Brasil

A criação de Endrick: trabalho artesanal, com um extraterrestre, em um mercado virgem

O atacante do Palmeiras e da seleção tem sua imagem gerida e calculada por uma empresa, mas tudo só funciona porque ele faz sua parte

Quando foi criar um plano de gestão de imagem para apresentar para a família de Endrick, Fabio Wolff não tinha muitas referências. No exterior, sim, sobravam atletas bem-sucedidos fazendo “endorsement” de marcas, sendo seus porta-vozes, embaixadores. Mas no Brasil, o mercado era virgem nesse campo.

Wolff então buscou dois exemplos que ele considerava ideais: Roger Federer e Rafael Nadal. O desafio era então era pensar em algo para a realidade brasileira, que pudesse se conectar com a cultura local. Em vez de tenistas consagrados, um futebolista iniciante. Veio de Endrick um terceiro exemplo: Cristiano Ronaldo.

O camisa 9 do Palmeiras é fissurado pelo eterno camisa 7 do Real Madrid. Dele, herdou a dedicação muito acima da média nos treinos e um senso extremado de competitividade.

Os ingredientes estavam colocados. Ia ser dessa mistura, com um abrasileiramento, que sairia a persona pública do atacante do Palmeiras no mercado publicitário e de marketing. Só faltava o ingrediente final, que era o próprio jogador.

“Ele é um extraterrestre”, diz Fabio Wolff, da Wolff Sports e Marketing, a agência de gestão de imagem e patrocínio que trabalha para Endrick. Todo trabalho meticuloso e cuidadoso de Wolff faria água, se Endrick não fizesse sua parte.

“Foi um trabalho artesanal. Não havia um Endrick para servir de espelho, como será com os próximos atletas”, explica.

O camisa 9 do Palmeiras foi o primeiro atleta a ter a imagem gerida integralmente por Fábio, que já tinha mais de duas décadas no mercado quando recebeu o convite de Frederico Pena, da ROC Nation, que agencia o jogador.

“O Endrick não sente o peso das situações, ele curte os momentos. Ele estreia em um Wembley lotado e não sente o peso. Ele estreia no Santiago Bernabéu lotado e não sente o peso. E é o campo que traciona tudo”, acrescenta.

“Quando eu tinha 17 anos, eu era bem menos maduro do que ele. Isso certamente tem a ver com a história dele, de ter saído de onde saiu, de vir para São Paulo com os familiares”.

Empresários míopes x Atletas robôs

Endrick, do Palmeiras, durante treinamento, no Allianz Parque. (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)

Uma das razões para poucos jogadores fazerem “endorsements” de marcas no Brasil é justamente os jogadores. Muitos boleiros, incluindo as grandes estrelas, têm comportamentos deploráveis, diz Fabio. Falta cultura local até para se entender essa modalidade de patrocínio, que passa pela construção da imagem.

“Tem muito empresário míope, que acha que os bons contratos vêm com gols, de maneira orgânica. Mas imagem não é sobre performance, e uma construção. Tem muitos empresários que debocham, quando falamos em construção de imagem. Em termos de gestão extracampo, uma boa performance não segura bons contratos, se a imagem do jogador não for positiva”, diz Wolff.

“Mas eu não quero que ele seja um robô. Tudo que vemos o Endrick fazer veio do próprio Endrick”, garante o gestor.

Quando falou de Bobby Charlton para a imprensa em Wembley, fez porque viu o card dele no jogo de videogame Fifa e decidiu ir atrás, pesquisar. Segundo Fabio, Endrick é apaixonado por futebol, pesquisa, lê sobre. Futebol é sua paixão, garante.

O escudo do Palmeiras com que se envolveu, após fazer o gol que levou o Palmeiras para a final do Campeonato Paulista, também foi ideia dele, sem direcionamento.

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A vida não pode ser um inferno

Endrick entra em campo para brilhar pela primeira vez no Santiago Bernabéu (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

A ideia para Endrick é trabalhar com poucas marcas, que dialoguem com ele e com a sua história e a de sua família. Outro requisito é fazer sempre contratos longos, para não banalizar a imagem do jogador. Exceto em alguns casos, como com o álbum oficial da Copa América e a promoção da Champions League na TV, com a Warner Media.

Ter poucas, mas parrudas parcerias, é que permite a Endrick ter uma vida relativamente normal para um jogador de futebol. Nos planos desenhados para ele estão previstos os tempos com a família, com a namorada e para jogar videogame.

“A vida dele não pode ser um inferno”, diz Wolff.

Como parte do plano, também estão ações em causas sociais. No início desse ano, Endrick e os familiares passaram o dia no Graac (Grupo de Apoio ao Adolescente e Criança com Câncer), para conhecerem o trabalho, antes de o jogador se tornar embaixador da instituição.

“A família dele é do bem. É até um clichê falar, mas é totalmente verdade no caso dele. Eles entendem o trabalho que fazemos com ele e absorvem o que é passado. É uma família de origem humilde, mas que é muito aberta a conversar, interessada, que busca o melhor possível para ele”.

Endrick vai chegar na Europa aberto a novas parcerias. Wolff, que já fez ativações pontuais de patrocínio para atletas do peso como Neymar, Zico, Raphinha e Rayssa Leal, sabe que tem sob contrato algo muito diferente. Até onde Endrick pode ir?

“Como a mãe dele costuma dizer, Endrick nasceu para ser atacante. Não dá para saber. Nós não colocamos barreiras”, projeta o empresário.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata LimaSetorista

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.

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