Por que o jornalismo esportivo perde quando alimenta teorias da conspiração
No bar, um erro de arbitragem liberta todas as teorias da conspiração escondidas nas profundezas do coração. Elas ganham força porque são confortáveis. Dizer “está tudo armado!” é uma forma de eximir o próprio clube. Não é o seu clube que perde – são as “forças ocultas” que o impedem de vencer todos os jogos em todos os campeonatos.
LEIA TAMBÉM: Apesar da péssima arbitragem, Brasileirão nos dá bons motivos para comemorar
Em um campeonato tão longo e com tantos erros de arbitragem, como o Campeonato Brasileiro, este tipo de ideia encontra terreno fértil para nascer, crescer, se reproduzir – e nunca mais morrer. Mas isso é conversa de bar, ou deveria ser assim. É como reclamar que tudo de ruim acontece por causa dos políticos ou “puxa, São Pedro, por que o senhor não manda chuva nesse tempo seco?”. É uma conversa de elevador, coisas para puxar assunto na falta de um. É o famoso “você não está fazendo nada, eu não estou fazendo nada, vamos fazer nada juntos?”.
O nó é quando programas de jornalismo esportivo colocam conspiração na pauta do dia. Eles dão legitimidade para a conversa de elevador. Ultimamente, vários colegas estão colocando esse assunto de uma forma oblíqua. Eles colocam a conversa de elevador na pauta, passam horas falando sobre isso e, no final… concordam que não, aquela conversa não tem nenhum sentido. É como chegar no almoço de família e falar “ei, será que o homem realmente foi à Lua?”. Aquele seu tio doido vai dizer que tudo não passa de conspiração dos americanos. Seu primo vai ficar alucinado, querendo saber de onde você tirou a informação de que o homem poderia não ter ido à Lua. Depois de 30 minutos, você chega e crava: “Mas é claro que o homem foi para a Lua! É bobagem acreditar nessas teorias da conspiração”.
Só que, a partir daquele instante, a conversa já foi colocada na mesa. O assunto passou a existir para a sua família – que, até aquele instante, só estava preocupada com a secura da massa da lasanha. Em jornalismo, o caminho é semelhante. A gente não entra na cabeça das pessoas e decide o que elas vão pensar. Mas nós temos responsabilidade. Nós convidamos as pessoas a falar sobre alguns assuntos. E, sim, temos de assumir a responsabilidade por isso (e, aqui na Trivela, a cobrança é dura, rapaziada).
A voz do povo
Jornalismo não é conversa de bar. É apurar, ter evidências, chamar à discussão com base em algum dado real, em alguma ideia bem argumentada. O problema é que alguns programas esportivos começaram a vender entretenimento como se fosse jornalismo. Para dar fundamento jornalístico à conversa de de elevador, embasam a discussão na “voz das ruas”, “voz do povo” ou “boca do povo”.
Isso fica mais claro se mudarmos de editoria, do esporte para política, por exemplo. Imagine a situação. “A voz das ruas” fala em um esquema de desvio de verbas de merenda escolar em escolas municipais. Assunto quente, que certamente renderia muitos acessos aos sites que o noticiarem e audiência aos programas de TV que repercutirem o fato. Mas, para isso, será preciso mais do que atribuir a um mero “está na boca do povo”. Será preciso investigar, checar informações, descobrir se há mais do que um boato. É preciso encontrar fontes confiáveis que digam que isso de fato acontece, ou documentos, ou que haja uma investigação em curso do Ministério Público, da polícia, ou de órgãos que são responsáveis por investigar. Sem isso, vira só fofoca. E a fofoca enfraquece o fato. Afinal, se nada for provado, como é que fica quem chamou à discussão? A voz do povo é muito importante e precisa de respeito. Por isso que não basta discuti-la, mas comprova-la – ou negá-la. Esta é a função do jornalismo, afinal.
O torcedor inconformado – com razão – com os recorrentes erros de arbitragem deve, a essa altura, estar vociferando contra esse texto e dizendo que a imprensa não publica informações sobre isso. Bem, qualquer jornalista que tenha orgulho de sua profissão adoraria ter na mão as provas de que há manipulação de resultados no futebol brasileiro, do mesmo jeito que adoraria publicar os documentos que provam o desvio de dinheiro da merenda escolar na hipótese do parágrafo anterior. Isso traz prestígio, prêmios, promoções, aumentos de salários e propostas de outros veículos. Não à toa, os maiores escândalos de manipulação de resultados foram a público por meio da imprensa, com a Máfia da Loteria Esportiva (Placar), Caso Ivens Mendes (Globo) e Máfia do Apito (Veja). Ou, passando para a política, como o caso do Mensalão ou, mais recentemente o Lava-Jato.
Essas reportagens traziam provas, colhidas após muita investigação ou acesso a gravações de conversas comprometedoras. Não é o que ocorre quando Milton Neves coloca a discussão sobre “apito amigo” em pauta no Terceiro Tempo. Nesse momento, o apresentador legitima um discurso que é só visceral. É um grito de raiva por um erro, mas sem trazer uma apuração jornalística sobre o fato. Há evidências? Quantos erros aquele árbitro cometeu?
A ESPN, conhecida pelo seu jornalismo crítico e responsável, também escorregou ao colocar em discussão “o Corinthians estar na liderança apenas por causa do apito”. Quando o apresentador abre a terceira edição do Bate-Bola, da ESPN (que começa às 20h20, após os jogos das 18h30), no domingo e pergunta aos debatedores, incluindo o comentarista de arbitragem Sálvio Espíndola, se eles acreditavam haver um esquema, o programa legitima uma teoria da conspiração. Uma pergunta retórica, porque evidentemente ninguém diria que há qualquer irregularidade sem provas. E este é o principal ponto da questão. Todos os comentaristas foram unânimes em dizer que não há esquema, mas por só trazer isso como um assunto relevante a ser discutido já alimenta o discurso de quem acredita que há algo de razoável nisso.
Essas discussões só agradam a extremistas. De um lado, há os que defendem a existência de um esquema “evidente”, que a mídia está tentando esconder (mesmo falando nisso todos os dias), acusando tudo e todos de esquema que favorece os times (quase sempre os times grandes de São Paulo e Rio de Janeiro que estão na ponta da tabela ou brigando contra o rebaixamento). De outro lado, também incita os “defensores” dos clubes favorecidos, que dizem que há uma “campanha” para acusar o seu clube, quando há erros “desde sempre”. O torcedor que quer discutir o futebol, que está no meio desses dois radicais, acaba sendo empurrado para um dos lados. Simplesmente porque os programas parecem cada vez atendê-lo menos. Como a discussão política, se empurra para que o leitor ou telespectador tome um dos lados da discussão.
Claro, comentar os erros de arbitragem é obrigação. Os apitadores estão errando de forma constante e alterado o resultado de jogos. Isso tem de ser analisado. Fingir que isso não ocorre também é um desserviço e fugir dos acontecimentos, como apontou Mauro Cezar Pereira, da própria ESPN, em seu blog. Mas publicar algo além das constatações é perigoso demais (o Antero Greco e o Menon também falaram disso). Todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Se há suspeitas de corrupção na arbitragem, então é hora de colocar nossas equipes na rua para mapear influência e o tipo de moeda que compra essa influência. Há um árbitro, ou alguém ligado a árbitro ou comissões de arbitragem, que diga que foi orientado a agir em favor de um time ou de outro? Há alguma denúncia como houve no caso Edílson Pereira de Carvalho, em 2005?
Entender por que os programas fazem isso não é difícil. Polêmicas geram audiência, cliques, ouvintes, leitores. Praticamente todos os veículos vivem de audiência, seja ela na TV, no rádio ou em visitas ao site (como nós da Trivela). É isso que os sites vendem aos anunciantes, que pagam pela exposição gerada. Um modelo, aliás, que está em crise, com os anunciantes pagando cada vez menos para os veículos (um outro assunto que gera uma conversa grande, neste texto). No final das contas, é bem simples: só tem tanta discussão sobre teorias da conspiração porque a gente dá atenção para elas.
É preciso que todos os veículos de imprensa façam essa reflexão.
PS: Não temos nada contra nenhuma das pessoas que citamos nesse texto. Admiramos o carisma e a capacidade de comunicação de Milton Neves, a coragem da ESPN, que faz um jornalismo crítico e que tenta ir fundo nas questões. Temos amigos em vários veículos de comunicação. Justamente por saber que eles são tão bons é que esperamos muito mais deles. Afinal, nós assistimos o que eles fazem – e queremos continuar assistindo.
Foto do post: Jorge Rodrigues/Trivela



