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Por que o Palmeiras precisa rever sua relação com a Itália

Era um jogo ruim, muito ruim, agressivamente ruim. O Palmeiras era bicampeão paulista e brasileiro e a expectativa de todos os alviverdes presentes ao Parque Antarctica naquele 4 de março de 1995 era que atropelasse a Ferroviária. Era necessário, pois o início de temporada teve seus tropeços e era a oportunidade de arrancar. Mas não adiantava. Futebol apagado, nada acontecia. O zunzunzum surgia na torcida: “esse Edmundo já mascarou, já quer forçar a saída do time”, “esse Edmundo só quer saber de Carnaval”, “saudades do Evair, esse jogava por amor à camisa” e “só ganhou uns títulos e esse time já acha que é o máximo. Precisa comer muito feijão para ser uma Academia”. Nem um grupo de corintianos ou são-paulinos teria tanta naturalidade em criticar aquela equipe palmeirense e seu principal craque.

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Mesmo quem não tem grande memória já sacou o que aconteceu depois. Aos 41 minutos do segundo tempo, Roberto Carlos lançou Edmundo pela direita. O atacante cortou o zagueiro da Ferroviária e, sem ângulo, achou um espaço entre a trave e o goleiro Paulo Sérgio. Palmeiras 1 a 0, vitória assegurada. A torcida delira ao som de “Fica, Edmundo / Você vai ser campeão do mundo” e se vira para as cabines de imprensa para xingar os jornalistas.

O melhor jeito de entender a paixão italiana pelas coisas sem sair do Brasil é ir a um jogo do Palmeiras. Ser palmeirense é ser um pouco italiano, mesmo para um torcedor negro, nordestino, japonês ou alemão. É amar cornetando, como a mamma que quer entupir o filho de macarronada no almoço de domingo enquanto diz que ele é um largado que não gosta da comida que ela faz com tanto carinho. Mas ai de quem falar mal do filho.

Isso tudo é subliminar, é algo dentro do padrão de comportamento do palmeirense e muitos nem percebem o quão italianos são na arquibancada. É impossível ignorar essa relação histórica e cultural, mas as referências mais explícitas incomodam – explico.

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Para muitos, a Itália significa pouco, e o Palmeiras tem de tomar cuidado antes de se transformar em um bar temático que joga referências aleatórias por tudo quanto é canto da parede para supostamente fazer homenagem a algo. E às vezes o clube faz isso com sua italianidade. A Itália tem de ser usada como o berço dos seus fundadores, como o ponto de partida de uma bela história  – mas uma história brasileira. Ser muito italiano significa apequenar um time que, faz muito tempo, conquistou brasileiros de todos os jeitos e origens. Dos Silvas aos Berti, passando pelos Berg e pelos Suzuki.

O Twitter oficial do clube manda sempre um “#SiamoNoi” e “#ForzaPalestra” quando a equipe joga. O programa de sócio-torcedor se chama “Avanti”. Quando fez um amistoso contra a Fiorentina, jogou com a camisa azul para homenagear a Itália. E, pelo divulgado nesta segunda, canhões de luz com as cores da bandeira da Itália serão acionados todo jogo da equipe. “Avanti” é um nome muito bom para marca de programa de sócio-torcedor, não sejamos radicais, mas o que o resto acrescenta ao clube além de ser uma referência solta?

Alguns vão achar que se tratam apenas de brincadeiras despretensiosas. Mas muitos torcedores veem nesse italianismo exacerbado um pé no passado, um pé no Palmeiras que muitas vezes ainda é administrado como se fosse uma cantina familiar do Bixiga, e, pior, um Palmeiras que parece esquecer que se tornou um clube muito maior que a comunidade italiana, abraçando negros, nordestinos, orientais, alemães, judeus, espanhóis, portugueses… Por que voltar para a cantina quando o Palmeiras já ficou muito maior do que ela?

Reinaugurar seu estádio seria um bom momento para o Palmeiras se impor, se mostrar maior que sua origem italiana. Se a ideia é criar um marco na cidade com canhões de luz, nenhum problema. Por que não canhões apenas verdes e brancos? Se a ideia é ter momentos para relembrar a origem italiana, por que não fazê-lo em um evento forte e impactante, como seria um amistoso contra a Itália pouco antes da Copa (a Azzurra jogou com o Fluminense)?

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Isso seria cornetar as atitudes do passado. Mas, para o futuro, o Palmeiras poderia concentrar essa relação com a Itália em um amistoso periódico (anual ou bienal, vai da capacidade de se viabilizar) em que traz ao Brasil um clube italiano. Reforça a presença para o mercado internacional (e, para isso fazer sentido, tem de jogar com a camisa oficial, a verde) e ainda cria um evento que todo torcedor ficaria feliz em presenciar. Aí, pode até criar uma feirinha em torno do estádio para servir massa, faz todo o pacote da italianidade e mostra como se orgulha de sua origem italiana. As demais ações do clube precisam falar com os milhões de alviverdes que têm na vontade de torcer cornetando sua única relação com a Itália.

Como costuma dizer Jota Christianini, historiador do Palmeiras: ninguém ficou muito preocupado em homenagear a Itália nas reformas passadas do Palestra Italia. O Palmeiras campeão é seguro de si. Jota está certo (embora seja bom dizer que nós não falamos com ele para esse texto específico) e nos faz pensar em uma coisa: O apego ao passado só faz sentido em um clube que não tem segurança quanto ao futuro.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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