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Os furos do Estadão na novela Neymar

Confesso que, enquanto escrevo este post, ainda hesito em publicá-lo. Todos sabem que jornalistas são corporativistas, não gostam de ser criticados, e eu ando com preguiça de brigar. Além disso, quero evitar a sensação de que estou “queimando” um colega. Então quero deixar claros alguns pressupostos.

1- O primeiro é básico, serve para tudo: só erra quem tenta acertar. Quem, como eu, não foi atrás de nenhuma informação exclusiva sobre o caso, não correu o risco de errar, porém tampouco correu o “risco” de acertar, de levar ao leitor uma informação exclusiva em primeira mão.  Não tenho dúvida de que é louvável buscar o furo, e essa ressalva tem que ser feita.

2- Todo repórter corre o risco de ser enganado por fontes, a não ser aquele que não tem fontes.

3- Cabe ao repórter reportar. Ao editor, editar. Ao chefe dos dois, a sabedoria de saber o quanto bancar uma informação, e como agir caso ela se revele falsa.

Não tenho nenhuma dúvida de que, tirando a “Colunista”, ninguém no Estadão inventou nada sobre o caso Neymar. Tinham informação, informação boa. Se não, não teriam submetido aos chefes. Tenho, porém, uma dúvida: havia mais de uma fonte? E, nesse caso, existe alguma fonte que, por si só, seja suficientemente boa para bancar uma informação que não pode ser checada? Mais diretamente: se tivesse apenas uma fonte declarando que o ministro Mantega vai acabar com o sistema de metas de inflação, ainda que esta fonte fosse o secretário particular do ministro, o Estadão publicaria a informação? Tenho dúvidas, e está aí minha primeira crítica. A informação sobre o esporte não passa pelos mesmos cuidados que passaria se fosse sobre política ou economia.

Então, sempre para clarear: se havia apenas uma fonte, quanto confiável ela era? Wagner Ribeiro é fonte confiável? Como editor, afirmo sem medo que DE JEITO NENHUM. E, se a fonte de alguma das notas do Estadão era Wagner Ribeiro, aí eu deixo de ter qualquer pudor em criticar. Não havia, neste caso, nenhuma fonte confiável a não ser que ela pudesse produzir algum documento que comprovasse o que dizia. Documento que, sabemos agora, não existia. Se, entretanto, havia mais de uma fonte, a história muda, certo? Não, se todas as fontes estavam “do mesmo lado”. Se eram alguém da diretoria do Santos, o Wagner Ribeiro e o pai de Neymar, por exemplo, que tinham o interesse comum de convencer o mundo de que o Real Madrid queria dar um caminhão de dinheiro para ficar com o garoto.

Vamos imaginar que não foi isso o que aconteceu. Que havia um número razoável de fontes confiáveis – o que parece bastante difícil de acreditar, visto que se houvesse razoável número de fontes confiáveis a história provavelmente se confirmaria. Mas vamos acreditar que, sim, Neymar esteve vendido para o Real Madrid. Sem um documento assinado, cravar que o negócio estava fechado é honesto jornalisticamente? A imprensa inglesa, por exemplo, que sabia que David Moyes substituiria Alex Ferguson, cravou que isso aconteceria antes de ser fato consumado? Antes de ouvir tanto de United quanto de Moyes que o negócio estava fechado? Ou antes disso optou por um : “temos informações confiáveis de que será David Moyes”?

Uma coisa é você dizer que “tem informações confiáveis de que há negócio fechado entre Santos e Neymar”. Outra é cravar que o negócio está feito, e começar a produzir inclusive matérias para explorar mais a história.

Por fim, vamos sempre partir do princípio de que o repórter fez bem seu trabalho, o editor fez bem o seu. Quando ficou estabelecido que a informação era falsa, não cabe ao jornal se desculpar? Dar alguma explicação a seu leitor? Neste ponto, não tenho nenhuma dúvida: é obrigação.

Não conheço o histórico dos jornalistas esportivos que publicaram as matérias abaixo, e não os estou julgando. Já deixei claro acima, acredito quem quiser se sentir ofendido com o que escrevo apesar de todas estas explicações estará forçando a barra. A “Colunista”, porém, pertence a uma outra categoria, diferente dos repórteres esportivos, que ganham mal, têm condições de trabalho de merda e estão sob constante pressão da chefia para trazer manchetes bombásticas – o que pode, sem dúvida, levar a um cuidado menor na hora de julgar se uma informação é quente ou não.

A “Colunista”, porém, pertence àquela categoria de “jornalistas” em que todos confiam sem saber bem por que. Que todos acreditam sem contestar que têm fontes “internas”. Que são pessoas bem informadas e que chegaram lá fazendo o trabalho de repórteres, e não de reprodutores de fofocas. Foi a “Colunista”, porém, que, depois de afirmar que Neymar estava fechado com o Real Madrid, afirmou no fim do ano passado, uma semana antes da última rodada do Brasileirão, que Ronaldo vestiria mais uma vez a camisa do Corinthians em um jogo oficial antes de parar. Era ABSOLUTAMENTE IMPOSSÍVEL, visto que o atleta estava começando seu cirquinho no Fantástico para perde peso, ou seja, estava fora de forma, não estava inscrito no Brasileiro, e depois disso só haveria o Mundial. Não precisava nem do Google para saber que era uma “plantação”. Mas a “Colunista” não só publicou como usou seu tempo no rádio para dar o “furo”. Deve fazer esse tipo de coisa com frequência enorme, mas como ninguém presta atenção, só se fala nela quando acerta – não sei se ela já acertou alguma.

Vão portanto abaixo os links das matérias do Estadão sobre o caso Neymar. Repare que em setembro de 2011 o Estadão vendeu, com absoluta certeza, Neymar para dois times diferentes em um período de pouco mais de duas semanas. Isto não é só ridículo por si só. É ridículo também pelo tom das matérias/posts. A arrogância é inacreditável, principalmente quando se sabe agora que as notícias eram falsas. Pedir desculpas por isso, entretanto, ninguém até agora pediu.

Seria pedir demais? Então veja o que escreveu em seu blog o jornalista Juca Kfouri no último sábado: ” Começando pelo fim, este blog errou ao dizer que Paulinho se despediria do Corinthians no jogo contra o Santos. Tanto não se despediu que jogou, e bem, contra o Botafogo e até gol fez. O blogueiro pede desculpas e, ao mesmo tempo, festeja, porque ficará feliz se Paulinho seguir no Corinthians. Mas confirma que há propostas irrecusáveis que, ao fim, deverão prevalecer. De tal ordem que até o técnico Tite se despediu do meio campista na Vila Belmiro.” Preciso dizer mais alguma coisa?

Aqui a primeira notícia: venda para o Barça teria sido em novembro de 2011:

http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,santos-vende-neymar-para-o-barcelona,768135,0.htm

Aqui, nada menos que um post dizendo com todas as letras que era LAOR o mentiroso, e não a matéria:

http://blogs.estadao.com.br/robson-morelli/por-que-o-presidente-do-santos-mentiu-sobre-neymar/

Pouco mais de duas semanas depois, porém, esqueceu-se da suposta mentira, mas a venda era para outro clube:

http://blogs.estadao.com.br/robson-morelli/um-jantar-com-neymar-bastante-proveitoso/

E aqui vai a nota da “Colunista”:

https://twitter.com/amauriraimundo/status/338802154397646849/photo/1

Como editor, eu no mínimo teria pensado em um post explicando o caso e pedindo desculpas. Ainda é tempo.

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