Antarctica, por 3 a 2. O gol de letra foi o último da sua carreira. Viveria uma última tristeza pelo time na derrota na final da Copa do Brasil contra o Cruzeiro, e encerraria a carreira no dia 22 de julho, na derrota para o Sport por 3 a 1 na Copa dos Campeões.
Raí entrou para a história do São Paulo como um dos maiores da sua história. Até o surgimento de Rogério Ceni, era quase um consenso que o eterno camisa 10 era o maior jogador da história do clube. Ele mesmo disse que Ceni era o maior jogador da história do clube, depois de tudo que o goleiro fez. É uma boa discussão.
Raí transformou o São Paulo em um time respeitado em toda América do Sul, contribuiu para criar uma mística da camisa do São Paulo no continente que se mantém, mesmo quando o time não é um esquadrão temível, como neste 2015. Assim como Leônidas antes e Rogério Ceni depois, está na história do clube no panteão dos maiores jogadores, ídolos e símbolos da história. Se Rogério é a cara do São Paulo atualmente, também tem a ver com a importância que Raí teve nos anos 1990, como símbolo daquele que talvez tenha sido o maior São Paulo da história. Antes dele, muitos craques vestiram a camisa 10 do São Paulo, como Pedro Rocha e Pita, por exemplo. Ninguém, porém, teve mais importância na história do São Paulo que Raí.
Os torcedores são-paulinos darão parabéns a Raí eternamente. Dirão obrigado mais milhares de vezes. O grito de “Raí, terror do Morumbi” é conhecido até por gerações que nem o viram jogar, mas sabem que ele estará eternamente na história do clube, envergando a camisa 10, aumentando a mística e o peso que ela já tinha. Raí nunca precisou ser Sócrates para ser grande. Teve brilho próprio e eternizou a camisa 10, a comemoração com um soco no ar e mudou a forma como os brasileiros olham para a Libertadores.
Confira abaixo galeria de fotos e vídeos da carreira de Raí:




















Entrevista com Raí:
Seleção de gols de Raí:
O último gol de Raí foi na Copa do Brasil, contra o Palmeiras:



