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A paixão boleira do lendário Éder Jofre, convidado para os juvenis do São Paulo e que não largou a várzea nem no auge nos ringues

Falecido aos 86 anos neste domingo, Éder Jofre gostava mais de futebol que de boxe: "O boxe atrapalha a gente, tenho de parar de jogar futebol sempre com um mês de antecedência a cada luta"

Éder Jofre é considerado por muita gente especializada como um dos maiores pugilistas da história. Também já foi apontado como o melhor de todos os tempos na categoria em que se consagrou. O Galo de Ouro era um fenômeno várias vezes retratado ao lado de Pelé e Garrincha em reportagens esportivas nos anos 1960. E o tricampeão mundial, segundo seu próprio pai e também treinador, Kid Jofre, gostava mais da bola do que das luvas. A paixão pelo São Paulo Éder nunca escondeu, tantas vezes exibindo com orgulho o distintivo pelo qual iniciou a carreira amadora. O que nem todo mundo sabe é que, quando garoto, o ponta queria virar jogador e chegou a ser convidado para atuar nos juvenis tricolores. O pé canhoto era tão habilidoso quanto a mão esquerda. A família ligada ao boxe o manteve nos ringues, mas Jofre jogava na várzea até na época em que mantinha dois cinturões. Nunca abandonou a paixão.

Nascido em São Paulo, Éder Jofre tinha o boxe correndo pelas veias. Seu pai, o argentino Kid Jofre, era um nome importante da modalidade no Brasil – como lutador e também como professor, à frente da principal academia da capital paulista. Com o sobrenome Zumbano por parte de mãe, Éder ainda via alguns tios competirem na nobre arte. Tanto é que sua primeira vez no ringue aconteceu quando tinha três anos e “enfrentou” um tio. Os ensinamentos sobre a modalidade seriam transmitidos ainda cedo, mesmo que o menino tantas vezes deixasse as luvas de lado para correr atrás de uma bola.

Conforme escreveu a Manchete Esportiva, em 1957: “No esporte, por exemplo, preferia ser futebolista. Dizem os que já o viram em ação, que Jofrinho é um espetáculo no manejo da bola n° 5. Teria no futebol, talvez – caso pertencesse a uma família de futebolistas e não de boxeadores – o mesmo sucesso que alcançou dando murros em cima do ringue. Se preferiu o boxe, foi tão somente por uma fatalidade de família. Afinal, firmou um cartaz fabuloso como amador e viu, diante de si, abertas as portas do profissionalismo”.

O talento de Éder Jofre pela ponta esquerda, aliás, não passava despercebido num nível mais alto. Tanto é que o rapaz ganharia um convite para se juntar às equipes juvenis do São Paulo durante os anos 1950. Balançou. Kid Jofre afirmava ter sentido “uma dor no coração” pelo filho e o prodígio pensou seriamente em abandonar os ringues. No entanto, acabaria mudando de ideia pouco depois, para viver uma carreira meteórica como pugilista. As primeiras lutas amadoras ocorreram em 1953, quando tinha apenas 17 anos. Curiosamente, competia pelo São Paulo, clube que dava apoio à academia de Kid Jofre. O boxeador levaria as três cores em seu coração pelo restante da vida.

Éder Jofre e seu pai, Kid Jofre

Em 1956, Éder Jofre viveria um ano decisivo em sua carreira. Competiu nas Olimpíadas de Melbourne, sem grandes resultados por conta de problemas físicos, e logo depois se tornou profissional. Na mesma época, falando sobre o pupilo em entrevista para a Gazeta Esportiva, Kid Jofre relataria a ligação do filho com o futebol: “Acontece que ele não gosta do boxe. Seu esporte preferido é o futebol, e não é segredo o fato de Éder já haver abandonado o pugilismo há algum tempo. Ninguém sentiu mais do que eu, porém nunca interferi em seus planos. Mas, a pedido de amigos, acabou retornando”. Nesta época, o pai seguia como seu professor na Academia Brasileira de Pugilismo.

“O diabo do rapaz luta bem. É como eu disse: está acostumado a lutar, sabe o que tem que fazer em cima do ringue. Mas gosta mais de futebol. Ele se sentiria muito melhor num campo de futebol. Mas se dedica ao boxe como se fosse um apaixonado desse esporte. No fundo, ele gosta é do futebol e do desenho. Vinha para a Academia, no princípio, e com esse espírito quieto e delicado que tem, se embarafustava por um canto qualquer. A gente ia encontrá-lo muitas vezes fazendo desenhos em alguma parte”, revelaria também Kid, em 1957, à Manchete Esportiva. O filho era um desenhista de mão cheia e adorava reproduzir super-heróis – antes dele mesmo ser visto como um.

Após se profissionalizar, Éder Jofre não competia mais como atleta do São Paulo. Ainda assim, era comum vê-lo com a camisa do clube, reforçando sua identidade. E nem mesmo a carreira internacional, com lutas ao redor do mundo à medida que encadeava vitórias, o afastou dos gramados. Por lá continuava como atleta amador, nas partidas de várzea da Zona Norte de São Paulo. Em 1960, quando já conquistara seu primeiro cinturão na categoria peso galo, vestia a camisa 11 do Atlético Clube Jaú em campos de terra batida. “O campeoníssimo é titular absoluto. E por duas razões: primeiro, porque é bom de bola, e, segundo, porque naturalmente ninguém contesta sua autoridade física em campo”, relatava a revista O Cruzeiro.

Até quando viajava para fora do país Éder Jofre encontrava uma brecha para o futebol. Prova disso aconteceu em 1961, quando estava em Buenos Aires para a sua lua-de-mel. O pugilista fez uma visita a La Bombonera, na época em que o Boca Juniors tinha como treinador ninguém menos que Vicente Feola – também símbolo são-paulino, como o Galo de Ouro. Jofre pediu ao técnico para que batesse uma bolinha e, quando o boxeador começou a fazer malabarismos com a pelota, o comandante da Seleção de 1958 exclamou: “Pensei que ele fosse bom só no soco!”. Para quem apostou no garoto Pelé pouco antes, aquele elogio tinha uma enorme relevância.

Éder Jofre em ação com o Jaú

De volta da Argentina, Éder Jofre teve a ideia de fundar o seu próprio clube amador. Assim nasceu o Clube Atlético Parque Peruche, time organizado pelo pugilista em 1961. O Galo de Ouro não queria só brilhar em campo, mas tinha um envolvimento total: corria atrás dos uniformes, organizava os amistosos, redigia os ofícios, fazia os balancetes, documentava os eventos e convidava outros craques da várzea para se somarem ao elenco. Só não era o técnico, por mais que desse palpites nas escalações. Logo em seus dois primeiros jogos, o Parque Peruche anotou 11 gols, dois deles assinados pelo boxeador. O quinteto ofensivo reunia Aderbal, Afonso, Gatão, Valdir e Éder.

Mais do que uma diversão, o futebol também auxiliava Éder Jofre em sua carreira no boxe. A prática dava sua contribuição no controle do peso, assim como trabalhava o seu jogo de pernas e o seu fôlego. De qualquer maneira, era preciso moderação. Quando uma luta se aproximava, Kid Jofre vetava que o pupilo jogasse na várzea, para poupá-lo de lesões e focar melhor em suas virtudes no ringue. O que não impedia Éder, sem muitos pudores, de comentar à revista O Cruzeiro em 1962: “O boxe atrapalha a gente. Tenho de parar de jogar futebol sempre com um mês de antecedência a cada luta. Esporte, mesmo, é futebol; boxe é sacrifício”.

Naquele mesmo ano de 1962, poucos meses depois da reportagem de O Cruzeiro, Éder Jofre unificaria cinturões como campeão mundial de boxe. E nem isso o afastava do gosto pelo futebol, em suas diferentes formas. Em 1964, a revista Manchete exaltava o “novo título”: o de campeão de futebol de botão do bairro onde morava, em São Paulo. “Agora mais parece um universitário aplicado do que um pugilista”, descreviam.

Durante seu auge, Éder Jofre era personagem frequente nas principais revistas e jornais do país. Tantas vezes, ao lado de outros gigantes do esporte que igualmente conquistavam o mundo. Os encontros com Pelé eram frequentes e havia uma admiração mútua. “Terça-feira última, Éder passou a manhã, em Tóquio, sintonizando uma emissora paulista que transmitia o jogo entre Santos e Botafogo, vibrando com cada gol de Pelé. Dois dias depois, no mesmo horário, Pelé ligou o seu transistor para escutar a luta de Jofre, no Japão. E quando houve o nocaute, pulou de contentamento”, relatava a Manchete, em 1963.

Éder Jofre e Pelé

Éder Jofre sofreu suas únicas derrotas como profissional entre 1965 e 1966, contra o japonês Fighting Harada, em decisões contestadas que custaram os dois cinturões de campeão mundial dos galos que defendia na época. Chegou a se afastar da carreira por três anos, mas nada que diminuísse sua popularidade. E um momento significativo de sua relação com o futebol aconteceu em janeiro de 1970, durante a inauguração total do Estádio do Morumbi. Éder Jofre esteve entre os convidados de honra do São Paulo e desfilou no gramado, diante de uma fanfarra. Seria muito festejado. Cinco dias depois, o boxeador conquistou a vitória de número 49 de seu cartel, ao derrotar o italiano Nevio Carbi por pontos no Ginásio do Ibirapuera. Era a segunda luta em seu retorno ao esporte.

Éder Jofre voltou a ser campeão mundial em 1973, agora como peso pena, e repetia à sua maneira o tri conquistado pela Seleção no futebol pouco antes. O cinturão seria perdido em 1974, por conta do período inativo, num momento em que Kid Jofre faleceu por causa de um câncer no pulmão. O Galo de Ouro encerrou sua carreira em 1976, como tinha que ser: com a última de suas 75 vitórias. Foram 50 nocautes, com quatro empates e apenas duas derrotas. É consenso que o brasileiro está entre os maiores da história do boxe – já apontado por revistas especializadas como o principal pugilista da década de 1960, à frente até mesmo de Muhammad Ali.

Após pendurar as luvas, Éder Jofre trabalhou na política como vereador da cidade de São Paulo, auxiliando principalmente em projetos relacionados ao esporte. E não deixaria as arquibancadas do Morumbi, como um torcedor fervoroso do clube. Os são-paulinos também valorizavam o seu ídolo, com homenagens ao Galo de Ouro em diferentes momentos. “É ser são-paulino, ser paulista, ser paulistano: pra mim o São Paulo é tudo isso. São Paulo já diz tudo, é onde eu vivo, é onde eu moro. Então, ser são-paulino pra mim é tudo”, comentaria o veterano em entrevista ao documentário ‘Onde a Moeda Cai em Pé: A História do São Paulo Futebol Clube’.

Vítima de uma pneumonia, aos 86 anos de idade, Éder Jofre nos deixou no último domingo. Fica um legado único no boxe e no esporte nacional. Um orgulho que os são-paulinos, em especial, compartilham pelo papel decisivo do clube nesta trajetória – mesmo que ela quase tenha mudado por aquele convite ao ponta esquerda juvenil. Diante da perda, o Tricolor publicou uma nota de pesar e realizou homenagens, inclusive com uma bandeira sobre o caixão durante o velório na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. O Galo de Ouro foi tão grande que não seria exagero incluir uma estrela sobre o distintivo do clube para celebrá-lo, tal qual acontece com os recordes de Adhemar Ferreira da Silva. São eternos.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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