Privilegiar a informação deveria ser o norte do trabalho de qualquer jornalista. O objetivo primordial, porém, se perde entre tantas transformações da profissão. Privilegiar a informação era exatamente o que fazia Orlando Duarte, com um zelo de raríssimos, sempre pronto a ampliar o conhecimento de quem acompanhava seu trabalho. Ao longo de sua carreira, o paulista de Rancharia se portou como um guardião da história dos esportes, sobretudo do futebol. Ao longo de sua vida, ‘O Eclético’ se dedicou a disseminar o saber, seja qual fosse o meio de comunicação. Orlando Duarte era uma enciclopédia do esporte brasileiro, um mestre que o jornalismo perde aos 88 anos, vítima da COVID-19. Seguirá vivo no coração de sua esposa, dos seis filhos, dos seis netos.  Seguirá vivo através das letras, das palavras, dos – das memórias que ajudou a preservar e que, em consequência, também preservarão sua memória como um profissional exemplar.

A quem gosta dos detalhes e das boas histórias, Orlando Duarte é um jornalista obrigatório. Sua carreira abarcou passagens por jornais e revistas, pelo rádio e pela televisão. Ao longo de seis décadas, o paulista foi um dos nomes mais célebres da cobertura esportiva no país – como repórter, como comentarista, como cronista, como narrador, como diretor. E quem pôde acompanhar seu trabalho se lembra como Orlando Duarte dominava qual fosse o meio, qual fosse a posição, para transmitir a informação em primeiro lugar. Por isso mesmo, o apelido de ‘Eclético’ se casava tão bem com sua desenvoltura e com sua capacidade enciclopédica – esta, primordialmente voltada ao futebol, mas também a serviço das demais modalidades esportivas.

“Como diz Roberto Carlos: ‘são tantas emoções’… Eu vivi a maior parte de minha vida nos campos esportivos. Eu amo o esporte. Fiz Olimpíada, Copa do Mundo, torneio de tênis, boxe, automobilismo, enfim, tudo, porque sempre vivi o esporte. Para mim, esporte é uma coisa linda, onde o homem ou a mulher coloca toda a sua força pelo resultado. Os dramas, os choros, as alegrias, tudo isso é muito bonito no esporte. O esporte é para sociólogos, psicólogos, jornalistas e para todo o mundo. Porque é sempre um desafio, você não sabe nunca o que pode acontecer numa partida de qualquer esporte”, declararia Orlando Duarte, em março de 2012, ao blog Literatura na Arquibancada, do jornalista André Ribeiro.

Apenas privilegiadíssimos podem dizer que cobriram 14 Copas do Mundo ou então 10 Olimpíadas. Apenas privilegiadíssimos se encaixam como comentaristas de futebol, de atletismo, de automobilismo ou de qualquer outra modalidade. Se Orlando Duarte tinha o privilégio de trabalhar com sua paixão aos esportes, não era somente privilégio o esforço de quem se aprofundava tanto sobre os assuntos para apresentar um completo domínio ao seu público – ainda que privilegiados fossem os muitos que podiam ler seus artigos e ouvir seus comentários. Privilegiada era a mente de quem pôde contribuir tanto ao esporte, disseminando interesse e apreço, virtudes que o jornalista carregava como marca em sua carreira.

E se o amor de Orlando Duarte ficaria diariamente impresso nos jornais, seria transmitido pelas ondas do rádio ou ainda acabaria exibido nas telas da TV, também ganharia forma mais duradoura através dos livros. O jornalista assinou 34 publicações, a maioria dedicada aos esportes, em especial ao futebol. Em suas páginas, se voltou a reconstituir a história e a compor enciclopédias, abordando desde as grandes competições aos principais clubes de São Paulo. Desta maneira, muitas de suas obras se tornaram fundamentais não apenas a outros colegas de profissão, mas também a quem aprecia ler sobre o assunto. É difícil imaginar uma mínima biblioteca com livros esportivos no Brasil que não conte com ao menos uma das edições assinadas pelo Eclético.

Tamanho apreço pelos esportes surgiu ainda na infância de Orlando Duarte. Filho de imigrantes portugueses, o garoto do interior gostava de bater sua bola, um de seus maiores lazeres ao lado do cinema. Dali foi um pulo até o interesse se ampliar rumo ao jornalismo esportivo. “Cidade pequena, poucas coisas para um garoto fazer. Naquela época nem havia chegado a televisão ao Brasil. Estudar, praticar esporte e ter criatividade para superar os momentos de nada por fazer. Precisávamos encher o tempo. Trabalhar no serviço de alto-falante e escrever para o Jornal da Terra fazia parte de minha atividade. Escrevia sobre esporte, sempre gostei. Falava sobre esporte, e foi aí que tudo começou”, contou Orlando, em entrevista ao Torcedores.com, em outubro de 2016.

Orlando Duarte chegou a trabalhar como jornalista ainda em Rancharia, através dos alto-falantes colocados no centro da cidade, que transmitiam as informações à população. Depois, seguiu a São Paulo e começou no futebol como produtor da Rádio América, abastecendo de notícias o departamento de esportes. De lá partiu ao jornalismo impresso, no semanário Mundo Esportivo. Costumava ficar à beira do campo e escrever as histórias a partir do que ouvia durante os jogos. Pelo periódico, o jovem de 18 anos cobriu sua primeira Copa do Mundo, presente nas partidas do Pacaembu durante o Mundial de 1950. Depois, passaria também por veículos como Equipe, Última Hora, Diário da Noite e O Tempo.

Orlando Duarte se tornou um nome mais conhecido no jornalismo por meio d’A Gazeta Esportiva, o jornal do ramo mais prestigiado de São Paulo. Torcedor da Portuguesa, Orlando pôde acompanhar de perto o auge do seu clube durante os anos 1950, como setorista. O conhecimento de Orlando Duarte, de qualquer maneira, logo transbordaria e ele se transformaria em um dos principais comentaristas das rádios paulistas. Em 1959, quando acompanhava uma excursão do São Paulo ao Peru, o repórter d’A Gazeta Esportiva assumiu eventualmente os microfones da Rádio Panamericana – a atual Jovem Pan. Agradou tanto que ficou e aquela se tornou a nova casa do Eclético. No início, Orlando ainda conciliava as transmissões com os relatos do jornal e até se aventurou como narrador, embora gostasse mesmo de ser comentarista.

“O trabalho de comentarista é mais desafiador. Primeiro, você precisa conhecer a fundo o esporte sobre o qual está falando, senão perde a atenção do ouvinte. Você tem de ir além do óbvio. Transmitir o que está acontecendo do lado tático, explicar o que está influenciando o lado tático, destacar o comportamento técnico de jogadores que não estão bem, sugerir o que pode ser alterado. E ir adiante, antecipando os desdobramentos: se o time fizer isso, vai ocorrer isso; se não fizer, vai ocorrer aquilo”, contaria o jornalista ao livro ‘Na mesma sintonia – O rádio na vida e na obra de Orlando Duarte’.

Orlando Duarte também se tornaria célebre pela cobertura do Santos, sobretudo no auge do esquadrão na década de 1960. O Eclético rodava o mundo acompanhando as excursões do Peixe e, assim, conheceu mais de 70 países. Foi admirado por sua capacidade profissional até mesmo por Pelé, que o escolheu para co-assinar sua autobiografia tempos depois. O talento de Orlando era tamanho que, designado para relatar n’A Gazeta a inauguração de Brasília, seria reconhecido por Juscelino Kubitschek e conseguiu palavras exclusivas do presidente sobre os planos esportivos à nova capital. Já em 1963, a confiabilidade de Orlando Duarte permitiu que ele se tornasse técnico de sua Portuguesa por um dia. Durante uma excursão à Alemanha Ocidental, Otto Glória não estava se sentindo bem e pediu para que o jornalista fizesse sua função à beira do campo. A Lusa empatou com o Ulm por 1 a 1.

Orlando Duarte trabalhou por quase 30 anos na Rádio Jovem Pan, além de ter passado pela Rádio Trianon. A função de comentarista também seria sua ponte à televisão. O Eclético apareceu na tela de algumas das maiores emissoras do país – incluindo Globo, Bandeirantes, SBT, Jovem Pan UHF (a atual Record) e Gazeta. Sua maior contribuição, todavia, aconteceu na TV Cultura. Orlando chegou a chefiar a implementação do departamento de esportes do canal paulista, liderando uma equipe histórica e norteando as transmissões esportivas a partir dos anos 1970. Além disso, a Cultura também teria muita força por seus programas voltados à memória esportiva, uma especialidade de seu diretor.

Às gerações mais jovens, Orlando Duarte talvez seja mais lembrado como um dos principais comentaristas do SBT nas últimas coberturas do canal em Copas do Mundo. O jornalista, inclusive, chegou a dividir a mesa ao lado de Telê Santana durante o tetracampeonato mundial em 1994. Naquele momento, o senhor na casa dos 60 anos era reconhecido como um analista sério e criterioso, que agregava conhecimento durante as transmissões. Também se via cada vez mais dedicado ao lançamento de seus livros. Durante o Mundial dos Estados Unidos, inclusive, protagonizou uma noite de autógrafos em Nova York para ‘Todas as Copas do Mundo’, livro que se tornou referência sobre o assunto.

Orlando Duarte também teve uma passagem significativa pela Band na virada do século. A partir deste momento, se tornaria menos frequente nas transmissões esportivas e sua contribuição à literatura ficaria ainda mais evidente. O veterano manteria sua coluna em jornais e publicaria seus últimos livros já depois de completar 80 anos. Contudo, os problemas de saúde se acumularam na última década (entre doenças cardíacas, aneurismas e fraturas) e as dificuldades para escrever se tornaram maiores. Ainda assim, a esposa Conceição Duarte alimentava as redes sociais no nome de Orlando e publicava seus comentários online.

Em 2018, Orlando Duarte foi diagnosticado com Mal de Alzheimer. “Às vezes ele pensa estar dentro da TV ou da redação, diz que trabalhou muito, que fez tal , acorda assustado dizendo que vai pra Pan (a rádio Jovem Pan). Ele faz grandes narrações durante a noite também. Isso está mais forte de um ano para cá, embora antes já mostrasse. Eu estou digerindo, mas ele segue muito divertido, tira sarro, é irônico, essas coisas que sempre existirão nele. Tem seus momentos. Mas é um leão por dia, temos que driblar”, contaria Conceição Duarte, em 2019, ao UOL Esporte. Em emocionante reportagem da ESPN Brasil, a esposa faria inclusive um pedido de ajuda.

Orlando Duarte integrava o grupo de risco à COVID-19 e, durante exames médicos, contraiu a doença. O vírus afetou sua saúde já debilitada e, durante as últimas três semanas, o jornalista permaneceu internado em estado crítico. Depois de muito lutar, faleceu nesta terça. Sua sabedoria espalhada de tantas formas prevalece, assim como também ficam os ensinamentos de um profissional que tanto prezou pelo maior tesouro do jornalismo: a informação. Apesar das mudanças no ofício, muita gente continuará trabalhando para preservar este legado de Orlando Duarte.