Brasil

Problema do São Paulo não é Ney Franco, é Luis Fabiano

Encerrado o jogo do São Paulo ontem, esta honesta e competente categoria jornalística chamada “repórteres de campo” invadiu o gramado com uma missão: espremer de algum desavisado uma manchete que pudesse indicar que Ney Franco balança no cargo. “Perdeu o elenco”, como dizem estes intelectuais do jornalismo.

Se não fosse no Brasil, seria surreal. Não pelo papel ridículo a que este setor da mídia insiste em se sujeitar, isto pode ser ainda pior mesmo em países com taxas maiores de educação. O que seria ridículo é imaginar que o culpado pelos problemas é um técnico que tem à sua disposição em um elenco supostamente caro e estrelado quatro zagueiros ruins, um volante bom e um quebrado e duas metades de atacante.

A primeira pergunta para quem critica a “montagem da defesa” de Ney Franco é: você acha que Lúcio não conseguiu jogar nem no Queen’s Park Rangers por que? Por que Lucio teve um ano bom na carreira, que começou no meio de 2009 e acabou antes da Copa do Mundo de 2010. Porque Lucio é um zagueiro mediano, que erra muito mais do que um zagueiro pode errar, e que ainda por cima acha que é craque, o que faz com que vá para o ataque muito mais do que poderia. Isso, porém, se refere ao auge de Lucio, que, hoje, é isso aí tudo, só que velho.

O zagueiro que fez dupla com Lucio ontem foi Rafael Tolói, jogador pelo qual o Goiás bateu o pé na certeza de que poderia colocá-lo em um time europeu. Mais uma pergunta daquelas que valem a pena: se nem o Porto, nem o Shakthar, nem um desses times que compra qualquer lixo que venha do Brasil, quis pagar por ele, por que imaginar que seria o craque que estavam pintando? Evidentemente não é. Zagueiro não tem que ser classudo, não tem que ter habilidade. Tem que resolver. Tem que ter senso de posicionamento, de antecipação, velocidade e capacidade de desarme. O resto é para enganar cronista da Gazeta.

Zaga, porém, como sempre disse Cassiano Gobbet, é treino, e é também um sistema defensivo. O São Paulo tem apenas um volante em seu elenco em condições de jogo, Wellington. Denílson não é volante, é meio-campista, não é um jogador para o desarme, é jogador para distribuir o jogo e acompanhar o começo do ataque adversário. E Fabrício não joga.

Não vamos falar dos laterais, que o São Paulo não tem. Não vamos falar da contratação caríssima de Ganso – não estou pronto para pular no time dos que já acabaram com sua carreira. Ganso evidentemente está longe do que todos esperavam, não se pode contar com ele, mas prefiro esperar um pouco para ver como essa história vai acabar. O que não muda o fato de que, hoje, não se pode contar com ele para nada.

Somadas todas estas questões, temos um problema. Este problema, porém, não é muito diferente dos que têm todos os times do Brasil – e da América do Sul. O Corinthians foi campeão do mundo com Alessandro e Fabio Santos nas laterais e Chicão e Paulo André na zaga. Os zagueiros do campeão brasileiro são Gum e  Leandro Eusébio. O problema maior do São Paulo, porém, não é nenhum desses que aparece num primeiro olhar. É muito mais sério que isso, até porque vem disfarçado de solução. Chama-se Luís Fabiano.

“Luiís Fabiano é goleador e meteu gol em clássico” vai ser o argumento dos defensores. Clássico que não interessava para nada. Os “clássicos” que interessavam ao São Paulo eram contra Galo, Strongest e Arsenal. Fabiano só marcou contra o Strongest, gol importante, que garantiu a vitória – e que, sintomaticamente, quebrou um jejum de um mês sem marcar. Incontáveis, porém, não são apenas os gols que perdeu, mas também as jogadas que simplesmente param ao chegar a seus pés. Completando o molho, o atacante disfarça, conscientemente ou não, sua pésima fase com expulsões ridículas como a dom jogo em casa contra o Arsenal, depois do apito final. Enquanto isso, a diretoria tricolor assiste dos camarotes, e defende o jogador.

Por um lado, é compreensível. Luís Fabiano é O grande investimento do São Paulo em 2012, com vistas principalmente a 2013. Devia ser O CARA deste time. Não à toa, o único outro goleador do elenco é um jogador que não tem condições de vestir a camisa do time B do São Paulo. Só que o Luís Fabiano de 2013 é ainda pior que o de 2012, que ainda tinha um fantasma de lesões recentes. Simplesmente não marca quando precisa. O que é especialmente grave quando o time depende tanto dele.

Não é impossível que o São Paulo se classifique na Libertadores. Mesmo um empate com o Strongest ainda deixaria o time em condições de classificação. O Galo pode chegar à última rodada como burro na sombra, optando por poupar jogadores. E o técnico do Galo é Cuca. E, se conseguir a classificação, tudo muda, como qualquer um que acompanhe a história do torneio sabe. Ganso pode começar a jogar, Rhodolfo e Tolói podem achar de novo o futebol que um dia tiveram, jogadores que atualmente não aparecem, um Ademílson da vida, podem crescer. Até Aloisio pode começar a fazer gols, embora isso pareça um pouco fantasioso demais. Tudo depende, porém, de o time descobrir como se relacionar com esse fantasma chamado Luís Fabiano. Que, é evidente, ainda tem tudo para ser o grande fator de ressurgimento do São Paulo. Não será assim, entretanto, se continuar sendo tratado como craque decisivo, o que não tem sido,  e injustiçado, o que nunca foi.

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