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Qual estudo diz que torcida única nos clássicos é a melhor solução contra a violência no futebol?

Sinceramente, eu gostaria de saber qual é o estudo tomado por base pelas autoridades brasileiras para determinar, de maneira tão incisiva, a necessidade de se estabelecer repetidamente torcida única como solução contra a violência nos estádios. A medida que se tornou corriqueira em São Paulo já foi copiada em outros cantos, com destaque para os clássicos de Porto Alegre e Belo Horizonte. Agora, é o Rio de Janeiro quem segue o “exemplo”, após a morte de um torcedor no dia do clássico entre Botafogo e Flamengo. A decisão foi tomada pelo juiz Guilherme Schilling, do Juizado Especial do Torcedor e dos Grandes Eventos do Rio de Janeiro, a pedido do Ministério Público estadual. O próprio governo do Rio de Janeiro, contudo, recorrerá – como manifestou em nota da Secretaria de Esportes e Lazer.

O Rio de Janeiro pode não ser necessariamente um parâmetro de combate à violência das torcidas. Assim como acontece em outros cantos do Brasil e do mundo, com ou sem torcida única, há episódios lamentáveis registrados ao longo dos últimos anos. No entanto, os clássicos cariocas sempre foram exemplo de arquibancadas divididas, de convivência ao redor do campo, de disputa também na voz e nas cores. Daquilo que é um clássico, em sua essência. O Maracanã que habita no imaginário de todos nós foi construído justamente a partir dessas ocasiões. Como no lamentável caso deste final de semana, a maioria absoluta dos confrontos entre torcidas ocorreram do lado de fora. A exemplo do que também se já repetiu em São Paulo ou outros lugares, mesmo com torcida única.

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A decisão do Juizado Especial do Torcedor, que deveria entender um pouco mais sobre o próprio torcedor, soa mais como uma engenharia de obra pronta. Traz uma solução que, de fato, não soluciona nada – no máximo, sendo muito bonzinho, atenua o problema. Ineficaz especialmente se medidas de prevenção e inteligência não forem tomadas nos arredores do estádio, para evitar que boçalidades como a do último domingo se repitam. Não é uma questão de privar torcidas rivais de ocuparem o mesmo espaço, e sim de olhar a situação como um todo. Quem quer brigar, vai brigar, longe ou perto do estádio. Mas, no fim das contas, tal proposta só suprime direitos básicos da maioria absoluta dos torcedores que não tem nada a ver com a violência e acaba banida dos clássicos com mando do oponente. Normaliza o alarmismo, estabelecendo que não é mais possível a convivência de rivais no esporte – repito, rivais no esporte, não inimigos em guerra.

Soa mais absurdo ainda quando se pensa na excepcionalidade da ocasião que resultou na fatalidade do final de semana. O juizado parece ignorar a situação caótica vivida pelo poder público no Rio de Janeiro. Nada justifica a boçalidade que levou ao crime, mas a falta de policiamento ostensivo (por uma postura compreensível dentro da crise instaurada) acabou sendo permissiva ao episódio de violência. E não seria a mera presença de apenas uma torcida no estádio que impediria os criminosos de saírem às ruas para cometerem seus atos.

No fim das contas, a adoção de torcida única se transforma em uma medida para inglês ver. As autoridades “responsáveis” tentam prestar contas à população de que estão fazendo algo, quando realmente só agem paliativamente. É o cachorro correndo atrás do rabo, sem se questionar a efetividade da proposta e sem se pensar seriamente em todo o problema envolvido. A violência no futebol não se extinguirá com torcida única. Da mesma maneira como não afastará a necessidade básica de oferecer segurança aos torcedores também no entorno do estádio.

Desanima a negligência que parte de todos os lados – inclusive de clubes e dos próprios torcedores. Não se veem discussões de medidas que podem ser realmente funcionais. Pior, o futebol acaba sendo colocado como um ambiente à parte do resto da sociedade, quando justamente é uma de suas partes mais vivas e escancaradas. Como já dissemos aqui na Trivela, e volto a repetir, “excluir torcida visitante é mais uma prova de como autoridades não gostam de lidar com pessoas”. Perpetua-se o estádio como um ambiente no qual a violência pode romper a qualquer momento, quando ele nada mais é do que uma extensão das ruas, em uma situação específica, com a multidão concentrada. A violência do futebol não é só do futebol. A falta de empatia e de educação é ampla. O problema, portanto, é questão de políticas públicas, não apenas nos estádios.

Resta saber qual interesse que acaba sendo atendido por esta medida. Porque, claro, há sempre um interesse a se atender. Ao que parece, é se eximir das responsabilidades e tomar o caminho mais curto possível – quando, de fato, a falência se espalha em diferentes âmbitos. Perdem todos, especialmente aqueles que não deveriam ter nada a perder. É de se lamentar, claro, a postura dos indivíduos que ignoram qualquer caráter de sociabilidade e cometem a violência no futebol – se aproveitando da falta de controle com o baixo policiamento para ampliar a barbárie. Porém, também devemos lamentar quando as autoridades colocam todo e qualquer cidadão no mesmo balaio, assinando seu atestado de incapacidade com uma medida que, por mais que atenue o entrave, não vai ser a solução – pior, prejudicando quem não deveria e ratificando um sentimento de medo em torno dos estádios.

Ao menos, pelos primeiros movimentos, os clubes não deverão se calar, já se posicionando contrariamente. E é isso que realmente falta: o debate, ao invés de engolir a seco algo que cada vez menos tem sentido.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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