Brasil

Paulistão na UTI

Tarde de domingo.  Domingo de páscoa, não um qualquer. Família reunida, todo mundo conversando, criançada se deliciando com os ovos de chocolate que ganharam. Na TV, jogo do Campeonato Paulista. A duas rodadas do fim, os quatro times grandes do estado já estão classificados. Resta apenas saber em que posições. O jogo do domingo vai mudar muito pouco. Nem aquele o irmão corinthiano, nem o cunhado palmeirense parecem tão preocupados. Ambos estão mais concentrados na cerveja do que no jogo.

Não que não gostem de futebol. Ambos se provocaram, cada um chamando as qualidades do seu time. Um dizendo que o seu time irá eliminar o do outro. “Como no ano passado”, diz o corinthiano. “Vocês cairão nos pênaltis. Só para sofrerem mais”, continuou. O palmeirense não deixou para trás. “Pênaltis, aliás, é um tipo de disputa que vocês gostam, né? Lembro da Libertadores”, alfinetou o palmeirense.

Enquanto isso, o jogo na TV já está 2 a 1 para o Guarani contra o Palmeiras. Nenhum deles presta muita atenção. Conversam com outras pessoas, bebem mais uma cerveja. Trocam umas brincadeiras sobre os times, provocação de rivais, mas logo a conversa muda. Falam de trabalho, da casa que um deles quer comprar. Do casamento de um primo na família no fim do mês.

Só se viram para a TV novamente quando sai outro gol. “Esse seu time não presta nem para ganhar do Guarani”, provoca o corinthiano. “Estaremos esperando por vocês na fase final”, responde. E retomam a conversa, desinteressados pelo jogo. Só voltam a dar atenção ao futebol quando o narrador anuncia que saiu gol do Corinthians. “Goleada, hein?”, provoca o palmeirense. “Devo lembrar quem é o campeão brasileiro?”, responde.

Depois de mais um pouco de conversa, a televisão já mostra a classificação dos times. “No brasileiro é que a gente vai ver quem é que tem garrafa vazia para vender”, diz o corinthiano. “É, pior que é verdade. Meu filho diz que nunca viu o nosso time ser campeão. E ele tinha 11 anos quando o Palmeiras ganhou o Paulista. Fica repetindo que ninguém liga”. “Se a gente tá entediado com esse campeonato, imagine para a molecada que já nasceu com ele não valendo muito? Não querem saber mesmo”.

Se despedem, combinam algo para o casamento do primo. Se despedem. E o Paulistão segue cada vez menos condizente com o aumentativo em seu nome. Só combina mesmo com as intermináveis 19 rodadas da fase de classificação. Inúteis. Enchem o calendário. Tudo para classificar os quatro grandes, ainda que não nas quatro primeiras posições.

A audiência vem caindo, como mostra a Máquina do Esporte. No dia 28 de março, a partida entre Paulista e Palmeiras teve apenas 15 pontos de audiência (em 2011, a pior marca foi de 17 pontos, e só aconteceu uma vez). Outros dois jogos do Palmeiras marcaram 12 pontos de audiência no domingo e o pior número da temporada foi no sábado de carnaval com o líder de audiência, Corinthians, que marcou só 11,5 pontos de média.

O título do Campeonato Paulista serve cada vez mais para reafirmar grandeza de times decantes, como já acontece com a inútil Copa da Liga na Inglaterra. O torneio tem importância próxima do zero, mas serviu para o Liverpool voltar a levantar uma taça, em época que nem para a Liga dos Campeões o time vai. O estadual pode ser melhor do que isso. Mais curto e melhor.

Os clubes já mostram certo desinteresse com o Paulista quando jogam a Libertadores. Santos e Corinthians entraram em campo com times mistos ou completamente reservas algumas vezes no torneio. E é ela quem paga a conta que torna o estadual tão lucrativo. Se esse dinheiro parar de pingar, corremos o risco de destruir o campeonato, ao invés de adequá-lo ao que ele deve ser, um torneio de tiro curto, com bem menos datas.

Estamos assistindo à morte lenta e trágica dos estaduais. Não sou a favor de destruí-los. Mas é preciso adequar, antes que ele se torne apenas mais um torneio e que a TV não o faça valer como antes. Porque aí não terá mais jeito.

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Equipe Trivela

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