Brasil

Pedrinho ofereceu um relato sensível e importante de sua luta contra a depressão durante a carreira

Ao longo dos últimos meses, o ex-meia Pedrinho se tornou a melhor adição da televisão brasileira entre os comentaristas esportivos. O antigo ídolo do Vasco apresenta sua visão do campo sem precisar apelar ao “boleirês”, assim como oferece uma enorme sensibilidade em posicionamentos que incluem experiências de sua carreira. E, nesta terça-feira, o veterano realizou uma live nas redes sociais sobre depressão. Trouxe um relato pessoal que ajuda a valorizar ainda mais sua trajetória, bem como auxilia outras pessoas que enfrentam a doença.

Pedrinho, obviamente, não conteve a emoção ao longo da conversa. O ex-jogador relembrou a sequência de lesões que atrapalhou a sua carreira e como isso influenciava sua própria postura para seguir em frente. O apelido de ‘Podrinho’ incomodava. Assim, sobretudo nos tempos de Palmeiras, o meia escondia outros problemas menores para não ser julgado e via lesões musculares se agravarem por sua insistência em seguir em campo. Tudo isso afetava o seu emocional e o meia avaliou a depressão como um desafio ainda maior a superar.

“Eu jogava no Palmeiras, tinha um dos maiores salários, recebia em dia, morava em hotel, em cobertura. Eu era chamado de rei e estava completamente no fundo do poço. A conclusão que a gente chega é que dinheiro, fama e sucesso estão bem longe de ser sinônimos de felicidade”, apontou o comentarista do Sportv. “A depressão é muito grave, tomou minha cabeça. Tirou minha saúde, minha paz, tirou a minha vida. Não tinha mais vontade de viver, não tinha prazer em nada. Para você que tem depressão e para você que não tem, trate com carinho. Por trás de um sorriso e de um bom dia, tem muita coisa por trás. A gente não sabe o que está se passando”.

Segundo Pedrinho, durante sua carreira, ele conviveu com um problema no dedão do pé. Preferia não cuidar e permanecer com dor do que enfrentar outra vez as críticas da imprensa, que abalavam seu emocional. O jogador pedia a um médico do Palmeiras, que era seu amigo, para realizar infiltrações no local antes dos jogos e novamente no intervalo. Assim, os analgésicos o aliviavam momentaneamente, embora agravassem o problema.

“Quando acabava o primeiro tempo, meu dedo já estava latejando e infiltrava de novo. Foi assim a minha carreira inteira. Machucava. Sabe por quê? Porque eu não tinha mais o direito de ter uma dor muscular a mais que fosse. De muitas lesões que tive, foi porque escondi as pequenas por um dia de treinamento poupado, um jogo poupado. Eu jogava em cima de dor, tinha lesão grave e ficava dois meses parado. Para algumas pessoas, somos super-heróis. Eu pensava que o cara ganha dinheiro, tá tristinho? Tá com ‘depressãozinha’?”, declarou.

Desde os tempos de Vasco, foram cinco cirurgias apenas no joelho. Pedrinho contou que, no auge da depressão, se trancava no banheiro do hotel, enquanto precisava se cuidar aos treinos e jogos. Chegou a pedir ao Palmeiras que não recebesse, por causa das seguidas lesões. Segundo ele, três anos de sua vida “foram perdidos” enquanto lidava com a depressão e tentava conciliar sua recuperação nos gramados.

“Se perguntarem: ‘O que você prefere, ter cinco lesões no joelho ou depressão?’. Prefiro ter as lesões, porque a depressão quase tirou a minha vida. Há pessoas que sofreram comigo, sofreram por mim e eu muitas vezes fiz essas pessoas sofrerem mais do que eu, por também não entenderem o que é a depressão”, relatou. “A gente se prende a pequenos problemas da vida. Estou com um pouquinho de vergonha. Sei do que essa doença é capaz. E eu quero ajudar as pessoas. É a primeira vez que estou falando muito fortemente, mas acho necessário”.

Com apoio da família e da religião, Pedrinho exaltou sua recuperação e a capacidade de valorizar os pequenos momentos. O meia demonstrou sua preocupação com as consequências da crise atual à saúde mental das pessoas e se prontificou a ajudar através de suas vivências. Encarar a gravidade da depressão é o primeiro passo, com a necessidade de se procurar auxílio: “Hoje, 24 horas para mim é pouco. Quero jogar futevôlei, estudar, ver jogo. A vida é muito boa, não é dinheiro. A vida é muito além de dinheiro. A gente associa felicidade a dinheiro, mas é mentira, conheço milhares de milionários infelizes. Conheço milhares de pobres felizes da vida”.

Para quem quiser ler uma transcrição mais ampla, . Fica expresso o exemplo de Pedrinho e faz a gente valorizar ainda mais sua trajetória, além da sensibilidade em seus comentários.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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