Brasil

Rafael Sóbis encerra uma carreira que foi sinônimo de conquistas e carinho em diferentes cantos do Brasil

Sóbis decidiu de maneira repentina que seu adeus ocorreria depois da vitória sobre o Brusque na Série B

Rafael Sóbis não planejou muito o seu adeus. Já havia falado que seria no fim desse ano e, até por isso, a consciência de que a aposentadoria se aproximava era clara. Ainda assim, segundo suas próprias palavras, a decisão veio no ônibus que chegava ao Mineirão. Não avisou de antemão família ou amigos. Bastava vencer o Brusque e, assim, tirar um peso das costas do Cruzeiro, distante do risco de cair à Série C do Brasileirão. Assim aconteceu. E que o final tenha sido modesto, ele também ressalta o comprometimento do atacante com o futebol. Aos 36 anos, pode ter orgulho da história bonita construída em vários clubes do Brasil, campeão em todos eles. São poucos aqueles que podem ser tratados com carinho por tantas torcidas que defendeu – em especial a do Inter, sua primeira casa.

A trajetória de Rafael Sóbis não cumpre alguns requisitos que muitos atletas traçam como metas. Não fez seu nome na Europa, com uma passagem modesta de duas temporadas pelo Betis, fazendo mais sucesso no exterior por Al Jazira e Tigres. Também não disputaria muitos jogos pela seleção brasileira, limitado a nove amistosos, além de estar presente na conquista de um bronze olímpico em Pequim 2008. Mas, dentro do Brasil, Sóbis continuará lembrado por muito tempo. Ele conseguiu, afinal, vivenciar o sonho de qualquer menino: ser aclamado por grandes torcidas, conquistar os maiores títulos, marcar gols importantes. E em cada cidade teve experiências únicas, que também ocuparam espaços diferentes em seu coração.

Em Porto Alegre, Sóbis foi o menino prodígio que desbravou novas fronteiras. E talvez o atacante nunca envelheça para os torcedores do Internacional, como aquele guri que despontou na base para logo arrebentar no Brasileirão de 2005 e ser tão importante na conquista da Libertadores em 2006. Sóbis mal chegava aos 21 anos quando se tornou um dos heróis num período de transformação no Beira-Rio. Os anos de seca ficavam para trás, a velha corneta ficava para trás. E ele seria um desses libertadores, especialmente pela inesquecível atuação no primeiro jogo das finais contra o São Paulo, com dois gols determinantes no Morumbi.

Sóbis não ficaria para o Mundial de Clubes, vendido para o Betis logo depois do título continental. De longe, veria a consagração dos companheiros contra o Barcelona. Ainda assim, parecia que a história do prata da casa não tinha se encerrado no Beira-Rio. Antes disso, ele não emplacaria na Espanha e iria fazer dinheiro nos Emirados Árabes, vendido ao Al-Jazira. A chance de voltar a Porto Alegre aconteceu em julho de 2010, exatamente no momento em que os colorados miravam de novo o topo da América. Foram apenas três jogos na reta final da Libertadores, suficientes para que se provasse como um talismã e anotasse também o gol que abriu a vitória sobre o Chivas Guadalajara no jogo do bicampeonato.

Sóbis permaneceu no Inter até 2011, antes de seu empréstimo se encerrar e ele ser cedido ao Fluminense. Experimentaria outra cidade, outra história. Outra história vitoriosa. Em momentos abastados dos tricolores, o atacante também escreveu seu nome em Laranjeiras como mais uma taça. Ajudou a costurar uma nova estrela, ainda que as lesões tenham atrapalhado sua sequência no Brasileirão de 2012. Seus gols acabariam sendo mais importantes no ano seguinte, quando os cariocas precisaram lutar contra o rebaixamento. O atacante ainda permaneceu no clube até 2014.

A próxima vida de Sóbis aconteceu no México, com o Tigres, onde se juntava a um projeto endinheirado e daria sua contribuição não apenas na conquista do Apertura 2015 (com gol na final), como também na caminhada até a decisão da Libertadores de 2015. Quis o destino que a semifinal acontecesse exatamente contra o Internacional e Sóbis participasse como uma das referências dos mexicanos, que passariam pelos colorados e sucumbiram apenas na final contra o River Plate. O brasileiro também pôde construir sua adoração em Nuevo León.

A nova deixa para Sóbis voltar ao Brasil aconteceu em 2016, agora em Belo Horizonte. Era o Cruzeiro quem prometia mundos e fundos, num período imponente na Toca da Raposa. Outra vez, o atacante ofereceu sua presença e seus gols para materializar taças. E se no Inter ele se eternizou pela Libertadores, se no Flu ele deixou como legado o Brasileiro, com os celestes seu currículo seria preenchido com a Copa do Brasil. Foram dois troféus para a sua conta, com participação destacada sobretudo em 2017, presente em toda a caminhada dos cruzeirenses e artilheiro ao final da campanha.

Sóbis ainda teria uma terceira passagem pelo Internacional em 2019, mais tímida, em meio ao restabelecimento dos colorados. Já em 2020, experimentou o gosto da vitória em uma quarta cidade distinta, agora contratado pelo Ceará. A passagem como um todo pelo Vozão não seria tão bem sucedida como muitos apostavam e até se encerrou antes do esperado. Mas o atacante está lá, na galeria de campeões, com uma nova taça inédita: a Copa do Nordeste. Faltou só mesmo o estadual, depois de já ter sido vencedor no Gaúcho, no Carioca e no Mineiro.

Por fim, o último ato da carreira de Sóbis aconteceria no Cruzeiro. Voltou para um cenário bem distante da bonança que tinha compartilhado por lá. E seria também fundamental, agora como uma liderança para livrar os celestes da Série C. O atacante ajudou a mexer nos brios do time que se recuperou em 2020 e, mais nos bastidores, também teria sua influência na sobrevivência em 2021. Isso até que, nesta terça, decidisse parar. A vitória sobre o Brusque se tornou suficiente para cumprir a missão e para que o veterano fosse muito festejado pelos companheiros dentro do Mineirão.

“O dia chegou, né. A vida é assim, o tempo passa, uns têm que sair para outros chegarem. Uma noite especial, com vitória. Eu avisei que se a gente vencesse, ficasse mais tranquilo, ia ser meu último jogo, então acabou. Fica a história, vou nascer de novo para uma nova vida. Sempre que puder estarei aqui neste estádio e espero que o Cruzeiro volte o mais rápido possível para o seu lugar”, declarou Sóbis, na saída de campo, bastante emocionado. “Eu tive uma carreira muito vitoriosa, então é difícil escolher o maior momento. De ponta a ponta, eu só tenho a agradecer todo o lugar que eu fui, agradecer as camisas que eu vesti, agradecer as cidades que morei, as culturas que aprendi. Eu levei muito do futebol, o futebol me ensinou muito”.

Já em suas redes sociais, Sóbis comentou a decisão repentina: “Ontem chegando no estádio tive a sensação que seria meu último jogo, não avisei o clube, não avisei familiares, apenas dois ou três companheiros próximos de mim naquele momento. Não sei explicar, apenas senti. O estádio lotado, e os 3 pontos garantindo a permanência, me deram a certeza que era a hora. E assim o fiz. Para surpresa de muita gente. Muito obrigado ao clube, companheiros e torcida por me abraçarem na minha decisão”.

O Cruzeiro ainda tenta convencer Sóbis para que o atacante participe de um jogo de despedida. Se quiser, também pode receber uma grande homenagem no Beira-Rio. E permanecerá a certeza de que, em diferentes cidades, o atacante será celebrado como um sinônimo de conquistas. O caminho percorrido tem apenas breves passagens pela Europa e pela Seleção, mas repetidamente levou o veterano ao topo – com seus gols significando bastante, em diversas glórias.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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