País do futebol?

O Brasil é um dos países onde o futebol é o esporte número um. Paixão nacional, marca da cultura. Figuras como Pelé e Ronaldinho ganharam o mundo, tornaram-se quase o passaporte do brasileiro no exterior. Neymar trilha o mesmo caminho. O esporte é um símbolo tão forte quanto o samba. É, dizem, o país do futebol. Guarde isso, voltaremos depois nesse aspecto.
Esta segunda-feira teve futebol na televisão. Não sei quantos viram Portland Timbers e Philadelphia Union, estreia dos dois times na Major League Soccer, o campeonato de futebol dos Estados Unidos (e Canadá também). Um jogo que tecnicamente não foi brilhante, mas foi divertido e empolgante. E grande parte dessa empolgação deve-se à fantástica torcida do Portland Timbers. Ela se intitula Timber Army.
Situada atrás do gol, essa torcida não deve nada às mais fanáticas pelo mundo. Vibram, gritam, cantam, jogam junto com a torcida. Reforçados por ações de marketing sensacionais como o mascote do time (um lenhador, claro) cortando uma tora de madeira (alusão ao nome do time, Timbers). Nesta segunda-feira, era apenas a primeira partida da temporada. Portlantd tinha 6°C, tempo chuvoso, à noite. E estavam lá mais de 20 mil pessoas, o que significa estádio cheio. Uma torcida apaixonada. Mas, provavelmente, muita gente não viu. Alguns até viram que passaria o jogo, mas declinaram o convite para ver. Acontece com frequência.
Quantas vezes se passa um clássico do futebol mundial como Manchester United e Liverpool, Milan e Inter ou até Barcelona e Real Madrid. Nem liga para futebol. Gosta de ver o seu time. E só. Às vezes mal sabe quem joga no seu time. Não há problema algum nisso. A pessoa pode não se interessar por isso. Muitos não se interessam nem em ver o jogo do rival. Tudo bem. Só que passo a desconfiar se a pessoa realmente gosta de futebol. Talvez goste só do seu time, não de futebol, não do jogo, não de ver aquela coisa incrível que nos emociona como no 5 a 4 para o Independiente contra o Boca Juniors na Bombonera, ou como Santa Cruz e Treze, pela Série D do ano passado, valendo vaga na Série C. Mesmo sem torcer para nenhum dos dois times.
Um outro dado: a maior torcida no Brasil é a das pessoas que não gostam de futebol. Pouco mais de 36% das pessoas respondem que não gostam de futebol. Mais do que qualquer time. Claro, a maioria diz que gosta, pouco mais de 63%. Mas o número mostra que precisamos olhar com mais calma para o que acontece no Brasil. A média de público do Campeonato Brasileiro 2011 foi de 14.976 pessoas por jogo. A média de público da MLS em 2011 foi de 17.872 pessoas por jogo. Ué, mas não é o brasileiro que é fanático por futebol? Não são os americanos que não gostam de futebol?
Uma outra torcida louca pelo time na MLS é a do Seattle Sounders. O time tem a maior média da MLS, 38.496 pessoas por partida. O time de maior média de público no Campeonato Brasileiro de 2011 foi do Corinthians, o campeão, que levou 29.424 pessoas por jogo. Ué, mas este não é o país do futebol?
Claro, números não provam nada. Servem apenas para mostrar que talvez a grande valorização que foi feita por uma emissora de TV ao agora ex-presidente Ricardo Teixeira, mostrando os seus muitos títulos à frente da entidade, não trouxeram os benefícios que o futebol brasileiro precisa. Os negócios do futebol evoluíram muito mais rápido do que os jogadores, os clubes, os dirigentes e até o jogo dentro de tempo no Brasil.
Vimos 23 anos se passarem, tivemos evolução em muitos aspectos, mas perdemos tanto em outros e deixamos de evoluir o que o esporte exigiu. E aí os clubes brasileiros têm dinheiro, mas temos um calendário absurdo (apesar de uma emissora dizer que Ricardo Teixeira arrumou o calendário do país). Temos jogos da Seleção Brasileira em dia de rodada do Brasileirão. Brasileirão este que tem média de público menor do que a Major League Soccer, daquele país que vira e mexe alguém diz que nem gosta de futebol. E clubes que, mesmo com dinheiro em mãos, recebendo muita grana, dependem das cotas de TV e possuem dívidas gigantescas.
É claro que os Estados Unidos gostam de futebol. O mercado, o público, as atuações da seleção, tudo isso têm mostrando que sim, americanos se importam com futebol. Porque americanos gostam de esporte. Não arriscaria dizer qualquer esporte, mas diria que muitos esportes. Gostam do jogo, da disputa. Talvez isso não se aplique aqui nem mesmo para o futebol, nosso esporte mais popular. Precisamos tirar o estereótipo. Inclusive quando repetimos que somos o país do futebol. A média baixa de público não é uma constatação que o brasileiro gosta pouco de futebol. Mas é uma constatação que o público de futebol do Brasil não quer o futebol como está. Não com o transporte público como está, não com o acesso ruim e condições ruins nos estádios, com o calendário inchado de jogos ruins, ingressos com preços não muito atraentes, clubes fantasmas que vivem apenas na época do estadual e outros motivos que poderiam ser elencados aqui.
Essa é a herança de Ricardo Teixeira para o futebol brasileiro depois de 23 anos. Um futebol que nem para a maioria que gosta dele á atraente o suficiente para ter média de público de 20 mil pessoas. A Seleção Brasileira pode estar mal, mas o pior resultado não é o dela. É o dos campos mal cuidados, os campeonatos mal geridos, o calendário congestionado, os dirigentes puxa sacos.
E talvez tenhamos que pensar um pouco mais antes de bradar que aqui é o país do futebol. Gostamos muito de futebol, mas não só nós. Muitos gostam de futebol também. Inclusive os Estados Unidos. E, lá, eles tratam melhor quem gosta do esporte. Não está na hora de começarmos a fazer o mesmo com quem ama esse esporte? Ricardo Teixeira deixou a CBF, mas não deixou essa herança para o futebol. O torcedor foi esquecido. O futebol amador e de formação foi esquecido. Os clubes não foram obrigados a se modernizar. A política esportiva inexiste.
Podemos até gostar de futebol, mas é como dizer para a mulher que a ama. Não é suficiente. É preciso mostrar isso, tratá-la bem, fazer com que ela se sinta amada. E não tratamos bem o futebol. Se esse é o país do futebol, é capaz que ele saia para comprar um cigarro e nunca mais volte. Não quer mais ser mal tratado.



