Profissionalismo ou exploração?

Com o início de quase todos os estaduais, a temporada de 2012 teve seu início real. Mas é fora de campo, por enquanto, é para onde (ainda) estão voltados os principais holofotes neste final de janeiro. E as principais atrações são sempre elas, as intermináveis novelas de contratação de jogadores por alguns dos principais clubes do país.
Depois da definição da ida de Thiago Neves para o Fluminense, dois nomes estão ininterruptamente nos noticiários: Vagner Love e Nilmar. Sobre a situação dos atacantes eu falo mais pra frente. O que me chamou a atenção esta semana foi a entrevista coletiva dada por Orlando da Hora, agente de Nilmar.
Que a situação financeira do Villarreal não é boa – assim como de boa parte dos clubes espanhóis, por conta da crise pela qual passa o país – muita gente sabe. Nilmar é um dos principais nomes da equipe, e por isso, foi colocado à disposição para que o clube possa fazer caixa. O São Paulo apareceu como principal interessado, e segundo boa parte dos jornais espanhóis, a negociação estaria adiantada. Entretanto, Orlando da Hora, desde o início, vem travando a negociação.
Primeiro, declarou que Nilmar está feliz na Espanha e que prefere continuar no futebol europeu. Depois, na já citada coletiva, deu declarações que causaram espanto até para quem, como eu, está acostumado com a maneira com que as negociações acontecem no futebol atual.
De maneira deselegante, o agente fez uma inacreditável analogia ao dizer que seu cliente aceitaria a melhor proposta financeira independente de onde venha. “Você já viu garota de programa ter marido? E jogador de futebol torcer pra algum clube?”, respondeu a um jornalista que começou a pergunta com a declaração de Luis Fabiano, dando conta de que Nilmar seria são-paulino.
Não satisfeito, na sequência da entrevista, disse que o jogador não fecharia com o São Paulo pensando somente nas condições de trabalho. “Não tem isso de melhores condições de trabalho, fisioterapia. Estamos com nojo de fisioterapia. Queremos dinheiro”.
É claro que, assim que puder, da Hora vai soltar uma nota dizendo que foi “mal interpretado” em suas declarações. Mas elas expõem o que, de uma maneira geral, acontece nas relações entre os jogadores e seus agentes.
Impossível não lembrar nesse momento da célebre frase de Renê Simões em relação a Neymar (“estamos criando um monstro”). Só que nesse caso, o “monstro” que está sendo criado é a importância dos agentes no gerenciamento (geralmente mal feito) das carreiras dos jogadores.
Quase sempre de olho só na grana, a prioridade é aceitar a primeira proposta milionária que aparece do “mundo árabe”, do leste europeu e agora, da China, sem ao menos avaliar se esse é a melhor opção naquele momento. Sem falar em outros cuidados que são indispensáveis atualmente, como a manutenção de uma imagem positiva também fora de campo e um mínimo de zelo na utilização das redes sociais.
Ainda não dá pra saber se a entrevista vai inviabilizar de vez a ida de Nilmar para o Morumbi. Seria leviandade dizer que as declarações foram dadas intencionalmente para dificultar essa negociação, já que, desde o início, a intenção do atacante (ou seria de seu agente?) é de permanecer no exterior. Apesar de todo o preconceito em torno da profissão (preconceito este que ficou evidente no tom depreciativo da declaração de da Hora), a prostituição não é crime no Brasil.
Ainda bem que, ao contrário do lenocínio – exploração da prostituição, crime tipificado no Código Penal – a exploração de jogadores de futebol por seus agentes ainda é permitida pelas leis do país…
Amor na pressão
Enquanto Nilmar quer ficar na Europa, Vagner Love conseguiu o seu desejo de voltar ao Brasil. O jogador não esconde de ninguém que é rubro-negro e que sente saudades de sua primeira passagem pelo clube, em 2010, quando fez 23 gols em 27 jogos.
Por isso, mesmo com o CSKA Moscou classificado para as oitavas de final da Liga dos Campeões da Europa, Love forçou uma barra e pediu aos dirigentes do clube moscovita para voltar ao Flamengo, mesmo tendo sondagens de outros clubes europeus.
Nessas negociações internacionais, a gente nunca sabe exatamente o valor da compra dos direitos econômicos. Desta vez, falam que o CSKA pediu 10 milhões de euros (cerca de R$ 26 milhões) e que o Flamengo estaria disposto a pagar um valor próximo disso. As condições e o prazo de pagamento ainda não haviam sido divulgadas até o momento em que eu escrevia esta coluna – e quase sempre isso significa o famoso “fulano de tal já está acertado com o clube ‘x’, só falta a liberação do clube ‘z’” que a gente tanto vê na imprensa.
A negociação foi oficializada na quarta-feira, com um contrato que vai até dezembro de 2014. Com isso, Love chega ao Flamengo sob uma pressão que talvez não tenha experimentado na carreira. O atacante conquistou boa parte da torcida rubro-negra não só pelos gols, mas pela disposição e empenho em campo. E os argumentos dos defensores da contratação do jogador são invariavelmente estes: a alta média de gols, o fato de ser rubro-negro (o que, certamente, Orlando da Hora desmentiria, caso fosse agente de Vagner Love) e a raça.
No entanto, uma negociação de 10 milhões de euros (mesmo que em um pagamento parcelado) envolve um valor alto até mesmo para os atuais padrões europeus, onde os clubes andam cada vez mais cautelosos com suas contratações. Além disso, Love deverá receber um salário também no patamar europeu, nessa ciranda financeira maluca em que os clubes brasileiros se meteram nos últimos tempos – e que, no Flamengo, costumam ser ainda mais inflacionados.
Vagner Love foi contratado a peso de ouro para solucionar o problema da escassez de gols no Flamengo – essa é a expectativa geral. Já li muita gente escrevendo que não se importa com quanto dinheiro seja gasto, contanto que os títulos apareçam. Com isso tudo, o amor da torcida pode se transformar em irritação caso os gols não apareçam logo – Deivid, artilheiro do time na temporada passada, que o diga.
Libertadores: um semestre em (um) jogo
Internacional e Flamengo começaram nesta quarta-feira a definir o primeiro semestre. A participação dos dois clubes na primeira fase da Copa Libertadores da América – popularmente conhecida por pré-Libertadores – é uma situação pouco confortável para os clubes brasileiros.
O Inter bateu o Once Caldas, campeão em 2004, clube acostumado a jogar a Libertadores nos últimos anos, e ainda com a indefinição sobre a permanência de Andrés d’Alessandro, depois da proposta milionária do futebol chinês. O 1 a 0 no Beira-Rio não foi um resultado que possa dar uma folga à equipe de Dorival Junior para o jogo de Manizales. No entanto, o Colorado joga por um empate e, caso faça pelo menos um gol na Colômbia, obriga o adversário a vencer por dois gols de diferença.
Já o Flamengo, que começou o ano envolto em uma turbulência poucas vezes vista, cometeu os mesmos erros vistos durante boa parte da temporada passada, e levou a virada do Real Potosí fora de casa. Como se esperava, o adversário não impressionou, o fato de jogar a 4.200 metros de altitude acabou, se não definindo o placar, pelo menos inibindo uma melhor atuação da equipe. Aparentemente, uma vitória no Engenhão não parecer ser algo difícil, mas o ambiente confuso deixa uma névoa sobre a atuação dos comandados de Vanderlei Luxemburgo, cada vez mais fora de sintonia com o elenco.
Como não disputam a Copa do Brasil, uma eliminação precoce do torneiro sul-americano traz imenso prejuízo financeiro e técnico, além de tumultuar o ambiente no clube. O Corinthians passou por esse momento complicado no ano passado, depois de ser eliminado pelo Deportes Tolima, ainda que, no decorrer da temporada, tenha conseguido se reencontrar, chegar à decisão do campeonato paulista e conquistar o título brasileiro.
Por isso, é de vital importância para que Internacional e Flamengo vençam seus adversários e possam chegar à fase de grupos da Libertadores. Nestes dois jogos que farão na quarta que vem, os dois clubes apostam todas as suas fichas do semestre. É aguardar pra ver.
CURTAS
Em que pese a fragilidade dos adversários, boas vitórias de São Paulo e Flamengo na rodada inaugural dos Estaduais. O rubro-negro jogou com a garotada e goleou o Bonsucesso sem esforço. O tricolor paulista, ainda sem contar com todos os reforços, passou fácil pelo Botafogo de Ribeirão Preto. No meio de semana, venceu o Oeste em Presidente Prudente e chegou a sete gols marcados em dois jogos.
No jogo de domingo do São Paulo aliás, aconteceu o gol contra mais incrível dos últimos tempos. Se você ainda não viu, procure no Youtube. Sensacional, só que ao contrário.
Dos times da série A, Portuguesa, Bahia, Inter e Grêmio foram derrotados na rodada do fim de semana. O Santos, com time reserva, empatou em Piracicaba. Na quarta-feira, Ricardo Bueno salvou o Palmeiras no “clássico” diante da Lusa.
O interminável Túlio fez mais um pelo CSE no Alagoanão. E ainda perdeu um pênalti cobrado bisonhamente na vitória do time de Palmeira dos Índios por 4 a 2 sobre o CEO.
Corinthians e Fluminense decidiram a Copa SP de Futebol Junior em um jogo de muita correria, muita bola cruzada e a vitória alvinegra por 2 a 1. Curiosamente, no atual momento dos dois clubes, com elencos caros e investimento alto, é pouco provável que alguns dos destaques da competição sub-18 sejam aproveitados em suas equipes profissionais.
Começando a Libertadores com Inter e Flamengo em situações opostas em relação ao mando de campo, faço a pergunta aos leitores: em um mata-mata com saldo qualificado, como acontece no torneio, é realmente melhor jogar o segundo jogo em casa? Eu já tive plena convicção que sim. Hoje, já não tenho.



