BrasilEliminatórias da Copa

Para uma recaída no Recife

De propósito ou não, Mano Menezes conseguiu o que queria. Após a apagada atuação de sua equipe contra a África do Sul, viu o foco das discussões fugir do desempenho técnico e tático apresentado para o comportamento da torcida presente no Morumbi. Para que discutir se Neymar abusou do individualismo, se podemos recriminar aqueles que o rotularam de pipoqueiro? Oscar e Lucas estiveram sumidos em campo, mas quase ninguém fala, porque, ao contrário deles, as vaias não desapareceram desde o começo da partida. Falta criatividade ao time, mas até parece que a culpa é do impaciente torcedor paulistano, que, em parte considerável, foi mesmo ao estádio com a clara intenção de pegar no pé. O pior veio depois: a discussão sobre qual cidade recebe melhor ou pior a seleção. Como se fosse possível medir algo assim. Ou como se valesse a pena perder tempo fazendo isso.

Para piorar, Mano ainda diz na coletiva que a imprensa precisa parar de torcer contra e criar um ambiente melhor para a seleção. O erro já começa na generalização, já que alguns jornalistas só faltam oferecer uma água ou um cafézinho enquanto entrevistam as paparicadas estrelas da seleção brasileira. Mas se agrava mesmo pela surrada ideia de que a imprensa deve promover um evento, quando a sua função é reportar fatos e analisar suas implicações. OK, há de se dizer que alguns confundem isso com torcer contra e se comportam da mesma forma que as arquibancadas do Morumbi fizeram, mas eles também estão errados. O que importa é que ninguém é obrigado a torcer a favor do Brasil no futebol. Não importa se nasceu aqui, ou se foi ao estádio. Se é imbecil ir ao estádio já com a intenção de torcer contra, nesse caso, o imbecil tem o seu direito de ser… imbecil.

O Brasil chega ao Recife para enfrentar a China em uma situação parecida com a que consagrou a ideia de que “Pernambuco dá sorte à seleção brasileira”. De fato, a recepção à equipe na terra do frevo costuma ser das mais acolhedoras. Em 1993, nas eliminatórias para a Copa do Mundo do ano seguinte, o Brasil desencantou no mesmo Arruda onde jogará logo mais, ao golear a Bolívia por 6 a 0. Vínhamos de uma primeira perna terrível no torneio, onde fizemos todos os jogos fora de casa e só vencemos um, com mais dois empates e uma derrota, a primeira da canarinho em toda a história das eliminatórias, justamente contra os bolivianos. Ao jogar a primeira partida no Brasil, contra o Equador, no Morumbi, as críticas foram pesadas, inclusive depois da vitória, conquistada de forma pouco convincente.

Alheia a isso, a torcida pernambucana colocou a seleção brasileira no colo e fez muito cafuné. Desde que desembarcaram em Recife, os jogadores foram tratados com carinho e confiança, sentimentos que foram retribuídos com a goleada diante de um adversário empolgado, mas bem mais ou menos, que fazia uso da altitude de La Paz e da melhor geração de sua história para nos acompanhar até o mundial dos Estados Unidos. No dia do jogo, o Mundão do Arruda estava superpovoado, não cabia mais ninguém nem nas escadas que davam acesso às arquibancadas superiores. Pode-se dizer que se trata do equivalente recifense moderno ao que a final da Copa de 50 é para o carioca mais antigo: todo mundo diz que estava lá, até mesmo quem não estava.

No ano seguinte, a seleção voltou ao Arruda para um amistoso de preparação para a Copa, contra a Argentina. Novamente subiu ao gramado de mãos dadas, em gesto que teve início no jogo histórico contra a Bolívia, e que se repetiria durante toda a campanha do tetracampeonato mundial. Romário, o herói da classificação diante do Uruguai, outra vez ficou de fora, mas a partida ficaria marcada pela estreia de Ronaldo Nazário com a amarelinha. O atacante entrou no segundo tempo, sem que nós soubéssemos que ali nascia uma das carreira mais vitoriosas com aquela camisa. O mais bonito reconhecimento do grupo ao empurrãozinho dado pela torcida pernambucana viria meses depois: a delegação desembarcou com a taça primeiro no Recife, para só depois seguir para Brasília e Rio de Janeiro. Com direito a beijo no solo do anfitrião Ricardo Rocha e um cortejo pelas ruas só comparado ao da visita do papa João Paulo II, 14 anos antes.

Retorno discreto

Desde então, a seleção voltou duas vezes à cidade. A euforia não se repetiu. Para o jogo de hoje à noite, a procura de ingressos até o sábado era bem fraca. Natural, já que a seleção não passa por boa fase e uma partida marcada para as 22 horas de uma segunda-feira parece brincadeira de mau gosto com quem trabalha no dia seguinte. Os clarões devem ser inevitáveis, mas o público talvez nem seja tão fraco quanto se espera. Fraquíssimo é o adversário: a China não serve como teste, no máximo lançará uma cortina de fumaça, dando mais tempo a Mano Menezes para mostrar serviço. A tendência é que o Brasil goleie, a torcida faça uma bela festa e o pernambuco, orgulhoso, bata no peito para se anunciar o melhor torcedor da seleção. Alguns atribuirão ao carinho do público a vitória. E a discussão sobre as vaias em São Paulo voltará a soterrar, por algum tempo, as preocupações mais urgentes com um time que tem menos de dois anos para entrar nos eixos.

Mas se por acaso nada disso acontecer, o Brasil jogar mal e emperrar contra os chineses, pode apostar que as vaias virão. Demorarão mais a chegar e talvez sejam menos efusivas, mas serão bastante naturais. O torcedor sempre tem todo o direito de se manifestar, desde que não faça uso de violência. Se demonstrar apoio incondicional antes de perder a paciência, quem pode recriminá-lo? O que pode se discutir é se não esperamos algo que a seleção brasileira não tem mais bola para dar: espetáculo. Se tratarmos esta equipe como o que ela é de verdade: pouco rodada e com limitações evidentes, nossa consideração por ela pode aumentar, especialmente se notarmos mais esforço por parte dos jogadores. Mas, para isso, a própria seleção brasileira tem de admitir, em voz alta: no momento, não somos mais aqueles. Seria o primeiro passo para voltarmos a ser.

Despedida

O Brasil vai passar um bom tempo sem jogar no Recife. Não me refiro ao fato da tabela da Copa das Confederações e da Copa do Mundo impedir que a seleção jogue por essas bandas, mas sim ao fato da Arena Pernambuco, que acelera sua construção para não ficar de fora do primeiro torneio, ficar em São Lourenço da Mata, não em Recife. Sim, é um município da região metropolitana, mas é outra cidade. Muitos recifenses só podem dizer que passaram por lá quando pegaram estrada para outro lugar. Se você acha que é preciosismo meu, vá lá dizer a um olindense de raiz que ele mora no Recife. Ouvirá poucas e boas, entre um acorde de frevo e outro, e sairá fugido, ladeira abaixo.

A construção da nova Arena marca uma era de mudanças para o futebol pernambucano. O primeiro a senti-las será o Náutico, que assinou um acordo para mandar seus jogos no novo palco. Financeiramente, parece uma boa ideia, especialmente se a disputada área dos Aflitos for vendida para a indústria imobiliária, um assunto ainda muito sensível para torcedores e sócios do clube. Esportivamente, parece péssimo negócio. No Brasileiro de 2012, o Náutico tem dependido do mando de campo para assegurar sua boa campanha. O seu caldeirão assusta os times de fora, por mais que nem todos admitam isso. Jogar em um estádio mais amplo e que talvez não lote com frequência pode ser fatal para um clube que tem em sua casa a maior arma.

Quem também mudará de residência é o Sport. Deverá mandar jogos na Arena Pernambuco enquanto a sua própria arena, que substituirá a Ilha do Retiro, estiver sendo construída. Talvez este novo estádio é quem traga a seleção de volta ao Recife propriamente dito. Ou, um dia, a Arena Coral, o projeto do Santa Cruz para um Arruda modernizado, sonho antigo e de várias versões, que pode ganhar na inevitável comparação com os brinquedinhos novos dos grandes rivais um empurrãozinho para sair do papel. Embora o que falte mesmo é reunir condições financeiras para tal, ainda mais com o clube ainda longe de um retorno à elite. Só assim, o jogo de hoje à noite não será de despedida para o Arruda, que servirá como palco para a seleção pela décima vez. Se o seu “até mais” é reticente, fica a certeza de ter deixado o nome marcado na história da equipe nacional mais vitoriosa do planeta.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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