Quantos favoritos?

O Campeonato Brasileiro é o maior torneio de futebol do Brasil. De longe. A Copa do Brasil é muito legal, muito divertida, mas a liga brasileira é uma das mais interessantes de se assistir no mundo. Compete com grandes ligas no mundo, perdendo talvez apenas para a inglesa. E de igual para igual com a espanhola, italiana e alemã. Se não compete em número de craques, briga em equilíbrio, emoção e – por que não dizer – bons times. Uma pena que tudo isso tenha ficado longe dos olhos do público nessa primeira rodada, que começa com cinco meses de temporada e os times preocupados com os confrontos do mata-mata que estão em momento importante. Isso talvez mascare os verdadeiros favoritos ao título, que certamente não são 12, nem dez.
Há quem diga que mudar o calendário e colocar Copa do Brasil e Libertadores alinhados com a temporada toda – ou seja, com as decisões apenas no final – não mudaria nada, já que os times continuariam tendo que jogar quarta e domingo perto dos jogos finais e supondo, daí, que poupariam o time na liga. Uma bobagem. Sabemos que não é assim. Imagine se o Vasco e Corinthians estivessem na reta final do Campeonato Brasileiro e brigando pelas primeiras posições, como no ano passado. Mesmo com o jogo decisivo na quarta, não poderiam ignorar os jogos da liga. O mesmo vale para os times que estão na Copa do Brasil.
Como não é assim, o Campeonato Brasileiro viu um confronto de dois favoritos ao título ser encarado com praticamente só reservas. Corinthians e Fluminense jogaram no Pacaembu, com vitória tricolor por 1 a 0 recheados de reservas. Era para ser um clássico. Foi um jogo comum. Bom para o Flu, que ficou com os três pontos que, certamente, serão importantes. O Vasco recebeu o Grêmio e também mesclou o time – não entrou totalmente com reservas, mas boa parte deles. O Santos, em Salvador, foi outro a deixar os titulares de fora do time titular contra o Bahia.
Quem fugiu à regra foi o São Paulo. Há explicação, porém. O time venceu o Goiás na quarta-feira por 2 a 0 em casa, pelo jogo de ida das quartas de final. Um resultado que deixa a equipe absolutamente tranquila para o jogo de volta em Goiânia, na próxima quarta. Com isso, levou todos os titulares para o Rio de Janeiro para enfrentar um combalido Botafogo.
12 times brigando pelo título? É cilada, Bino!
Entra ano, sai ano, ouvimos aquela conversa que o Campeonato Brasileiro começa com 10, 12 times para brigar pelo título. Sabemos que isso não é verdade. Esse tipo de afirmação é feita apenas para agradar os chamados 12 grandes times (Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Internacional e Grêmio). É evidente que esses times não entram com as mesmas chances. Alguns deles não só não brigarão pelo título, como é bom prestar atenção com a parte de baixo da tabela.
O Cruzeiro, por exemplo, não mostrou que mudou muito do ano passado para este. E, em 2011, o time brigou contra o rebaixamento até a última rodada. Isso não pode ser descartado para 2012. A primeira preocupação deve ser essa. No ano passado, o time achava que brigar contra o rebaixamento era demais, não aconteceria. Aconteceu e o time sentiu a lâmina gelada passar encostada no pescoço. Que tenha servido de lição.
Outro time que precisa primeira pensar em não correr riscos para depois ver se sobra algo a fazer é o Palmeiras. O time não é forte e o elenco não dá opções suficientes. O empate com a Portuguesa mostrou um time incapaz de decidir. E contra um suposto adversário na briga contra o rebaixamento. É bom abrir o olho. A Portuguesa, aliás, é o time favorito a cair. Quem é rebaixado no Campeonato Paulista não pode ganhar outro status que não esse. Time por time, não era para a Lusa cair no Paulista, mas algo aconteceu e o time precisará de muita força e um desempenho alto de boa parte dos seus jogadores para manter-se na primeira divisão.
Voltando aos favoritos ao título, além de Fluminense e Corinthians, não podemos deixar o Santos de fora. Primeiro, porque tem um time equivalente ao Corinthians: competitivo. Mas principalmente porque tem Neymar, melhor jogador da América do Sul e melhor brasileiro em atividade no mundo. É um talento que eleva o Santos a um patamar que nenhum outro time sul-americano consegue chegar. É o trunfo para ganhar qualquer campeonato. Resta saber o quanto o time poderá se virar quando ele não jogar (deve perder um terço do Brasileiro servindo à Seleção) e o que o time fará em jogos que ele não decidir. De qualquer forma, é candidato ao título.
O Fluminense tem o melhor elenco, com ótimas opções para o grupo. A defesa não é incrível, mas a proteção a ela feita pelo meio-campo pode ser suficiente para não a expor quando for atacada. Nesse aspecto, não há time como o Corinthians. O elenco não é espetacular, mas é bom. Não há um craque, um jogador que seja aquele que no basquete recebe no chamado “clutch time”, o momento decisivo. Como time, funciona muito bem e tem os dois melhores volantes do Brasil: Ralf, um marcador como poucos, e Paulinho, que marca e ainda arma o time. Isso torna Fluminense e Corinthians candidatos junto ao Santos para levantar a taça.
Além de Fluminense, Corinthians e Santos, dá para colocar no bolo outros três times: Vasco, São Paulo e Internacional, ainda que, talvez, um pouco abaixo dos três primeiros. Provavelmente, esse será o grupo que brigará por Libertadores, mais do que por título. Dificilmente as quarto vagas não serão preenchidas por esses times.
O Grêmio, por exemplo, corre por fora, mas está abaixo dos demais concorrentes. Tem alguns bons jogadores, mas nenhum deles é confiável. Kléber e Marcelo Moreno não são jogadores que parecem ser capazes de carregar o time para o nível mais alto. Podem ajudar a manter o time na briga, mas é só.
O São Paulo, o time tem elenco para chegar entre os primeiros colocados. Luis Fabiano e Lucas são jogadores excelentes que podem ter Casemiro, Jádson, Cícero e Rhodolfo como bons coadjuvantes. O que falta ao time é o sangue nos olhos para decidir as partidas. Neste domingo, contra o Botafogo, esteve com o jogo na mão duas vezes. Poderia ter feito mais gols depois de abrir o placar. E poderia ter decidido o jogo quando vencia por 2 a 1. Não o fez. E a virada deixou o time atordoado. Falta ao São Paulo o que sobra ao Corinthians: a faca nos dentes para jogar para decidir todos os jogos. E falta um sistema defensivo que segure as pontas. Talvez com um volante mais firme e marcador, que o elenco não tem.
E embora o time da estrela solitária tenha ganhado de virada por 4 a 2 do São Paulo, ainda não é razão para achar que o time ficará entre os primeiros colocados. Brigar por Libertadores é um sonho, mas a realidade do time é ficar entre os dez primeiros. Não muito mais do que isso. É um time para ficar no meio da tabela. A situação só melhora se os seus jogadores jogarem acima do que se espera deles – e nesse balaio estão Maicossuel, Fellype Gabriel, Renato e Loco Abreu. Todos bons jogadores. Nenhum excepcional. Daí a ser difícil acreditar que façam milagre.
O Flamengo não deveria, mas sonha com o título.Claro que posso quimar a minha língua aqui, porque futebol é esporte e esporte tem surpresas e superações que se sobrepõem à lógica. O que o Flamengo mostrou contra o Sport foi apenas o mesmo de sempre, apesar dos 28 dias de inatividade: um time sem muita criatividade, que tem um ex-craque com a camisa 10 e apenas um jogador que pode decidir: Vagner Love. E vai depender justamente dele o que o Flamengo fará no campeonato. Um desempenho excepcional do centroavante pode levar o time para cima. E só ele.
Fechando a conta dos 12, o Atlético Mineiro. Em tese, o time não briga para não cair. Em tese. Outros anos mostraram que o time, mesmo com um elenco razoavelmente bom, teve desempenho medíocre. Em condições normais, deve ficar pelo meio da tabela. Está melhor do que o rival Cruzeiro, mas não tão melhor a ponto de estar lá em cima.
Começou o esperado Campeonato Brasileiro. Que tenhamos uma grande disputa, como tem sido em todos os últimos anos. Apesar dessa primeira rodada ter sido apenas uma sombra do que poderia ser, é de se esperar uma grande temporada.



