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Por que a mala branca também não é considerada suborno?

Junto com as músicas natalinas da Simone, as chuvas de verão e o engarrafamento das estradas, em todo final de ano no Brasil renasce das cinzas a discussão sobre o aditivo financeiro oferecido por terceiros aos clubes que não têm mais pretensões no Campeonato Brasileiro, mas estão envolvidos em partidas que podem influenciar título, vaga na Libertadores ou o rebaixamento: a mala branca (aliás, por que a branca é a boa e a preta é a ruim?). Jogadores e dirigentes falam abertamente sobre ela porque ninguém costuma considerá-la ilegal e, muitas vezes, nem imoral, embora também seja uma forma de suborno.

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No futebol brasileiro, essa história começou por volta de 2003, com o primeiro Brasileirão de pontos corridos, quando muitos clubes se viram na situação de chegar à última rodada sem nada de importante para fazer. Mesmo no torneio anterior, o Internacional já havia oferecido aos jogadores do Vitória um incentivo financeiro para vencer o Palmeiras na última rodada, como contou o atacante André Neles, o carismático André Balada, em entrevista à Gazeta Esportiva. Durante os dois anos em que a CBF marcou clássicos estaduais para as rodadas decisivas, a mala branca tirou férias. Ninguém precisava de incentivo para vencer o rival. Por algum motivo ainda obscuro, essa prática foi abandonada e o assunto voltou à tona.

Especialmente na reta final da atual edição do campeonato nacional quando o STJD encontrou mais uma oportunidade para aparecer na televisão. Em uma entrevista coletiva, Fernando Prass admitiu que já havia recebido dinheiro de outro clube para vencer uma partida. Foi indiciado no artigo 238 do CBJD, que fala em “receber ou solicitar vantagem indevida em razão de cargo ou função (…) para praticar, omitir ou retardar ato de ofício, ou, ainda, para fazê-lo contra disposição expressa de norma desportiva”. Poderia ter pegado até dois anos de suspensão, mas foi absolvido por unanimidade.

O caso do goleiro do Palmeiras chamou a atenção porque ninguém nunca havia corrido o risco de ser punido por causa da mala branca, apesar de dezenas de declarações escancarando a sua inevitabilidade todo final de campeonato. E mesmo que tenha sido apenas mais um exercício ególatra do tribunal desportivo, levantou uma questão importante: por que mesmo ninguém nunca correu o risco de ser punido por causa da mala branca?

O auditor relator do julgamento Ivaney Cayres afirmou em seu voto que “não tinha amparo legal para dizer se ele recebeu ou não de outro clube” e acrescentou: “Se ele falar ‘um dia eu fumei droga’, não posso prendê-lo”. Ou seja, o STJD interpretou que a mala branca corresponde a uma infração do código, como o uso de droga uma violação da lei. Apenas não conseguiu provar. E a investigação frágil e débil ressoa com o discurso dos jogadores: qual o problema de receber dinheiro de outro clube para vencer o jogo? O problema não seria ser pago para perder?

Podemos discutir qual suborno é pior, mas os dois podem ser caracterizados assim. Cria uma distorção financeira e favorece ainda mais os times ricos, como se as verbas de patrocínio, a imensa torcida e os direitos de televisão não fossem suficientes. No caso específico da última rodada do Campeonato Brasileiro deste ano, o Palmeiras, embora quase quebrado, teve um faturamento quase três vezes maior que o do Vitória em 2013. Se quisesse, teria muito mais condições de enviar um envelope de dinheiro para o Santos vencer o adversário direto na luta contra o rebaixamento do que os baianos para o Atlético Paranaense levar a sério a partida contra os paulistas. Sem contar que, mantendo o exemplo, o Santos não tem pretensões no torneio já há algumas rodadas. Por que apenas o Vitória deveria enfrentá-lo energizado pelo poder financeiro alviverde?

Não é um incentivo a “fazer a coisa certa”. É, ao contrário, um incentivo a não fazer a coisa certa. De propósito ou inconscientemente, condiciona os jogadores a levarem a sério uma partida que não pode modificar suas condições no campeonat”, o que deveria ser a obrigação natural de qualquer profissional, apenas se houver grana extra envolvida, Se não houver, tanto faz. Fazendo um paralelo com a política, cobrar contribuições de campanha ou mesmo favores de lobistas para votar a favor de uma lei com a qual você concorda apenas obriga o outro lado a desembolsar dinheiro para tentar barrá-la. O mérito da lei torna-se irrelevante, e o que passa a importar é o poder financeiro das empresas e dos grupos de interesse. Não queremos que isso aconteça com o futebol.

Bônus, participação em lucros ou opções de ação são instrumentos corriqueiros no mundo corporativo para motivar os funcionários. São, porém, oferecidos pela própria empresa, e o valor deles corresponde ao tamanho do bolso e do faturamento dela. Não há nenhum problema com os bichos. Mas não existe razão para a distinção de cores entre a mala de dinheiro, proveniente de terceiros, que incentiva a vitória e a que exige a derrota. São duas interferências indevidas no resultado da partida que deveriam ser coibidas. Senão por meios legais, mas pela consciência de todos os envolvidos.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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