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Quer aprender mais sobre poesia e literatura? Veja as notas oficiais do futebol carioca

A veia literária sempre pulsou forte no Rio de Janeiro, desde Vinícius de Morais, Nelson Rodrigues e muitos outros antes deles. É realmente difícil não se sentir um pouco poeta diante daquela paisagem. Tanto que as discussões recentes entre clubes e a Federação do Rio de Janeiro sobre preços de ingressos e mandos de campo, uma verdadeira guerra de notas oficiais, tiveram referências a músicas populares e vocábulos muito mais apropriados para poemas do que para crônicas de futebol.

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Quem abriu essa pequena caixa de pandora foi o Fluminense, no final de janeiro, quando emprestou trechos de uma canção de Chico Buarque para atacar a FERJ por ter mudado o seu jogo contra o Friburguense para o Raulino de Oliveira, em Volta Redonda. Depois de ironicamente aplaudir “uma entidade tão gabaritada, que organiza, atualmente, a melhor competição do futebol brasileiro“, citou Apesar de Você:

“Embora a Federação pretenda instaurar o Ato Institucional número 5 no futebol carioca, não será o Fluminense Football Club o ‘subversivo’ desta competição. Não é e nunca será este o nosso papel. Ao Fluminense sempre coube a vanguarda, no melhor sentido da palavra. Lembremos Chico Buarque: “Hoje você é quem manda, falou tá falado, não tem discussão. (…) Finalizamos com Chico Buarque: ‘Apesar de você, amanhã há de ser outro dia…'”

Lindo, não? Enfim, essa semana, a guerra de notas oficiais foi retomada depois que a FERJ decidiu estabelecer um preço fixo para a operação do Maracanã, de encontro com os acordos de Flamengo e Fluminense com a concessionária que administra o estádio. Em entrevista ao jornal Extra, o presidente tricolor Peter Siemsen comparou o chefe da federação carioca Rubens Lopes a Hugo Chávez (uma pitada de política também, por que não?), acusou o Botafogo de estar alinhado com a entidade e ainda guardou um pouquinho de ressentimento para o Vasco.

Isso motivou uma maravilhosa nota oficial da FERJ. Para começar, um provérbio:

“Seis coisas o Senhor aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Provérbio 6.16-19).

Em seguida, Rubens Lopes começa a qualificar as declarações de Peter Siemsen, que foram, segundo ele, “eivadas de catatimia, demonstrativas de elevado apreço à mitomania, revestidas de relevante turpitude, indutoras ao uso de anti-eméticos, carregadas de sementes de discórdia, ofensivas a todos os coirmãos e fomentadoras de desagregação”. Calma, não precisa ir ao dicionário. Nós fomos para você:

Eivadas: contaminadas, infectadas, maculadas

Catatimia: perturbação psíquica, ou mental, capaz de turvar o raciocínio do doente de modo a impossibilitá-lo de fazer bons julgamentos.

Mitomania: tendência fora do comum a mentir.

Turpitude: qualidade do que é nojento ou repugnante; que demonstra baixeza; que demonstra indecências ou obscenidades.

Anti-eméticos: medicamento para combater os vômitos.

Rubens Lopes também convidou o presidente do Fluminense a “abandonar as sombras e os porões, deixar de lado os espetáculos de pirotecnia, sair do escudo da mídia e comparecer perante os demais filiados para defender seus pontos de vista”. Siemsen desistiu de comparecer às reuniões da federação porque, segundo ele, “cansou de ser xingado”.

Como sabemos, os poetas não são obrigados a seguirem as normas cultas da língua portuguesa, o que explica os erros de concordância da nota da FERJ durante alguns trechos. Tudo bem. Licença poética.

Veja a nota na íntegra:

NOTA OFICIAL SOBRE DECLARAÇÕES PETER SIEMSEN

“Seis coisas o Senhor aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Pv 6.16-19).

O Presidente da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, em seu nome, em nome da Federação e em nome de todos os filiados que tem sido atingidos pelas aleivosias do Presidente do Fluminense, vem a público manifestar seu repudio à suas declarações eivadas de catatimia, demonstrativas de elevado apreço à mitomania, revestidas de relevante turpitude, indutoras ao uso de anti-eméticos, carregadas de sementes de discórdia, ofensivas a todos os coirmãos e fomentadoras da desagregação.

A falta de conteúdo pode justificar a falta de coragem e a permanente ausência, mas não podemos acreditar que sejam causadoras de manifestas crises de alucinação moral.

Por fim não mais convidaremos o Presidente do Fluminense para um debate sobre o futebol do Estado do Rio de Janeiro, mas o desafiamos para que abandone as sombras e os porões, deixe de lado os espetáculos de pirotecnia, saia do escudo da mídia e compareça perante os demais filiados para que apresente e defenda seu ponto de vista, projetos, prove e justifique suas críticas, já que NUNCA teve a coragem de fazê-lo, durante todo o tempo de seu mandato.

Rio de Janeiro, 20 de março de 2015

Rubens Lopes da Costa Filho

Presidente

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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