Brasil

Para Gallo, não adianta ter talento se usar brinco ou moicano

Quando se pensa em seleção de um país, a ideia é escolher os melhores jogadores e formar um bom time. Eventualmente, bons jogadores ficam de fora, pelos mais diversos motivos, mas normalmente os critérios são em função do que aquele jogador pode render, o seu desempenho em campo. Com Alexandre Gallo, coordenador das categorias de base da Seleção Brasileira, o critério não será técnico. Importará mais o comportamento do que o talento, basicamente. Em entrevista ao Estadão, o ex-jogador explicou as razões de adotar essa postura.

“Quando eu cheguei na CBF, me falaram: ‘O jogador aqui é convocado sempre pela capacidade dele, por serem jogadores comprometidos e também pelo caráter’. Eu falei: ‘Está errado. E a partir de hoje vamos virar a página ao contrário. Vamos convocar primeiro pelo caráter, segundo pelo comprometimento e cumplicidade com o trabalho e terceiro pela capacidade’. Por que não pela capacidade em primeiro? Porque todos os jogadores convocados pela seleção brasileira são jogadores capazes”, disse o treinador.

Isso te lembra alguma coisa? Talvez o nome do treinador Daniel Passarella refresque sua memória. Ele não convocou Fernando Redondo, um dos melhores volantes da sua época, porque ele tinha cabelos compridos e se recusou a cortar. Uma regra estúpida que o treinador implantou no time e que não traz nenhum benefício prático. É o tipo de coisa que tem apenas o objetivo de mostrar autoridade. Uma autoridade besta, daquelas de criar uma regra só para que os outros a cumpram e o comandante exerça o seu poder.

“Eu vou implantar uma nova mentalidade na base. Não tem mais brinco, não tem fone de ouvido, não tem cabelo, marra, nada. Os que têm, estão fora. Só jogadores comprometidos serão convocados”, afirmou Gallo. Sim, porque é não usar brinco, ou ter um cabelo diferente, que fará um jogador ser comprometido. Ah sim, fone de ouvido é uma falha grave mesmo. É a mentalidade pequena de achar que é isso que torna um jogador mais ou menos comprometido. Paul Pogba, da França, é um jogador que gosta de ter cabelo diferente, tem personalidade forte, é marrento e não deixa de ser comprometido com o time. Foi o capitão da seleção da França campeã do Mundial sub-20, que terminou neste mês na Turquia.

A pergunta é: por que Gallo faz isso? Porque é exatamente para isso que ele entrou lá. Vale lembrar que José Maria Marin é adepto de um nacionalismo torto, um patriotismo exagerado e um militarismo assustador. Não é por acaso que o técnico escolheu Felipão para técnico da seleção principal, um treinador com perfil de impor respeito aos jogadores. A ideia é justamente essa. Gallo foi escolhido por ter esse perfil. É o perfil disciplinador que a CBF queria.

E não há nenhum problema em ter perfil disciplinador. Há vários estilos de trabalhar e não há um necessariamente melhor do que outro. A questão não é bem o estilo, mas como ele é aplicado e o que se tornou prioridade. Ao adotar essa postura, Gallo cria um inimigo, essa postura é vista como o causador de problemas disciplinares. Como o Sul-Americano sub-20 foi um fracasso para o Brasil, com um grupo que teve problemas de disciplina e de falta de comprometimento, se criou o ambiente favorável a isso. Assim como a bagunça de Weggins, em 2006, levou a CBF a procurar um técnico que representasse esse perfil disciplinador. Veio Dunga e seus métodos radicais e preocupados em algumas bobagens que não deveriam ter importância.

Como no futebol o modo patriarcal é muito bem visto, Gallo diz que os clubes têm gostado dessa postura. Não duvido. É muito difícil educar. É mais fácil proibir que o jogador seja convocado. Gallo diz que é assim que o jogador vai perceber. “Ou então eu falando com ele”. Mas então por que não falar com ele ao invés de simplesmente não convocar? Dar essa declaração é se prender ao detalhe, não ao todo. A proibição é o fácil. A conversa e conscientização desses jogadores é que é realmente difícil. E esse é o ponto mais complicado e que não é só responsabilidade de Gallo. Aliás, a maior responsabilidade é justamente dos clubes, que são formadores e precisam fazer os jogadores serem pessoas melhores e não apenas cumpridores de ordens, que é o problema de regimes que colocam a disciplina em primeiro lugar, acima até do talento.

Se por um lado Gallo erra pelo autoritarismo bobo, acerta quando diz que falta formação tática aos jogadores brasileiros. “Esse papo de que jogador brasileiro sub-13 tem de deixar jogar… Esse foi o maior erro dos últimos 30 anos no Brasil. Nós estamos marcando passo e os caras estão passando correndo. Sabe por quê? O sub-12 do Barcelona treina taticamente como o time principal”, afirmou o técnico, que ainda deu o exemplo de Neymar para mostrar que é preciso mudar a mentalidade. “Aqui, nas categorias de base, sempre dependemos da capacidade individual de cada atleta. Agora estamos contentes com o Neymar ter ido para a Europa, porque ele tem um ano para se adequar taticamente antes da Copa. Então esse negócio da categoria de base não ter de treinar taticamente é a maior mentira que existe no futebol. A maior dificuldade que tive na base foi fazer os jogadores entenderem a tática. Eles não sabiam, porque não trabalhavam”, confirmou.

Não ensinar tática aos garotos na categoria de base é um pensamento enraizado no Brasil. É preciso dar formação tática aos jogadores desde a base sim. É preciso mostrar ao jogador o tipo de trabalho a ser feito. Isso não é engessar um garoto, é dar a ele mais elementos para desenvolver o seu talento. Durante anos se criticava a formação de jogadores das potências europeias, dizendo que eram jogadores de alto conhecimento tático, mas que não tinha a habilidade dos brasileiros.

O que se vê atualmente é que os jogadores de Alemanha e Espanha, por exemplo, são bem formados tática e tecnicamente. Aqueles chavões que os europeus são “cintura dura” caiu por terra há anos. E o que aconteceu com a malemolência do Brasil? Bom, talvez falte alguma coisa. Talvez falte saber variar, se posicionar, se portar taticamente. É um problema que pode ser corrigido, mas que tem como problemas grave a gestão das categorias de base, muitas vezes dadas nas mãos de quem tem interesses próprios, não do clube. Como a gente já viu muitas vezes.

O Brasil continua sendo um excelente formador de talentos, mas que não se adaptou a algumas mudanças do futebol. É preciso mudar isso. O fato de Gallo se preocupar com isso é importante. Ainda que ele se preocupe com muitas coisas que não deveria, como se o jogador usa brinco, ou se tem cabelo moicano.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo