Primeiros erros

Juventus, Rio Preto, Jaciara, Social, Democrata de Sete Lagoas, Macaé, Boavista e Madureira: equipes capazes de deixar o editor-executivo da Trivela de cabeça em pé, mas que em poucas semanas de futebol já foram capazes de arruinar ou dificultar a vida de cinco dos tidos clubes grandes do país. É natural que se argumente sobre o início de temporada, mas o Santos não pode levar de três do Moleque Travesso da Mooca, absolutamente. E por aí vai.
No início de 2008, antes de a bola rolar, quem acompanha o futebol nacional com certa regularidade já podia prever que, como vinham, por diferentes motivos, não se podia esperar muita coisa nesse ano de Fluminense, Vasco, Grêmio, Atlético Mineiro e Santos. As competições da temporada mal começaram, mas a tese vai sendo consolidada.
Com um time redondinho e que precisava de alguns acréscimos de qualidade apenas, o Fluminense caiu na tentação de ter muito dinheiro em mãos e ver o mercado dando sopa. Trouxe três nomes de muita qualidade, mas incompatíveis para o mesmo onze titular. Esqueceu que seu meia-esquerda era o principal jogador, e foi no vizinho Vasco trazer outro jogador para a posição. Não satisfeito, o Flu ainda acreditou que Gustavo Nery era um jogador importante para a Libertadores.
A competição continental ainda não começou para oTricolor e só se passou a Taça Guanabara. Mas, caso não reveja alguns conceitos, Renato Gaúcho vai deixar as Laranjeiras sem títulos por mais um ano. Thiago Neves, como provou contra o Flamengo, precisa jogar solto, próximo do ataque, driblando e finalizando ao gol. Arouca, ainda que vigoroso e multifuncional, não foi feito para cobrir laterais ridículos como Gabriel e Gustavo Nery. E, definitivamente, o futebol de hoje não permite Leandro Amaral, Dodô e Washington no mesmo time. O Flu ainda tem como fazer uma grande temporada, mas precisará mudar.
Já o Vasco, colhe os frutos de uma performance horripilante no mercado de contratações. Reforços como Beto, Marquinho, Calisto, Bruno Meneghel e Jonílson, só são suficientes para surrar equipes medonhas como um Resende ou um Mesquita. Com o fantasma de Romário em volta formando uma atmosfera pesada com Edmundo – e sob o gerenciamento de Eurico Miranda, tal equipe não pode mesmo ir muito longe.
Definitivamente, o Vasco só voltará a brilhar quando estiver longe dessas pessoas e tiver o mínimo de ambição para formar um time de futebol. Hoje, o clube de São Januário está estagnado no tempo e se salvou, nos últimos anos, por bons trabalhos de Celso Roth e, sobretudo de Renato Gaúcho.
O Grêmio acreditou mesmo que há um Mano Menezes em cada esquina. Novamente, contratou uma meia dúzia de reforços bastante discutíveis, promoveu uma safra promissora da base e esperou para ver mais um Lucas ou Anderson surgindo. Como diz o amigo Mozart Maragno, não é todo dia que tem pão quente. E foi o desgaste, por motivos não sabidos, que fatalmente culminou na decisão de trocar Mancini por Celso Roth. Melhor seria ter segurado o Mano. Ou, claro, montado um elenco forte.
No ano de seu centenário, o Atlético Mineiro pensou em Ricardinho e Gallardo, mas trouxe Souza e acredita que ele pode ser o camisa dez para alcançar muitas conquistas. Com uma penca de jogadores absorvidos de parcerias com clubes menores, o Galo já vai se livrando de alguns deles e, incrivelmente, dá uma aula de planejamento, capaz até de causar inveja ao Palmeiras dos tempos de Candinho e Marcelo Vilar.
O fantástico e vibrante torcedor atleticano não deve ter muitas esperanças a não ser da base, de onde o volante Renan saiu para se tornar uma das poucas boas notícias de 2008. É a formação que tem salvado o clube. Seja vendendo bons nomes como Diego e Lima, seja vendendo nomes obscuros como Quirino e Zé Antônio, seja projetando ótimos jogadores como Rafael Miranda, Leandro Almeida e principalmente Éder Luís. Ainda assim, é pouco, muito pouco. E os jogos atleticanos vão mostrando isso.
O Santos merece uma atenção especial. Após trazer só um ponto do agora limitadíssimo time do Cúcuta, o time de Emerson Leão conseguiu a proeza de ser batido pelo lanterna Rio Preto, cimentando seu lugar entre os rebaixados do Campeonato Paulista. Após ter arrecadado cerca de 70 milhões de euros vendendo jogadores como Robinho, Diego e Elano, Marcelo Teixeira entregou reforços como Marcinho Guerreiro, Molina, Tripodi e “Michael Jackson” Quiñonez. Com razão, os santistas estão preocupados e revoltados.
Se em 2007 o Corinthians caiu, o ano atual se inicia com candidatos a uma temporada bem abaixo da crítica. Quase sempre, por falta de criatividade (observem o Botafogo de Cuca), ou de competência (observem o Flamengo de Joel Santana).
Estaduais: sim ou não?
O futebol brasileiro é mesmo diferente dos demais. Enquanto a Itália tem três agremiações principais e a Espanha só duas, por exemplo, aqui são doze clubes e torcidas que se julgam e são chamados de grandes. Ainda há outros aspirantes ao rótulo, capazes de se indignar ao não se ver incluído na lista. Como já foi dito por Cassiano Gobbet, é impossível haver doze clubes grandes no mesmo país.
Ainda nessa linha, só o futebol brasileiro, dentre os principais do mundo, proporciona os torneios estaduais. Questionados em vários momentos e por muitas pessoas, diminuídos em 2002, mas retomados em 2003, e inchados nos últimos anos, eles são motivos de discussões eternas. E na Trivela não é diferente. Quem acompanha o dia-a-dia do site, nas colunas e no blog, pôde acompanhar a discussão proposta pelo Caio Maia, absolutamente indócil com os elogios feitos ao Atlético Paranaense e ao clássico San-São na última coluna.
Todos que acompanhamos o futebol sabemos que os estaduais, de modo geral, só existem pela relação de interesses corrente e recorrente entre as federações e a CBF. Naturalmente, uma depende das outras, que têm suas reivindicações e conseguem, por exemplo, 23 datas para realizar um torneio regional ao longo de toda uma temporada. É, indiscutivelmente, um enorme absurdo, e a Trivela, por sua idoneidade e linha editorial arrojada, deve pôr o dedo na ferida.
Todavia, o achincalhamento geral não é a forma correta de se fazer tal argumentação. Equipes do interior de todos os estados têm sua importância e a tradição, enquanto for possível, não deve ser extinta do futebol. É possível estabelecer um padrão apropriado para que eles sejam disputados, mas ocupando um espaço bem menor no calendário.
Se fossem 15 datas, por exemplo, estaríamos a seis jogos do encerramento do Campeonato Paulista. Poderia, até, haver uma fase anterior, sem os clubes da primeira divisão nacional, funcionando como um filtro. Encontrar um limite entre o tradicional e o convencional é mais simples do que parece. Basta querer.
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