Perigosamente preciso

A estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2010 foi como se previa: difícil. Não porque o adversário, Coreia do Norte, exigisse isso. A questão era que a Seleção Brasileira não tinha mostrado futebol capaz de convencer e nada indicava que isso iria mudar. Houve pontos positivos que merecem ser destacados, mas o resultado magro pode ter consequências para a sequência da Copa.
Como se esperava, a Coreia do Norte tratou de armar uma defesa forte, no mesmo estilo que o Brasil já tinha visto nos últimos três anos – contra Bolívia e Colômbia, notoriamente, nas Eliminatórias. O problema foi o mesmo e continuou sem solução. Um Brasil sem criatividade, que não consegue entrar em uma defesa que tem nove jogadores.
A Coreia do Norte armou uma linha de cinco jogadores atrás, com três no meio-campo protegendo a defesa, um meia mais avançado e um atacante. E como bem destacou Dunga após a partida, a movimentação defensiva norte-coreana foi quase perfeita. A recomposição das posições era rápida e não dava espaços, especialmente para Kaká, muito bem marcado.
Parte do problema está aí. A criatividade brasileira está, em grande parte, vinculada a Kaká. O jogador não reúne condições física ideias. Pior do que isso é que também é visível sua má forma técnica. Lento, o camisa 10 da Seleção não conseguiu ter a movimentação e a rapidez necessária para sair da marcação no primeiro tempo. Cada vez que o Brasil tocava a bola para tentar ir ao campo de ataque, o meia estava com dois jogadores norte-coreanos o cercando.
Sua falta de ritmo de jogo o impediu de se movimentar para tentar desviar da marcação. A má fase técnica o fez dar passes errados, como aconteceu no primeiro tempo. No segundo, a atuação do meio-campista melhorou. Com mais movimentação, se desmarcou mais vezes, recebeu mais passes e pode tentar mais jogadas – ainda que não tenham resultado em nenhum lance de perigo.
No mesmo setor, mais atrás, Felipe Melo fez uma apresentação muito boa. Não teve trabalho defensivamente, é verdade, mas parece ter mudado sua postura na saída de bola, tentou passes mais simples e conseguiu dar a velocidade que faltava. Deu alguns bons passes que ajudaram o time, especialmente no segundo tempo.
A segunda etapa teve uma melhora do time, que conseguiu um gol de maneira fortuita, em um lance do excelente Maicon. A partir daí, o jogo mudou. A linha de cinco defensores virou três, com dois mais adiantados. O time norte-coreano saiu mais para o jogo e permitiu que o segundo gol saísse, em uma assistência magnífica de Robinho para Elano.
Robinho, por sinal, foi o melhor jogador brasileiro em campo. Desde o início do jogo, tentou jogadas pela esquerda, buscou o jogo na intermediária. Habilidoso, rápido e com excelente visão de jogo, trabalhou como o ponta esquerda na linha de três do 4-2-3-1 de Dunga. No segundo tempo, além do decisivo passe para Elano, foi para o centro dessa mesma linha de três quando Kaká saiu de campo, substituído por Nilmar, que passou a fazer o papel que era de Robinho na esquerda. Mostrou que vontade para ser destaque da Copa não falta.
O gol tomado pelo Brasil expôs um velho problema: as arrancadas que Lúcio deu quando o time vencia por 2 a 0, inúteis para o time ofensivamente, expuseram o time defensivamente. Juan, porém, foi quase perfeito. Fez desarmes usando técnica, se antecipou e aliviou os lances.
Luís Fabiano, peça importante do ataque, se mostrou muito afobado, cometeu faltas desnecessárias, e só conseguiu assustar em um lance no jogo. É verdade que não teve muitas oportunidades, mas é preciso ter mais calma para um jogador dessa posição.
Michel Bastos ainda é um problema na marcação, mas o jogo de hoje não exigiu desempenho defensivo efetivo do camisa 6. Ofensivamente, ele ganhou confiança, o que é importante para a sequência da Copa do Mundo.
Só para não dizer que não falei das flores, Elano foi um ótimo coadjuvante, como ele afirmou essa semana que gosta de ser. Foi um jogador regular, fez algunss passes e acabou marcado um gol importantíssimo. Sua movimentação foi boa e é importante nas bolas paradas.
O 2 a 1 não traz muita vantagem ao Brasil. Se Portugal e Costam do Marfim venceram a coreia do Norte com tranquilidade, o Brasil pode até acabar em segundo lugar com um empate contra um deles – o que poderia significar enfrentar a Espanha nas oitavas de final. Em outras palavras, significa que o Brasil terá que vencer a Costa do Marfim para não correr riscos. E já sabemos que o time não terá mudanças.
A eficiência do time de Dunga deve levar o time as oitavas de final. Mas jogar como nesse jogo contra adversários de mais força como Costa do Marfim e Portugal pode levar a eficiência a ir por água abaixo por algo que a Seleção peca: o talento.



