Brasil

Produto de risco

Há pouco menos que um ano, esta coluna apontou Thiago Neves como o melhor jogador em atividade no país. É verdade que parte da reputação para isso se construía em um alicerce não muito sólido – os estaduais -, mas o meia do Fluminense jogava realmente demais, confirmando uma temporada de alto nível que tivera em 2007. A capacidade de Thiago foi ratificada com os quatro gols nas finais da Copa Libertadores, mas seu brilho, neste momento, é um rascunho do passado.

Thiago Neves se apresenta ao Fluminense na próxima sexta-feira como a contratação que René Simões chamou de “bomba”. O Hamburgo, que pagou uma fortuna para levá-lo à Alemanha há um semestre como o substituto declarado de Rafael van der Vaart, certamente não pensa diferente de René. Em sua passagem meteórica pela Bundesliga, Thiago ajudou a reforçar a imagem construída que se tem de jogadores brasileiros na Europa: instáveis, descompromissados e de difícil adaptabilidade às sensíveis diferenças que há entre o futebol jogado e a vida fora de campo entre Brasil e Europa.

Embora seu empresário, Léo Rabelo, negue a versão, há fontes seguras que confirmam que Thiago Neves abandonou os últimos treinamentos do Hamburgo, que voltara atrás na negociação que o levaria em definitivo ao futebol árabe, com escala de seis meses nas Laranjeiras. A princípio, os alemães protelaram em negociar Thiago, temendo sofrer pressão de imprensa e torcedores caso ele repetisse, no Brasil, o bom futebol que o levou à Europa. As atitudes de Thiago, porém, ataram as mãos dos dirigentes alemães, que abriram mão do projeto que tinham para substituir Van der Vaart, maior jogador do clube ao menos nos últimos cinco anos.

Em contato com este colunista, Léo Rabelo disse não ver prejuízo aos alemães no episódio de Thiago Neves. Crê que por o brasileiro ter sido vendido por um valor superior ao de sua compra, não há um mau negócio. Rabelo certamente não computa o quanto vale uma aposta fracassada em um jogador que chegou a Hamburgo para ser o maior do time.

Meia-atacante de origem, cujo estilo de jogo é calcado na velocidade e agilidade para os dribles e muito boa precisão e força nos chutes de média e longa distância, Thiago Neves se mostrou deslocado no esquema em linha adotado no meio-campo pelo treinador holandês Martin Jol, o mesmo que quase levou o Tottenham à Liga dos Campeões há três anos. Em qualquer das duas faixas em que fosse escalado, apresentava dificuldades, embora falasse à imprensa estar se empenhando para uma adaptação – que não ocorreu.

Na década de 90, parte da imprensa nacional perdia os fios de cabelo tentando entender por que os grandes clubes europeus pagavam tanto pelos jogadores argentinos e tão pouco pelos jogadores da aqui. Aos poucos, chegou-se à conclusão de que o atleta brasileiro é um produto de risco, sempre disposto a tudo para fazer as malas, reclamar do clima, da alimentação difícil e de um “treinador que não gosta do Brasil”.

Passagens como as de Viola pelo Valencia, de Edmundo pela Fiorentina, e de Deivid pelo Bordeaux, entre outras, reforçaram essa imagem cada vez mais consistente. Zé Roberto, que esteve no Schalke 04, e Carlos Alberto, no Werder Bremen, são casos recentes.

Thiago Neves, que há menos de 18 meses assinou dois contratos – com Palmeiras e Fluminense -, disse ter amadurecido neste episódio e apontou seu antigo empresário como culpado pela confusão. Vendo sua postura e de Léo Rabelo no caso, como por exemplo, ao sugerir que pode ampliar o período de empréstimo e não ir à Arábia Saudita até o fim de 2009, chega-se à conclusão clara de que Thiago não mudou tanto. Nem melhorou de agente.

CBF prova seu amadorismo no caso Anderson

Quando se reunir em Londres para o amistoso contra a Itália, agendado para o dia 10 de fevereiro, Dunga deve ter apenas 21 jogadores à disposição. Em um episódio lamentável do ponto de vista administrativo, a CBF e seu treinador convocaram Anderson, lesionado, e tiveram que anunciar seu corte no início da semana. Luís Fabiano, que se machucou na penúltima partida do Sevilla, é outro que não enfrentará a Azzurra no primeiro jogo da Seleção Brasileira em 2009.

Embora o treinador não seja obrigado a conhecer, de cor, o estado físico de seus comandados, sabe-se que a CBF recebe quantia suficiente para dar esse respaldo para Dunga. E ao afirmar que não levaria nenhum jogador que atua no Brasil para Londres, o técnico fechou as portas para substituir seus desfalques inesperados.

A impossibilidade de trazer Amauri fora do prazo previsto pela Fifa, também, demonstra mais uma vez a falta de habilidade para negociações da CBF e da comissão técnica. Enquanto Diego Maradona já tem trânsito livre em alguns dos grandes clubes europeus, Dunga e sua cúpula foram incapazes de fazer a Vecchia Signora abrir uma exceção à verde-amarela. O treinador, aliás, precisou passar por uma saia justa ao anunciar o chamado do atacante, poucos dias depois de ironizar a possibilidade de convocá-lo.

Sub-20 vai bem

Com vitórias sobre Uruguai e Argentina na abertura do hexagonal final, o Brasil Sub-20 encaminhou, não só a vaga para o Mundial da categoria, mas também o título continental. Na próxima semana, a coluna promete uma abordagem mais completa – e definitiva – sobre o selecionado de Rogério Lourenço.

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Equipe Trivela

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