Brasil

Palmeiras fechou a semana mostrando saber agir quando certo e errado

Clube alviverde soube agir sem dar margem para dúvidas em polêmicas e, desse modo, preservar sua imagem

Já virou clichê dizer que o que acontece no campo de jogo é apenas uma parte do futebol. Junto a tudo que ocorre nos treinos e bastidores de estádios e centros de treinamento, a construção e a manutenção constante da imagem de um clube não balança a rede, mas influencia diretamente o que se desenrola no gramado.

Estar do lado certo de questões atrai investidores, patrocinadores e a simpatia da mídia. O que acarreta uma exposição mais ampla e positiva. Em última instância, isso afeta valores de contratos e o tipo de jogadores que o clube conseguirá atrair — tanto pela quantidade de recursos quanto pelo desejo dos empresários de associarem a imagem de seus atletas às causas e pontos de vistas considerados corretos em cada recorte histórico.

Em menos de 24 horas, por duas vezes, o Palmeiras teve que se posicionar publicamente, por conta de assuntos diferentes, em que precisava ser assertivo, sem margem para dúvida. Em uma, se viu na obrigação de reconhecer um erro, após uma fala xenofóbica de Abel Ferreira. Na outra, foi instado reafirmar posição diante de novas ameaças de John Textor. Em ambas, conseguiu ser transparente e direto.

Pedido de desculpas

Abel Ferreira se manifestou em questão de minutos sobre usar a expressão “equipe de índios”, na entrevista coletiva depois da vitória do Palmeiras sobre o Atlético-GO, na quinta-feira (11).

Por meio da assessoria de imprensa do Palmeiras, o técnico disse que em momento algum teve a intenção de ofender alguém e que somente utilizou uma expressão comum no futebol.

— Vivo e trabalho no Brasil desde 2020 e tenho profundo respeito por todos os brasileiros. As pessoas já conhecem o meu caráter, as minhas condutas e as minhas ações sociais. Sabem também que eu repudio por completo toda forma de preconceito — disse o treinador.

Mas, pela manhã da sexta-feira (12), em seu perfil no Instagram, com Palmeiras e sua equipe tendo trabalhado juntos sobre o tema, Abel foi enfático e mostrou um aprendizado que não demonstrara no calor da noite anterior. Dessa vez, veio um inequívoco e direto pedido de desculpas:

Comunicado publicado por Abel Ferreira no Instagram
Comunicado publicado por Abel Ferreira no Instagram (Foto: Reprodução)

— Repudio toda e qualquer forma de preconceito e discriminação. Infelizmente, há expressões que continuamos a perpetuar sem que nos debrucemos sobre o seu conteúdo. Errei ao usar uma dessas expressões na coletiva de imprensa. Reconheço que palavras têm poder e impacto, independentemente da intenção. Devemos todos questionar, pensar e melhorar todos os dias. Peço desculpa a todos e, em especial, às comunidades indígenas

Abel e o Palmeiras fizeram o que precisava ser feito, agindo conforme o que demandaram de Carlos Belmonte, diretor do São Paulo que chamou Abel de “português de merda”, após um Choque-Rei no Paulistão.

A Trivela presenciou tanto a fala de Belmonte, no MorumBis, quanto a fala de Abel, no Allianz Parque. Em que pese o fato de o técnico não ter sido agressivo como o dirigente tricolor, a mera menção de um grupo étnico com conotação pejorativa já basta para configurar xenofobia.

Era preciso mais do que deixar claro que Abel compreendia o que fizera de errado. Era preciso verbalizar. E, desse modo, encerrar a questão.

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A hora de calar

No final da sexta-feira (12), o clube, na figura da presidente Leila Pereira, se viu mais uma vez em lado oposto ao de John Textor. A cinco dias de um importante jogo pelo Campeonato Brasileiro entre Palmeiras e Botafogo, e a um mês da ida das oitavas da Copa Libertadores.

Textor voltou a acender a polêmica que fabricou com o Palmeiras. Nesta sexta-feira (12), o dono da SAF do clube alvinegro afirmou que vai processar Leila nos Estados Unidos. E, para isso, contratou o advogado Paul Tuchmann.

Tuchmann foi um dos promotores do Departamento de Justiça dos EUA responsáveis pelo “Fifagate”, investigação que levou dirigentes do alto-escalão do futebol mundial para a prisão. Entre eles, José Maria Marin, ex-presidente da CBF. Atualmente, segundo Textor, Tuchmann atua como advogado particular.

– Ela (Leila Pereira) cruzou a linha. Eu vou atrás dela. Eu contratei Paul Tuchmann, que teve papel determinante na queda de dirigentes da Fifa. Ele agora está no setor privado, é advogado. Eu vou olhar de forma responsável o que pode ser feito – afirmou John Textor ao Ge.

Leila e John Textor, durante reunião da Libra
Leila e John Textor, durante reunião da Libra (Foto: Divulgação)

Chororô

A fala de Textor configura o que os norte-americanos, como Textor, chamam de “name dropping”, algo como “lançar mão de nomes”, para impressionar.

Dessa vez, o que o Palmeiras precisava era alastrar a questão o menos possível. Convicto de que nada tem a temer no que diz respeito às acusações contra o botafoguense, a quem Leila chamou de “irresponsável” e “idiota”, que deve ser “punido exemplarmente pelos crimes que tem cometido contra pessoas, clubes e entidades”, o clube foi sucinto.

— A presidente do Palmeiras, Leila Pereira, não vai se manifestar, pois já disse tudo o que pensa sobre o dono da SAF do Botafogo-RJ — foi o que divulgou a assessoria do Palmeiras.

Com a curta declaração, feita reativamente, mediante solicitação dos veículos de imprensa, o Palmeiras reafirmou tudo que Leila dissera sobre Textor, sem denotar qualquer preocupação com as ameaças do empresário. Mostrar qualquer mínimo abalo na linha de pensamento é abrir brecha para as acusações infundadas de manipulação de resultados favorecendo o Palmeiras.

Derrotado no campo e na Justiça brasileira, uma vez que o STJD já concluiu pela nulidade dos argumentos apresentados pelo norte-americano, o empresário lança-se em patético desespero para tentar alguma vitória na questão e ampliar a parcela da torcida que lhe dá razão, sabe-se lá como.

Um gesto lamentável e tresloucado de alguém com experiência e vivência multinacional no futebol de alto nível. Que já deveria ter compreendido que é melhor ser um derrotado honrado do que um perdedor chorão. E que reconhecer erros e derrotas óbvias e inquestionáveis é o caminho mais curto para uma imagem melhor — e menos derrotas futuras.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata LimaSetorista

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.

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