Brasil

Poço sem fundo?

Imagine um presidente que assume, faz as contratações como deveria fazer, faz um malabarismo para repatriar um ídolo da torcida e reforça o time. Imagine ainda que em um ano e meio de cargo, o clube que ele dirige teve três treinadores e um interino, vive crise política, financeira e dá sinais de não ter capacidade para sair dessa situação. Essa é a gestão de Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do Palmeiras. O economista, renomado intelectual, criou a expectativa – neste colunista, inclusive – de que um novo tipo de dirigente viria. Sem aquele estereótipo de incompetência que já conhecemos tão bem. Um dos poucos reticentes era Caio Maia, que aqui na Trivela já achava que isso não daria certo.

Esse cenário de terra arrasada é o que o Palmeiras está vivendo atualmente. Ficando apenas no que nos interessa, futebol, a diretoria até fez o que devia em termos de contratação: manteve alguns dos principais nomes do time e ainda trouxe alguns nomes. Mas um problema com um técnico consagrado – e estrela, é bom dizer -, Vanderlei Luxemburgo, resultou em demissão sumária do comandante. Isso porque, segundo a diretoria e o presidente alviverde disseram que foi um ato de insubordinação que não poderia ser aceito.

Saiu Luxemburgo, ficou Jorginho. O time engrenou, parecia bem e o time fez algo que não pode ser condenado, em princípio: Muricy Ramalho assumiu como técnico, por uma quantia quase tão alta quanto o antecessor. O time ficou bem, virou líder da competição – Jorginho entregou o cargo à Muricy empatado com o primeiro colocado e apenas em segundo pelos critérios de desempate – e caminhava a passos largos para o título. Eis que o time degringolou, começou a cair de rendimento na fase final e de principal candidato ao título, ficou fora até dos quatro primeiros, que daria vaga ao menos à Libertadores.

Apesar da vontade de alguns diretores, Muricy foi mantido. Não por muito tempo. Sem dinheiro para trazer reforços de qualidade, o time ficou com um elenco limitado em opções, com uma pressão já vindo do ano anterior. Mais: perdeu Vágner Love, contratação estelar do meio da temporada passada, por agressão de torcedores ao atacante. Pior ainda: se ele não rendia nada no Palmeiras, passou a render bem no Flamengo, time que conseguiu sua contratação.

Maus resultados, futebol que irritou o torcedor e pressão cada vez maior da torcida. Junte a isso uma diretoria que não se encontra, uma oposição mais preocupada em tumultuar do que outra coisa e a falta da capacidade de todos para gerir todos esses problemas. Resultado: demissão de Muricy ainda no Paulista. Solução? Antonio Carlos Zago, recém técnico do São Caetano, que como maiores feitos na carreira evitou o rebaixamento do clube do ABC e goleou o Palmeiras no Paulista dentro do Palestra Itália.

Os problemas persistiram. O time não se classificou no Paulista e veio a pressão maior. Na Copa do Brasil, situação complicada contra o Atlético-GO, com Diego Souza sendo substituído e respondendo aos xingamentos da torcida com gestos obcenos. Começava mais uma crise, que colocou em conflito técnico, diretoria e parceiro – no caso, a Traffic. A diretoria resolveu afastar o jogador, o técnico disse que a decisão era da diretoria e o parceiro, dono dos chamados direitos federativos de Diego Souza, ficou insatisfeito, em palavras do presidente da companhia, J. Havilla, que afirmou que o afastamento era injusto, só porque o jogador era um dos principais nomes do elenco.

Veio então o episódio mais recente: uma suposta discussão entre Zago e Robert por atraso do atacante e outros jogadores, que foram liberados para a noite carioca depois do jogo contra o Vasco, mas se atrasaram. Especulou-se que chegaram às vias de fato, o que foi negado por todos os envolvidos. Ainda assim, a diretoria alviverde considerou o episódio grave e rescindiu o contrato do atacante, além de ter uma “saída consensual” do técnico – que, por sua vez, disse que pediu demissão.

Estava claro que Antonio Carlos Zago não era o técnico para o Palmeiras, mas a forma como a demissão foi feita abre a suspeita de que o episódio foi apenas o estopim, uma boa desculpa para trocar o treinador. E Robert, que estava emprestado ao clube, não é nenhum grande atacante, mas em um elenco com tão poucos jogadores da posição, se firmou como titular da equipe.

O time terá que buscar um novo técnico no mercado. O sonho é Luiz Felipe Scolari, o Felipão, com muita história no clube – a maior conquista palmeirense na história foi dele, a Libertadores de 1999. A contratação, porém, parece improvável. Felipão é o técnico mais bem pago do mundo, e mesmo que resolva ganhar menos – o que deve acontecer –, o salário ainda seria alto para o clube – que arcou com pesada multa de Muricy.

A possibilidade mais real é Tite, que já teve passagem pelo clube e apesar da saída conturbada, fez bom trabalho no clube. Ao Palmeiras, porém, precisa se preparar para o resto da temporada. Não é um time para cair, mas se não conseguir arrumar a cozinha logo, será tarde para qualquer ambição que vá além do meio da tabela.

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Equipe Trivela

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