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Procura-se um clube

Muita gente acha que os estaduais não servem para nada. Se você conhecer a realidade de milhares de pessoas que tentam a vida como jogador em time pequeno, sabe como eles são preciosos. É a oportunidade que muita gente tem de se destacar e conseguir um emprego para o segundo semestre. Não é uma vida de glamour como nos times grandes. Por isso, resolvi recuperar uma reportagem sobre esses trabalhadores na edição de hoje do Baú da Revista ESPN.

 

Procura-se um clube

Com título estadual e vários times no currículo, Roque está entre as dezenas de jogadores brasileiros que ficaram sem emprego com o fim dos estaduais

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apontou a criação de 272.225 novas vagas de emprego com carteira assinada em abril de 2011, resultado que supera a média dos últimos quatro anos, em torno de 250 mil empregos regidos pela CLT. Carlos Lupi, ministro do Trabalho, aponta para a possibilidade- de o País alcançar o pleno emprego (menos de 6% de desempregados) ainda neste ano. Para muitos jogadores de futebol, assustados com o término dos campeonatos regionais, os números não confortam. Eles correm atrás de um contrato que garanta o pão de cada dia pelo menos até o fim do ano. Roque é um deles.

Roberto da Silva Roque, de 31 anos, tinha vínculo com o Noroeste e estava emprestado ao São José-SP. Os dois times, como a grande maioria ao término do primeiro semestre, dispensam quase todos os jogadores e montam equipes baratas, com vários atletas da base, para completar o calendário. Roque agora é um desempregado. Conta com a ajuda do empresário Elias Castro para conseguir o 16º time de sua carreira de 11 anos: “Temos uma parceria. Quando consigo um time, pago uma parte a ele”, diz. E também para que as dificuldades de 2006 não voltem a assombrá-lo.

No segundo semestre daquele ano, após disputar o Campeonato Mineiro pelo Guarani de Di-vinópolis, Roque não arrumou clube. Com a poupança que havia feito, conseguiu se manter por quatro meses. Sem perspectiva de melhora, passou a vender o pavê de chocolate feito pela esposa, Patrícia. Dois reais o pedaço. Um primo o indicou não a um clube, mas a um posto de gasolina. O futebol voltou à sua vida três meses depois, quando chegou ao Paranavaí.

O time surpreendeu e foi campeão paranaense em 2007. Foi então que a carreira de Roque, que já havia passado por Portuguesa, Corinthians, Mauaense, XV de Jaú, Taubaté, Rio Preto e VEC (Varginha), começou a melhorar. Jogou no ascendente Barueri e em 2008 disputou o Paulista pelo Guarani. Agora, Roque volta à luta por um clube, com um parceiro que exagera na sinceridade.

“Quando tento colocar um jogador em um time, o importante é saber como foi seu desempenho no clube anterior. E Roque perdeu a posição nas últimas cinco rodadas. O passado não adianta. Ele era forte como o Roberto Carlos, um touro, mas agora já tem 31 anos. Pode ser em um time do Norte, mas aí são dois trabalhos: levar o jogador e depois buscar, porque os salários atrasam”, diz Castro, mostrando um certo desânimo com a profissão. “Todo jogador pensa que é Ronaldinho Gaúcho. Então, o técnico não escala e vira sacana. Ele sai do time e, se o empresário não consegue nada, vira filho da puta. Eles não erram nunca.”

Enquanto o telefone não toca, Roque faz musculação e brinca com os filhos: Fabrício, de 9 anos, e Heloísa, de 6. “Minha mulher me apoia, mas às vezes fica nervosa e reclama. Peço para ter calma que as coisas vão dar certo. Por falar nisso, você conhece alguém do Icasa ou do Salgueiro?”

RINALDO MARTORELLI É PRESIDENTE do Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo. Ele não consegue citar um número de desem-pregados entre os jogadores de futebol. Uma estimativa de 2009 indicava 20% de desemprego. “Essa profissão é muito doida. Eu precisava fazer um estudo com o Dieese para entender melhor o perfil dos jogadores. Você diz que muita gente fica desempregada nessa época [fim dos estaduais], mas os times continuam atuando, não é? Isso significa que novos jogadores tomaram o lugar de quem saiu. Mas os que entraram são profissionais ou apenas meninos iludidos que no semestre seguinte desistem da profissão?”, divaga.

Entre tantas dúvidas, ele tem a certeza de que a solução é uma mudança brusca no calendário, com os regionais sendo disputados durante o ano todo, correndo em paralelo ao Brasileiro. Enquanto a ideia não se torna realidade, o Sindicato mantém o projeto Expressão Paulista, coordenado pelo diretor Mauro Costa e que atende atletas sem clube. O empresário Nivaldo Tím-pari emprestou o centro de treinamentos e o material. Os treinos acontecem de terça a sexta-feira, sob o comando do técnico Alexandre Pereira e do supervisor Gérson Caçapa, ex-zagueiro e ex-volante do Palmeiras, respectivamente. “Temos um preparador físico e fizemos parceria com a Uninove para recuperação física dos atletas. É um projeto bem bacana”, diz Martorelli.

Átila Araújo Prado, de 21 anos, concorda. Zagueiro central, foi campeão sul-americano sub-17 pela seleção brasileira em 2007. Estava pronto para disputar o Pan do Rio quando sofreu rompimento dos ligamentos cruzados do joelho esquerdo. “Voltei para o Corinthians, mas a operação não foi benfeita e fiquei um ano e meio parado. Terminou meu contrato, fui para o Bahia e depois fiz uns treinos no Saint Gallen [da Suíça]. Estou esperando resposta. Enquanto isso, treino duro aqui.”

O jogador treina e o empresário corre atrás. Quando se está empregado, a luta é por uma boa renovação ou aumento de salário. Quando os tempos são bicudos como em maio, que antecede a formação de elencos para as Séries A e B do Brasileiro, empresário gasta lábia mesmo é para conseguir um emprego para o pupilo. Cada um usa as armas que tem.

Helton Dallaqua aposta no sangue-frio. “É como em uma partida de pôquer. Ou você acerta logo e recebe quanto eles querem pagar ou espera um pouco, desempregado, e tenta ganhar mais. Tem time que perde as três ou quatro primeiras e corre para ‘sarar as feridas’, e a gente aumenta o valor pedido.” Helton representa Júlio César, volante que começou no Grêmio em 1998, com Ronaldinho Gaúcho, Tinga e Anderson Polga. Jogou no Japão, no Juventude, São Caetano, Caxias e foi campeão da Série C com o Criciúma em 2010.

Mais do que pensar na companhia ilustre de Ronaldinho Gaúcho, Júlio César aposta é nas diferenças com o supercraque para se recolocar. “Treinador que está montando um time não quer problemas. Por isso, pergunta muito sobre a vida do cara fora de campo. E a minha é perfeita. Não bebo, não fumo, treino muito e sou líder. Não faço panelinha. Isso me dá certeza de conseguir um bom time.”

Gilson Kleina, seu técnico no Criciúma e hoje à frente da Ponte Preta, confirma as credenciais. “A vida fora de campo é tão importante quanto o rendimento em campo. Na Série B é preciso haver regularidade, elenco e comprometimento. O Júlio tem tudo isso. Na Ponte contamos com oito volantes. Se algum sai, a vaga é dele”, diz.

Os sonhos dos jogadores desempregados passam pela Europa e pelas Séries A, B e C. Mas fica difícil resistir a uma oferta por um ano de trabalho sem sobressaltos em um time menos badalado. Foi o que aconteceu com Henan, que saiu do Atlético Paranaense e foi para o Comercial de Ribeirão Preto. É um recomeço para o atacante de 25 anos, que, enquanto esperava, ocupava o tempo ajudando seus pais a lavar vans. Em 2010, pelo Red Bull, foi vice-artilheiro da A-3 e artilheiro da Copa Paulista. Marcou 30 gols em 46 jogos.

Foi dispensado- do Atlético após participar de apenas quatro jogos. “Perdemos um mês de salário, mas é bom sair sem brigas. Foi melhor do que receber e ficar treinando separadamen-te, com fama de desempregado”, pondera o empresário Flávio Pires, que, no início da matéria, jurava que Copa Paulista era inimaginável para quem jogou no Furacão. Mesmo que tenha sido apenas brisa passageira.

E há quem busca emprego agora, mas já tem trabalho garantido em 2012. É o caso de Alessandro Cambalhota, de 38 anos, que disputou o Paulistão pelo Linense. “Eu moro em Novo Horizonte e o time vai voltar no ano que vem para disputar a B-1 do Paulistão. Será minha despedida do futebol. Agora, quero arrumar um time para esse semestre, mas não vou ligar para ninguém. Também não tenho empresário. A turma vai se lembrar de mim.”

Há motivos para o sossego de Alessandro. “Guardei dinheiro e cuidei bem da minha carreira. Tenho uma fazenda de mil alqueires e mil cabeças de gado.” Uma vaca mugindo, ao fundo da ligação, confirma a boa vida de Alessandro, invejada e desejada por quem joga bola, não tem vaca e sonha mesmo é com um bom bife diariamente no prato.

O confiável Assunção

Jogadores com bom currículo e passagem pela seleção brasileira também podem ter problemas na hora de conseguir um novo time. Foi o que aconteceu com Marcos Assunção quando deixou o Al Shahab, em 2009, para voltar ao futebol brasileiro. “Meu empresário procurou muitos times e os diretores nem quiseram ouvir quanto eu queria ganhar. Falavam que estava há muito tempo fora do País e que seria difícil me adaptar ao ritmo brasileiro”, conta o jogador, que completa 35 anos em julho.

Ele achou que seria mais fácil, que todos se lembrariam de suas passagens por Rio Branco de Americana, Santos e Flamengo, no Brasil, além de Roma e Bétis. Nada disso. O que pesava era o fato de ter 33 anos e jogar nos Emirados Árabes. Até o fim de maio discutindo a renovação de contrato com o Palmeiras, Marcos Assunção chega a dar certa dose de razão a quem não o aceitou. “A verdade é que o futebol no Brasil é muito mais corrido, e eles tinham razão de desconfiar de mim. Só que esqueceram que eu não bebo e não fumo. E saio muito pouco – um pouco só, porque sempre é bom ir a um pagode.”

A única oferta foi a do Barueri. “O time estava na primeira divisão do Brasileiro e do Paulista e ainda era perto da minha casa. Como não estava precisando de dinheiro e adoro futebol, aceitei. Sabia que meu trabalho seria reconhecido.”
No ano passado, Marcos Assunção chegou ao Palmeiras. Ganhou a posição de titular e não pensa em se aposentar. “Vou parar antes dos 40, mas não vai ser agora. Ainda tenho muita bola.”

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