Brasil

Quem será o próximo Vasco, Bangu ou Ponte Preta?

“Um absurdo! Onde já se viu sujar nosso manto com um preto? Um preto! Nosso clube tem uma imagem a zelar, uma história. Agora vamos aceitar qualquer um para jogar? Pobres, pretos, pessoas sem educação, selvagens. Prefiro deixar o campeonato a sujeitar nossa história a isso.”

O futebol brasileiro já foi racista. Quer dizer, ainda há muito preconceito de raça, mas já foi pior. Ele era aberta e despudoradamente racista. Comentários como os do parágrafo acima eram aceitos com naturalidade. Vários clubes não tinham jogadores negros em seus elencos, e nem todo mundo via problema nisso. Houve até negros que tivessem de se maquiar antes de entrar em campo para “embranquecer”.

Isso foi há 70, 80, 90 anos. Hoje, qualquer um que defenda a existência um time 100% branco será tratado pela sociedade como um racista. Ainda bem. O mundo evolui, e preconceitos tidos como normais são marginalizados. Parte do processo é gradual, e parte depende de alguns empurrões.

No futebol brasileiro, banguenses (escrever “banguense” sem trema é dose) e pontepretanos disputam o título de primeiro clube a aceitar negros no Brasil. O Vasco foi um grande defensor da causa. O Internacional diz ser o primeiro a fazê-lo no Rio Grande do Sul. E todos se orgulham disso. Com razão. Ajudaram a melhorar o futebol brasileiro como um espaço de integração racial e, por tabela, a sociedade como um todo.

O Brasil vive um momento histórico parecido, mas com outra bandeira. Salvo alguns cretinos que insistem em brigar com os fatos, os negros já são aceitos abertamente nos campos. Mas o mesmo não ocorre com os homossexuais. Há milhares no futebol brasileiro, e os intolerantes fingem não saber disso.

Foto que Emerson postou em seu Instagram com o amigo Izac
Foto que Emerson postou em seu Instagram com o amigo Izac

Neste domingo, Emerson Sheik publicou em sua página no Instagram uma foto em que ele dá um selinho em um amigo. Ao lado, um pequeno texto contra o preconceito. Nada muito profundo, pode até ter sido uma forma de divulgar o restaurante do amigou ou desviar o foco do fato de ele ter se irritado após ser substituído horas antes, contra o Coritiba. Mas ele deixou a mensagem.

“Tem que ser muito valente para celebrar a amizade sem medo do que os preconceituosos vão dizer. Tem que ser muito livre para comemorar uma vitória assim, de cara limpa, com um amigo que te apoia sempre. Hoje é um dia especial. Vencemos, estamos mais perto dos líderes. É dia de comemorar no melhor restaurante de São Paulo, o Paris 6, com o melhor amigo do mundo, Izac. Ah, já ia me esquecer, para você que pensou em fazer piadinha boba com a foto, dá uma pesquisada no meu Instagram todo antes, só para não ter dúvida”

Imediatamente, pipocaram comentários lamentáveis. Corintianos dizendo que o jogador sujava a imagem do Corinthians. São-paulinos e palmeirenses tirando sarro do Corinthians. Menos mal que, nesta segunda, Emerson não desdisse o que disse no dia anterior. Na Bandeirantes, reiterou sua posição contra o preconceito aos homossexuais, algo até mais importante do que publicar o comentário inicial.

Agora é o momento de mais gente entrar na onda. Outros jogadores se manifestarem publicamente sobre o tema. E não se enganem, eles todos aceitam homossexuais no futebol. Afinal, são ou foram colegas de vários. Só não falam em público porque a babaquice ainda manda, porque tem gente que acha que, no futebol, é válido ser racista (“macaco”) ou preconceituoso (“bambi”, “favelado”, “mulambada”) só para tirar sarro de um rival.

O passo mais importante deve ser dado pelos clubes. Em 2010, a revista ESPN fez uma pesquisa com dirigentes dos 20 clubes da Série A e perguntou o que eles fariam se um jogador do elenco falasse que pretende anunciar publicamente ser gay. Dezoito disseram não haver problema (o Internacional não respondeu e o São Paulo disse que desaconselharia). É momento de mostrar isso.

Pode parecer algo ousado, que pode desagradar a muitos torcedores. Mas não era isso o que muitos torcedores racistas achavam lá no começo do século passado? Quem tomar a frente nesse processo hoje poderá, em algumas décadas, se orgulhar de ter iniciado mais um processo de amadurecimento da sociedade.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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