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Os sacrifícios aos quais Sócrates se submeteu em busca do sonho na Copa de 82

Sócrates sempre sustentou a imagem de craque, mas não exatamente de um grande atleta. O gosto do Doutor pela boemia era famoso. O que não necessariamente comprometia a qualidade de seu jogo, baseado muito mais na inteligência e no talento. Entretanto, a Copa do Mundo de 1982 pode ser considerada um marco na carreira do futebolista, e não apenas por suas atuações, apontado como um dos destaques do torneio. Para buscar o título de seus sonhos (que, como todos sabem, nunca veio), o meio-campista deixou de lado seu prazer pelo cigarro e pela bebida. Empenhou-se nos treinamentos de um jeito que os companheiros de Seleção nunca haviam visto. Atingiu o ápice da forma, o que também partia como um exemplo, de quem era capitão.

O trecho abaixo foi retirado do livro ‘Doutor Sócrates’, biografia escrita por Andrew Downie. Nesta semana, o jornal inglês The Guardian publicou um capítulo na íntegra. Traduzimos um pedaço deste capítulo. Para conferir inteiro, basta clicar aqui.

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Sócrates chegou à preparação do Brasil na Copa do Mundo prometendo jogar até de goleiro, se fosse para ajudar a vencer. Ele chegava em alta depois de um começo de temporada brilhante com o Corinthians e estava preparado a fazer qualquer coisa por seu país. Jogar de goleiro era modo de dizer, mas ele largou a cerveja e o cigarro. Mas essa era, ele pensou, a sua melhor e talvez a única chance de glória. Então valia a pena deixar de lado os hábitos de uma vida.

Uma das principais razões pelas quais Sócrates escolheu o futebol ao invés da medicina foi para disputar a Copa do Mundo. E ele tomou uma decisão consciente de fazer todos os sacrifícios necessários. Embora seu pai se incomodasse com o cigarro, ele não considerou cortar isso até meados dos anos 1980. Até então, fumava dois maços de Minister em um dia, mas conseguiu reduzir para meio maço na época e se sentiu melhor assim. Ele chegou no peso ideal, parou de se fartar dos treinamentos e estava aproveitando o futebol muito mais.

Seus hábitos eram uma constante irritação para Telê Santana, que havia deixado de fumar em 1965 e passou a pregar contra o mal que isso faz aos jogadores. Dois anos antes da Copa, Telê falou abertamente ao seu capitão que o tabaco era o que o impedia de atingir a verdadeira grandeza.

“Se Sócrates seguisse Zico, que não fuma, ele seria o melhor jogador do Brasil”, Telê disse. “Agora, Sócrates compensa suas debilidades físicas com juventude e uma classe inegável. Mas o tempo passa e, do jeito que ele fuma, não sei se conseguirá lidar com isso até a Copa do Mundo”

Telê criticou Sócrates, mas ele estava longe de ser o único jogador da época que gostava de um pito ou de uma bebida. Apenas um em cada cinco jogadores admitiam que fumavam, um número sem dúvidas mentiroso. Na Seleção, Junior, Luizinho, Serginho e Batista eram alguns dos outros que também tinham o hábito de fumar. Além disso, quase todos os jogadores tomavam cerveja e Toninho Cerezo costumava virar uma dose de cachaça depois do banho, porque achava que isso evitava um resfriado.

Sócrates tomou a decisão de largar o cigarro, o que para ele era uma decisão traumática, depois de uma longa conversa com o preparador físico Gilberto Tim. Nacionalista fervoroso como Sócrates, Tim era um grande motivador na preparação do Brasil e disse ao capitão que, se ele parasse de fumar e cortasse o álcool, poderia causar mais impacto na Copa.

Sócrates amava a intensidade e a convicção de Gilberto Tim. Ele estava ansioso para deixar sua marca. Após voltar das férias oito quilos acima do peso, Tim o colocou em um regime de recuperação restrito, feito para transformar a gordura em músculos. Ele rapidamente perdeu dois quilos, estabilizado em 84, que era o apropriado para sua altura. Depois de cinco meses de trabalho árduo na academia e no centro de treinamentos, seu peito, seu bíceps, suas coxas e suas panturrilhas estavam maiores, enquanto sua cintura permanecia do mesmo tamanho.

As mudanças transformaram ele em um jogador mais forte e mais rápido. Quando os médicos do time mediram o desempenho físico dos jogadores, Sócrates surpreendeu, ainda mais considerando o seu histórico. Pulava mais alto e corria mais rápido do que qualquer outro. Só Edinho tinha um chute mais forte com a perna direita.

Telê anunciou seu elenco em três etapas durante o mês de abril. Preocupado com os efeitos do calor espanhol, Tim preparou um regime de treinamentos ultra rigoroso para todo o elenco, com arrancadas, voltas ao redor do campo e exercícios de alongamento. Nada menos que uma tortura para Sócrates, que várias vezes foi à beira do campo vomitar. Mas a sua dedicação à causa inspirou os outros. Seus companheiros podiam ver o capitão colocando os interesses do grupo à frente dos seus e desacreditavam.

“O que é isso? O Magrão na frente de todo o grupo correndo ao redor do campo!”, Zico gritou, antes de gargalhar. “O que está acontecendo?”.

“Ele sempre falou sobre o quão difícil era cuidar de si mesmo e se manter em forma, mas não foi o que aconteceu naquela Copa”, contou Zico, anos depois. “A partir do momento em que iniciamos nossa preparação, ele deu tudo de si e foi um dos jogadores em melhor forma que tivemos no torneio. Ele treinou duro e deu realmente um forte exemplo a nossa geração. Na Copa do Mundo, ele estava focado em chegar à melhor forma e foi o que aconteceu. Ele provou que também havia um atleta dentro dele. E essa foi uma lembrança que permaneceu entre todos que estavam com ele”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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