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Precisamos de mais jogadoras como Cristiane, que levantem a voz pelo futebol feminino

O futebol feminino do Brasil sofreu um grande baque neste mês de setembro. A técnica Emily Lima, a primeira mulher a dirigir a seleção, foi demitida. As justificativas passaram longe de serem razoáveis, e o que se viu em seguida foi Cristiane, uma das principais jogadoras do mundo e um dos símbolos de uma geração, se aposentar de vestir a camisa do Brasil. A demissão de Emily foi a gota d’água para alguém há 17 anos lutando por melhorias. Duas outras jogadoras a seguiram. Fran e Rosana também decidiram não defender mais a seleção brasileira. E precisamos de mais vozes como a de Cristiane para pressionar por melhorias.

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Emily Lima incomodava a coordenação de futebol feminino. Ela organizou o calendário da seleção de 2017, que estava vazio. Por omissão de Marco Aurélio Cunha, a seleção não usou as datas Fifa do início do ano. Uma delas, no carnaval, o coordenador achou que não era necessária justamente por ser uma data comemorativa. Emily e sua comissão técnica criaram uma integração com a base e um plano de longo prazo para a seleção.

A demissão de Emily é, supostamente, por maus resultados. As cinco derrotas nos últimos seis jogos, em amistosos programados pela própria comissão técnica com times mais fortes, para se testar contra quem exige mais nível, e não contra adversárias que serão facilmente batidas. Emily deixa o cargo com 60% de aproveitamento, o que parece estranho para quem foi demitida por maus resultados.

As Dibradoras publicaram uma carta pedindo respeito ao futebol feminino e citaram o caso de Renê Simões, em 2004. O então técnico chegou ao cargo seis meses antes da Olimpíada de 2004 e, com um grande trabalho, levou o time à inédita medalha de prata, em uma final duríssima com os Estados Unidos, até hoje comemorado pelas americanas como uma vitória épica contra um time que jogou até melhor que elas.

Vale lembrar que, na época, a seleção feminina sequer podia treinar na Granja Comary. Ali, dizia a CBF, era apenas para a “seleção principal”, ou seja, a masculina. Isso mudou, também porque Renê Simões brigou pelas jogadoras, por mudanças. Com isso, o técnico ganhou o respeito das atletas, que o apoiavam. Havia um caminho a seguir.

O problema é que Renê Simões fez uma lista de mudanças necessárias para o futebol feminino brasileiro melhorar, na seleção e nos clubes. O relatório do técnico incomodou, mesmo com a medalha de prata no peito. Foi demitido, com sete meses de cargo e o melhor resultado já conseguido pela seleção brasileira.

Fica claro que a CBF não quer ninguém que encha o saco, que conteste, que exija melhorias, mudanças de fato. O anúncio de Cristiane deixa isso muito claro.

As palavras de Cristiane

Veja o que disse a atacante Cristiane, do Changchun Zhuoyue, na China:

“Não disse nada até porque já tinha minha decisão tomada e formada. Falei com minha família, falei com meus amigos. Escutei vários pedidos para que eu pensasse, inclusive das atletas. Mas não vejo outra alternativa por conta de todos os acontecimentos e por coisas que não tenho mais forças para aguentar. Aguentei por 17 anos, mas não tenho mais”, contou.

Cristiane contestou bastante a demissão de Emily Lima e colocou inclusive em pauta a questão dela ser mulher para não ter tido tempo para trabalhar como outras comissões técnicas à frente da seleção feminina.

“Foi bem difícil para mim quando essa comissão foi mandada embora. No ano passado, tinha me chateado bastante nas Olimpíadas por conta da minha lesão, tinha perdido vontade de voltar, e essa comissão me mostrou coisas diferentes, a Emily me pediu, e retornei. Aí veio o balde de água fria. Simplesmente tiraram essa comissão em pouquíssimo tempo, todas as atletas estavam gostando. Sem entender. Todas as outras que passaram tiveram muito tempo de trabalho, um ciclo grande. E essa não teve esse tempo de trabalho. Só porque era mulher?”, disse.

Cristiane também falou sobre quanto ganha cada jogadora pelas diárias na seleção. Vale lembrar que as jogadoras formaram uma seleção permanente no ciclo de Copa do Mundo de 2015 e Olimpíada do Rio em 2016.

“Quantas vezes vão acontecer vários pedidos e ninguém vai escutar. Toda vez foi assim, de pedir e ninguém escutar. Cansei de pedir. Estou fazendo esse pedido agora, como ex-atleta, esse último pedido. São detalhes que mudariam algumas coisas e ajudariam também. É muito fácil ir na televisão, bater no peito e dizer que dão todo suporte que a gente precisa, mas tem coisas que são erradas. Por favor, melhorem essa diária de R$ 250 que as meninas recebem. Estamos há anos recebendo a mesma diária. Explique como funciona os direitos de imagem, se é que existe, porque ninguém sabe. O ano passado ficamos o ano inteiro servindo a seleção brasileira, disputamos a Olimpíada, onde o mundo inteiro assistiu, e eu recebi R$ 2,5 mil, R$ 2,7 mil. Outras meninas, a mesma coisa”.

Por mais vozes

A atitude de Cristiane é importante, assim como a de Fran e Rosana. As jogadoras precisam se manifestar e cobrar, sim, que a CBF faça mais pelo futebol feminino. O coordenador parece imune a erros de planejamento, além de absurdos como o contado por Emily Lima no corte da goleira Bárbara para os amistosos na Austrália. A técnica foi repreendida ao pedir algum exame para os médicos da seleção que cortaram a atleta. Ela tinha falado com Bárbara, que disse se sentir bem. O médico da seleção, segundo Emily, a examinou por telefone. O corte, ela diz, foi para prejudicar a seleção.

Fatos como esse seriam mais que suficientes para um escândalo. Mas o futebol feminino ainda tem menos visibilidade e acaba não gerando a reação que deveria. É preciso que algo mude e que comece pela troca do coordenador de futebol da seleção feminina. É preciso tratar de forma profissional, de fato, e que haja uma Confederação Brasileira de Futebol que realmente se preocupe em investir no futebol feminino. Não é nenhum favor. É o papel da instituição. É o caminho que se tem tomado em diversos lugares.

Cristiane mesmo contou que Emily Lima brigava por melhoras dentro e fora de campo. Ela mesma citou o caso de Renê Simões, que também brigava por melhoras. A CBF parece ter a seleção feminina apenas de forma protocolar. Cristiane cita que ouvia da coordenação que o futebol feminino só existia por conta do futebol masculino. Coisas que, para uma atleta como Cristiane, que tanto fala sobre os problemas, parece demais.

Por exemplo: você já viu venderem camisas da seleção feminina à venda? Foi uma das reclamações que Cristiane fez. Eu nunca vi. O modelo feminino da camisa da seleção já é raríssimo, mas não há camisas da seleção feminina, que valorize as jogadoras. Seria uma forma de valorizar a seleção feminina e gerar mais recursos. Não se vê vender camisas, ou produtos, com Marta e Cristiane, para ficar nas duas mais importantes de uma geração que já passa dos 30 anos.

O que parece é que a CBF não se importa com a seleção feminina. Se as jogadoras não se importarem, especialmente as de maior relevância, não será Marco Aurélio Cunha ou Marco Polo Del Nero que farão isso. O Brasil já foi medalha de prata e, mesmo com um caminho promissor, não evoluiu o suficiente.

O futebol feminino, pela CBF, caminha lentamente. Enquanto o futebol feminino for tratado como um cargo político que a presidência da CBF usa para agradar aliados, tal qual acontece no Palácio do Planalto há décadas, o futebol seguirá sendo o menos importante. No futebol masculino, é difícil ter esperança que apareça alguém com a coragem de Cristiane.

No futebol feminino, a sua importância é ainda maior. A voz das jogadoras, como Cristiane, é fundamental. Precisamos de mais Cristianes. O silêncio é benéfico a quem está lá, nos escritórios da CBF, covardemente atrás dos seus antros de poder, impedidos de viajar por medo de serem presos fora do país e distribuindo o futebol feminino como se fosse uma capitania hereditária ou um cartório dado aos amigos nobres para explorarem algo que é fundamental a tanta gente.

Passou da hora de acabar com os cartórios e com seus Marco Aurélio Cunha tomando conta como amigos do rei.

Assista aos vídeos de Cristiane:

Muita coisa pra falar. Mas não tenho mais forças. #selecaobrasileira #futebolfeminino #brasil #orgulho #gratidao Uma publicação compartilhada por @crisrozeira em

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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