Brasil

Para pôr uma mão na taça

O Campeonato Brasileiro de 2008 é marcado por seu equilíbrio. Desde a 28ª rodada, como fora alertado por esta coluna, formou-se um grupo de cinco equipes que brigam cabeça a cabeça pelo título. São Paulo e Flamengo superaram momentos de hesitação e se aproximaram de Grêmio, Cruzeiro e Palmeiras. Botafogo e Internacional mostraram problemas e caíram, com Coritiba e Vitória, pelo caminho.

Ainda assim, dentro desse equilíbrio, o Grêmio não vê ninguém com mais pontos que si mesmo desde a 14ª rodada. É, naturalmente, o maior candidato ao título, e tem três casas à frente do São Paulo. Contra o Cruzeiro, nesta quarta-feira, os gremistas podem, em uma combinação hipotética – mas muito possível -, avançar em direção à taça a seis rodadas do fim.

Se o Cruzeiro falha nos jogos decisivos, inclusive dentro de casa, o Grêmio pode acreditar em trazer três pontos do Mineirão. Lá, onde foi a última vitória gremista fora de seus domínios – contra o Galo -, os cruzeirenses esbarraram em São Paulo e Palmeiras, muito em parte por sua insegurança para definir. Isso, convenhamos, não falta aos gremistas, que devem explorar essa fragilidade no fortíssimo time de Adílson Batista. Já um revés, também completamente possível, traria o Cruzeiro para perto, a um ponto de distância.

Aos gremistas, anima o fato de o jogo contra a Raposa, neste returno, ser exatamente o início da seqüência que no primeiro turno os levou à inacreditável liderança. E no mesmo momento em que o Grêmio pisará no Mineirão para tentar a maior façanha do Brasileirão, os outros três candidatos ao título estarão em ação.

São Paulo e Flamengo tentam matar fora de casa as esperanças remotas que Botafogo e Vitória, respectivamente, têm de chegar à Copa Libertadores de 2009. O Palmeiras, por sua vez, chega pressionadíssimo ao Parque Antártica, e tem o Goiás, um forte oponente no contragolpe, sedento por três pontos após o fracasso no Serra Dourada há uma semana.

Dando tudo certo, o Grêmio passa a ver os rivais com quatro ou cinco pontos de vantagem na liderança. Além disso, principalmente, com uma tabela favorável em que recebe Coritiba e Figueirense nas próximas três rodadas, em um caminho onde é improvável perder pontos.

Mesmo em reta final, Celso Roth tem buscado uma solução tática para, de uma vez só, resolver os problemas na ala-esquerda e acomodar Douglas Costa e Tcheco, juntos, no time. O treinador tem competência na gestão de problemas como esse, e opções de banco para mudar a equipe e não perder qualidade: o elenco tricolor é muito coeso, algo bem alertado por Muricy Ramalho.

Ex-Internacional, Muricy, diga-se de passagem, é o maior adversário do Grêmio nesse título, e o São Paulo chegou à vice-liderança na hora H. Batido duas vezes pela equipe de Roth, porém, o atual bicampeão precisa de tropeços gremistas para chegar ao tri. O mais possível deles, admite-se, é contra o Cruzeiro, no Mineirão. Uma façanha do tricolor gaúcho, por sua vez, o faz pôr uma mão na taça. Uma hipótese a ser considerada.

Fluminense e Vasco sobrevivem

As vitórias dos quatro cariocas foram o principal destaque na última rodada e, em particular, as de Vasco e Fluminense. Os vascaínos deixaram a lanterna e uma seqüência de dez partidas sem vencer – incluindo jogos pela Sul-Americana, encurtando a distância para a 16ª posição de quatro para os dois pontos. Os tricolores, enfim, respiraram fora da zona de rebaixamento, e deram aos mais de 31 mil pagantes e ao Palmeiras uma enorme demonstração de força.

Únicos grandes com chances reais e iminentes de rebaixamento, Vasco e Fluminense, curiosamente se enfrentarão no próximo domingo. No fim de semana passado, venceram com folga, e ganharam força moral. Em São Januário, foi possível ver Renato Gaúcho sorrindo, fazendo contas, acreditando. René Simões, em três jogos, somou sete pontos e só não teve 100% no período graças ao inacreditável erro de Leandro Vuaden no Barradão.

A melhora do Fluminense passa pelo ambiente diferente que Renê Simões, uma escolha acertada da direção, propõe ao elenco. Famoso pela capacidade de motivação, rodagem no futebol e visão tática, René pôs fim ao melancólico ambiente do vestiário com Cuca, sempre se negando a reconhecer más atuações e a fazer o mais simples possível na hora da crise.

Renê reforçou a marcação à frente da defesa, deixou Arouca e Conca mais livres para jogar e, com quatro homens atrás, conta com a força de Júnior César, muito bom no apoio e na marcação. Washington é um centroavante que raramente nega as redes, e fez cinco gols nos últimos três jogos. Por fim, o outro nome que faz a diferença nas Laranjeiras é Thiago Silva, que teve atuações de manual contra Vitória e Palmeiras, e não pretende deixar o Flu com o rebaixamento.

Somar muitos pontos nos jogos vitais contra Figueirense, Vasco, Ipatinga e Portuguesa significa, praticamente, eliminar as chances de queda. Até por que os outros três confrontos são duríssimos: fora de casa, contra São Paulo, Internacional e Cruzeiro. Mesmo assim, o Flu respira e dá pinta de que não vai cair.

O Vasco não tem em seu elenco as mesmas soluções que o Fluminense, mas mostrou alma e algumas qualidades no Serra Dourada, batendo um dos destaques do returno. Renato Gaúcho, após escalações infelizes contra Palmeiras, Ipatinga e Figueirense, vai conhecendo melhor os jogadores e entendendo que o time que fez 48 gols em 31 jogos precisa é de maior atenção com a defesa, e que com zagueiros lentos, o meio precisa trabalhar para inibir os adversários para longe da área vascaína.

A tabela cruzmaltina, contudo, é mais acessível que a tricolor. Atlético-PR, Vitória, São Paulo e Santos, visitam São Januário, e o jogo com o Fluminense no Maracanã é o quinto, de sete restantes, a ser jogado no Rio de Janeiro. Viajar para pegar Coritiba e Atlético-MG não parece uma tarefa impossível, sobretudo com as equipes provavelmente não tendo qualquer ambição nas últimas rodadas.

O buraco negro e fundo do futebol brasileiro – parte 2

Seguimos, nesta semana, com os resumos da ótima série de reportagens comandadas por Fernando Gavini, na Espn Brasil, sobre a situação financeira de alguns dos principais clubes brasileiros. Após falar sobre os quatro grandes do Rio de Janeiro no primeiro resumo, partimos agora para o quarteto paulista.

A direção comandada por Andrés Sanchez assumiu o Corinthians no fim do ano e já levou, de cara, uma queda para a segunda divisão. O rebaixamento, porém, caiu como uma luva para quem pretendia explorar ao máximo o potencial do marketing corintiano e criar, no mercado, a imagem de que era, esta agora, uma direção transparente e diferente da anterior.

Assim, o Corinthians iniciou 2008 com 100 milhões de reais em dívidas, sendo 70% delas a serem quitadas em curto prazo. O novo departamento financeiro estimou uma temporada com 90 milhões de receita e uma despesa de 83 milhões – suficiente para fechar o ano sem prejuízos. Com um incremento de 50% proveniente do marketing e 15% a mais recebido pelos direitos de transmissão, o clube ainda teve habilidade para negociar dívidas com Passarela, Emerson Leão, Nilmar e Lyon, mesmo sem nenhuma grande negociação com o exterior.

O Santos, como já vem sendo alertado há dois anos pela Revista Trivela, vive uma situação financeira delicada. Economizando e com erros em seu planejamento, tem feito o clube investir em jogadores de qualidade duvidosa. Após fechar 2005 com lucro de 63 milhões de reais – graças às muitas negociações de jogadores -, o Peixe teve 57 milhões em prejuízo nos dois anos seguintes.

A dívida geral, que era de 82 milhões em 2005, saltou assim para 145 ao fim de 2007, incluindo a dívida com a União, reconhecida em balanço para oficializar a Timemania. Os gastos foram de 73 milhões em 2006 e 89 milhões em 2007.

No Palmeiras, a parceria com a Traffic tem levado a direção a ter que pagar uma folha salarial alta, também em razão da comissão técnica. Ainda que o clube relute em admitir, os vencimentos são de aproximadamente 4 milhões de reais por mês. O patrimônio líquido palmeirense está entre os maiores do país, avaliado em 78 milhões, mas custa um preço alto em manutenção. No último ano, o Palmeiras arrecadou 65 milhões, todavia, gastou outros 89 milhões.

Inteligente para comprar e vender, o São Paulo é o único clube grande do país que fechou os últimos três anos em lucro, graças a negociações importantes como de Breno, Josué, Lugano, Cicinho, Amoroso e Diego Tardelli, entre outras.

Corinthians: elite em 2009

A confirmação do acesso corintiano, com justiça, praticamente monopolizou as atenções sobre a Série B no fim de semana. Com seis rodadas de antecedência, a segunda maior torcida do país pôde comemorar o fim da agrura que foi ficar distante da elite do futebol brasileiro por uma temporada.

Há pontos importantes, porém, a serem salientados sobre a passagem corintiana pela Série B. O primeiro e fundamental é que o time altamente técnico montado por Mano Menezes serviu para desmistificar a idéia de que só se triunfa na segundona com um time viril, rodado e, por que não, feito por machões como Sandros Goianos e similares. Um elenco leve, jovem e habilidoso, porém, protagonizou a campanha mais dominante em Série B dos últimos anos.

O segundo é que o Corinthians, em nenhum momento, ousou oferecer risco ao seu acesso. Os valores gastos para a montagem do elenco são altíssimos e fogem completamente dos padrões financeiros para uma Série B. Mesmo nomes como Diogo Rincón e Acosta, pouco úteis no acesso, têm salários considerados top no futebol brasileiro. Além disso, investimentos como o realizado para a aquisição do meia Douglas, por exemplo, são incomuns e denotam a importância que a direção deu à tese de que ficar dois anos na segundona seria um prejuízo gigantesco.

Aí, é importante ressaltar também a criatividade na montagem do elenco. Como em se aproveitar de uma dívida com o Grêmio para trazer um líder como William para a zaga, ou mesmo sendo esperta em tirar os bons Morais, Cristian e Diogo, de Vasco, Flamengo e Sport, respectivamente, em momentos de baixa.

Por fim, a Série B de 2008 não tem apresentado o mesmo nível de outros anos. Ainda que perto da promoção, Avaí, Vila Nova e Santo André não são grandes esquadrões, como eram, por exemplo, o Sport em 2006 e o Coritiba em 2007. Quem tem tradição para fazer frente, não faz um bom ano, como Bahia, Juventude, Paraná e Fortaleza – para não se lembrar de Santa Cruz, Remo, Paysandu e Criciúma.

Seis times para quatro vagas

O returno do octogonal final da Série C será aberto nesta quarta-feira e há duas equipes que praticamente não têm chances de avançar na disputa pelo acesso. Na lanterna, o Rio Branco tem apenas quatro pontos e precisaria reduzir uma vantagem de sete pontos para o Campinense, quarto colocado.

A situação irremediável, porém, é do Duque de Caxias. O clube fluminense foi suspenso da Série C pelo STJD e não poderá sequer disputar a competição em 2009. Impossibilitado de subir, ainda foi multado em 10 mil reais e perdeu o ponto conquistado na partida que culminou com a decisão do tribunal.

Diante do Rio Branco, no Acre, o Duque de Caxias vencia a partida por 2 a 0, mas ficou inconformado com decisões da arbitragem, que expulsou três de seus jogadores. Assim, provocou o chamado “cai-cai”, encerrando o jogo aos 37min do segundo tempo.

O Guarani, que liderava o octogonal há uma semana, perdeu dois jogos seguidos e caiu da liderança para a quinta posição, com 10 pontos, empatado com o Brasil de Pelotas. O Atlético-GO disparou na ponta, com 15 pontos, e vem seguido por três equipes com 11: Confiança, Águia de Marabá e Campinense.

Nas sete rodadas que restam, Atlético-GO e Águia de Marabá têm vantagem de realizar quatro jogos em casa. O mesmo se aplica a Rio Branco e Duque de Caxias, mas enquanto os acreanos têm uma missão impossível pela frente, os fluminenses apenas cumprem tabela nesse resto de Série C.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo