Brasil

‘Sem o Palmeiras, não vou aguentar’: Empresária tem no amor ao clube maior combustível contra câncer

Clube alviverde levou torcedoras ao campo como parte da ação de combate e prevenção ao câncer de mama

Luara Guedes, 37 anos, já tinha até entrado no campo do Allianz Parque anteriormente. Participando do “Tour do Allianz”, chegou até a bater um pênalti, como parte da visita guiada. Mas, já estava conformada: entrar em campo com os jogadores não iria ser possível.

— Só criança entra com o time em campo. Meu filho entrou, até. Mas eu achava que nunca poderia fazer o mesmo. Estava realizada só por ele ter entrado — disse a empresária, conhecida como Lua, à Trivela. Na quarta-feira, 15 de outubro, essa história teve uma reviravolta.

Lua, que se mudou de Taubaté para São Paulo e para o bairro da Água Branca só para ficar mais perto do clube que ama. Que deu ao filho o nome de Fernando Prass e conheceu o marido Thiago Rocha, 38, em uma caravana para Caxias do Sul, há três anos, realizou um sonho.

Ela foi uma das mulheres que entraram no gramado do Allianz Parque com o time, antes da vitória por 5 a 1 sobre o Red Bull Bragantino, pelo Brasileirão. A ação faz parte da campanha Outubro Rosa, de prevenção e alerta sobre o Câncer de Mama.

— A gente fez uma fila, e os jogadores chegavam e ficavam ao lado da gente. Eu já tinha até avisado que não fazia questão de um em específico. Se alguém fosse muito fã e quisesse trocar, para mim estaria tudo bem. Eu adoro todos — contou.

Foi o zagueiro Micael quem se aproximou e segurou a mão de Lua, que tremia. O zagueiro sorriu, comentou que ela estava nervosa. Lua disse que ia ter um piripaque. E o defensor não só a acalmou, como também recomendou:

— Aproveita porque passa rápido.

Antes da subida ao campo, Weverton pediu a palavra, chamou também os jogadores do Bragantino e parabenizou as convidadas de honra pela força e coragem, antes de todos os atletas as aplaudirem.

Sem o Palmeiras, não vai ter como

O diagnóstico a pegou de surpresa. Sem antecedentes na família, tanto ela quanto os profissionais que a atenderam imaginaram estar diante de uma mastite. Até porque, câncer não costuma causar tanta dor na mama. Exceto um tipo raro. Que foi exatamente o apontado por uma biópsia.

Conhecida há uma década pelos cabelos e sobrancelhas pintados de verde, Lua percebeu que seus cabelos estavam caindo enquanto se preparava para Palmeiras x Internacional (4 a 1). No dia seguinte, já decidiu raspar.

— Eu aceito perder cabelo, eu aceito perder minha unha, eu aceito minha sobrancelha cair, eu aceito tudo. Só não tira o Palmeiras de mim. Eu só não posso ficar sem o Palmeiras. Se eu ficar sem o Palmeiras, não vou aguentar. Aí não vai ter como”.

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Lua fez pedido à presidente do Palmeiras

Foi na festa de Dia das Crianças do clube social do Palmeiras que Lua iniciou a noite que ela define como “mágica” e “muito melhor do que poderia imaginar”. Já é tradição, no Palmeiras, a entrada de pacientes oncológicas no campo no mês de outubro. Ela não sabia se teria neste ano. Mas decidiu perguntar para alguém que certamente saberia.

— Meu marido insistiu para eu ir perguntar para a (presidente) Leila Pereira, se haveria neste ano. Eu morria de vergonha. Mas ele e uma amiga insistiram muito. E eu fui. Ela foi muito solícita, já confirmou que eu iria participar. E, em poucos minutos, um funcionário do clube me ligou e combinou tudo — conta ela.

— É como eu falei para meus amigos, não dá para dizer uma palavra para definir. Eu acho que essa palavra não existe — acredita.

— Porque era aquele sonho de criança guardado lá dentro, que eu já sabia que nunca iria acontecer. E eu pensava: “Está tudo bem, já vivi tanta coisa boa com o Palmeiras, não tem importância disso não acontecer”. E quando tive essa oportunidade, eu falei: “Gente, é assim, eu acho que é mentira, não pode ser que eu vou realizar, não pode ser que isso vai acontecer”. Eu não sabia nem o que pensar na hora. Na hora que eu estava ali no túnel para entrar, eu ainda ficava: “Gente, não é possível que eu estou vivendo isso” — contou.

Mulheres no campo do Allianz com os jogadores em ação do "Outubro Rosa"
Mulheres no campo do Allianz com os jogadores em ação do “Outubro Rosa” (Foto: Gazeta Press)

Pelo Palmeiras, ela até desobedeceria a médica

Por outro lado, sabe bem que o Palmeiras vai ser parte importante de seu tratamento. Tanto que não pretende abrir mão de seguir indo aos jogos no Allianz Parque, mesmo se precisar desobedecer recomendações médicas:

— Eu já tinha falado para o meu marido: “Eu não quero nem saber, eu vou para o jogo”. Ela liberando ou não, eu vou. Eu não vou ficar longe do Palmeiras porque eu não tenho condições. Aí por querer tanto ir no jogo, dá uma força de você comer certinho, tomar todos os remédios certinhos, se cuidar, fazer os descansos exatos. Assim, te dá aquele ânimo de você seguir tudo extremamente regrado para conseguir ficar sempre bem para conseguir ir aos jogos.

— Tanto que teve Palmeiras e Fortaleza há algumas semanas, que foi o primeiro jogo a que eu não fui no Allianz, porque eu tinha feito uma quimioterapia e eu fiquei muito, muito, muito mal com o efeito dela, a ponto de eu não conseguir parar em pé direito sozinha, eu passava muito mal. E foi o primeiro jogo no Allianz, desde a inauguração, que eu não consegui ir — contou.

— Lá é um mundo mágico. Lá, tudo é possível, tudo acontece, tudo é maravilhoso, tudo é incrível. Então, eu tinha certeza que se eu não fosse aos jogos, se eu largasse o Palmeiras, eu ia ficar extremamente abatida. Eu só estou psicologicamente, emocionalmente extremamente bem, positiva, tendo muita fé que vai dar certo, porque tem o Palmeiras que está ali, que faz a gente sair desse mundo e ir para outra realidade e viver outras coisas.

Só um pedacinho da história

Lua seguirá em tratamento até meados de fevereiro. Depois da químio, virá a cirurgia. Depois do procedimento, sessões de radioterapia. E Lua sabe quem vai acompanhá-la em todo esse processo. Indagada pela reportagem se era bom ter o Palmeiras para ajudá-la a passar por essa fase, ela não titubeou:

É a melhor coisa do mundo, de verdade. Eu tenho certeza que se eu não tivesse um amor tão grande na minha vida como o Palmeiras, eu acho que tudo ia ser mais difícil. Porque o Palmeiras me dá aquele gás, de me tirar dessa realidade.

— Porque você fica tão focado assim de pensar “ah, a gente vai ganhar o brasileiro, ah a gente vai para o final da Libertadores, vamos para o estádio, vamos apoiar, vamos fazer tudo. Você fica tão mergulhado nesse mundo que não dá tempo de sofrer por outra coisa, meio que as outras coisas ficam em segundo plano.

— Eu sei que o câncer é uma coisa séria, mas eu pensei: ele não vai dominar minha vida. Ele é sério, mas ele é uma fase, ele vai passar, tá aqui agora, mas vai acabar. O Palmeiras, minha família, meus amigos, o meu marido vão ser para sempre. O câncer é só um pedacinho da minha história. Então, vai ser muito curtinho, vai ser muito breve.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata LimaSetorista

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.

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