Brasil

Chegou a hora de a Crefisa abrir mão da exclusividade de patrocínio, se o Palmeiras não quiser ficar para trás

Adversários já arrecadam mais com suas camisas 'fatiadas' do que o Palmeiras com o uniforme cedido à holding da presidente do clube

O investimento da Crefisa e da FAM, individualmente falando, é muito alto. Não há no Brasil ninguém que invista tanto em um clube quanto a holding comandada pela presidente do clube, Leila Pereira. Mas, paradoxalmente, já está claro que o acordo com as empresas da dirigente virou uma barreira contra ganhos maiores no clube.

Quem está dizendo isso é o mercado. Flamengo, Corinthians e São Paulo arrecadam com suas camisas, e não é de hoje, mais do que o Palmeiras recebe de sua presidente/patrocinadora.

A Crefisa/FAM é dona do direito de exploração de todas as propridades da camisa do futebol masculino – peito, omoplata, calção, barras e manga -, pelo qual paga exorbitantes R$ 81 milhões anuais. Só que, tirando o contrato com a Puma (R$ 30 milhões), para por aí a arrecadação do Palmeiras com seu uniforme.

Leila Pereira duvidou, mas Duilio Monteiro Alves afirmava que o Corinthians arrecadava R$ 123 milhões com sua camisa. Augusto Melo, recém-empossado, afirma ter uma proposta melhor que os R$ 80 milhões oferecidos pela Pixbet, para ocupar o lugar que hoje estampa a marca Neo Química, que paga R$ 17 milhões.

O Flamengo, que recebe R$ 45 milhões do banco BRB, tem proposta para elevar tal montante para R$ 85 milhões – mais uma vez, o valor refere-se apenas ao espaço do peito da camisa de jogo.

O São Paulo e a casa de apostas Superbet chegaram a um acordo de patrocínio para os próximos três anos. O clube Tricolor vai receber R$ 52 milhões por temporada pela parceria apenas para o espaço nobre no peito.

Em 2023, recebendo R$ 24 milhões da Sportsbet.io, a camisa do clube arrecadava cerca de R$ 60 milhões, conforme afirmou o jornalista Danilo Lavieri, em sua coluna no UOL. Com o incremento de R$ 28 milhões, o montante arrecadado apenas com um espaço da camisa vai a R$ 88 milhões, portanto.

Não precisa colocar um centavo a mais

Existem muitos prós no acordo do Palmeiras com a Crefisa. Está mais do que claro, por exemplo, que a empresa é muito sólida. Tem sede no Brasil e atua em um segmento que, julgamentos morais e ideológicos à parte, é regulamentado e incontroverso legalmente.

O fato de a presidente ser também a patrocinadora, conflitos de interesse à parte, é um salvo-conduto quanto à manutenção de aportes sistemáticos. A Crefisa da Leila Pereira não vai partir do Palmeiras deixando Leila Pereira na mão. Mas, ao mesmo tempo, tal relação deixa o Palmeiras refém.

A mesma Leila Pereira que garante a Crefisa no clube é a pessoa que teria de pressionar a Leila da Crefisa por um reajuste no patrocínio. Afinal, desde 2019, o Palmeiras recebe o mesmo valor do holding. Pelo IGP-M, um dos muitos índices de correção monetária, os R$ 80 milhões de 2019 equivalem a R$ 120 milhões de hoje.

Leila já cansou de dizer que crê colocar mais dinheiro no Palmeiras do que o acordo de fato vale. Mas que o faz por amor à instituição, não tanto pela exposição. Pois bem: para o clube arrecadar mais, Leila nem precisa aumentar o repasse ao Palmeiras. Basta abrir mão da exclusividade.

Se para ela, não faz tanta diferença a exposição, Leila poderia manter o mesmo aporte e abrir exclusividade de algum espaço. A empresa ficaria com o peito, por exemplo, e negociaria manga, omoplata e ou barras, conforme for melhor para o Palmeiras. Porque, afinal, a presidente tem que ver o que é melhor para o clube.

Se quiser, aliás, Leila pode até reduzir o valor que repassa. O preço de cada proriedade é calculado, com base nos valores de mercado, e o clube vende os espaços que sobrarem para outras companhias. Porque se os departamentos de marketing de Flamengo, São Paulo e Corinthians conseguem vender as propriedades, porque o do Palmeiras não conseguiria?

Igreja e Estado

Há duas semanas, Leila Pereira reinaugurou o Conjunto Aquático do Palmeiras. Pagou do bolso (Crefisa) e, assim, adquiriu “naming righhts” do espaço na sede social do clube. Era uma promessa de campanha que ela viu que o caixa do Palmeiras não abarcaria. Então, pagou por fora do orçamento, com um aporte extra, criando um mecanismo de contrapartida.

Ninguém nega que essa relação econômico-emocional do Palmeiras com sua patrocinadora traz bons resultados para o clube. Não dá para esperar que a Superbet vá reformar as piscinas do clube social do São Paulo, por exemplo. Mas nada impede que o São Paulo obtenha um contrato com outro parceiro para uma empreitada do tipo.

A metáfora é batida, mas é perfeita para a questão. O Palmeiras precisa separar Igreja e Estado. Ainda que isso impeça algumas benesses.

O Palmeiras esteve sim, muito mal financeiramente. E a chegada da Crefisa, junto com a inauguração do Allianz Parque, sanaram algumas dessas questões. O momento agora é outro.

Manter a Crefisa como patrocinadora exclusiva é muito intereressante para a Leila empresária. Mas a Leila presidente, que pode ser qualquer coisa, menos má-administradora, sabe bem que já não é o melhor caminho para o clube.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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