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Os cinco pecados do Internacional no Brasileirão

A demissão de Dunga no Internacional parecia apenas questão de tempo. De potencial favorito a uma das decepções do Campeonato Brasileiro, os colorados não precisaram de muitas rodadas. As vitórias não apareciam com a frequência que a tarimba do elenco poderia sugerir. E uma sequência de quatro derrotas foi a gota d’água para a saída do técnico – na qual, mais significativo que a quantidade, foi a impotência contra adversários notadamente inferiores, como Bahia, Portuguesa e Vasco.

Ver o Inter derrapando no Brasileiro, aliás, não é nenhuma novidade. Nos últimos anos, os gaúchos foram frequentemente colocados como candidatos ao título, mas dificilmente cumpriram as expectativas. O que explica tanta decepção? Para tentar chegar a uma resposta, separamos cinco pontos em que o clube deixou a desejar – tanto no presente quanto no passado recente.

– O dinheiro que se reverte em bons resultados

O Internacional é um dos times brasileiros que mais se destacam no mercado. Segundo o site Transfermarkt, os gaúchos contam com o elenco mais valioso do Brasileirão, estimado em R$ 150 milhões. Nenhum outro time investiu mais em reforços para o torneio, desembolsando R$ 27,5 milhões em Scocco, Alex e Willians. Um investimento que está longe de se refletir no desempenho da equipe, que acumulou quatro vitórias nas oito primeiras rodadas e precisou de mais 13 partidas para repetir o número de triunfos.

E a falta de correspondência entre o que o Inter faz no mercado e o que produz dentro de campo não é de agora. Nos últimos cinco anos, foi o clube brasileiro que mais lucrou com venda de atletas (R$ 450 milhões) e o segundo que mais gastou na compra (R$ 130 milhões). Assim, até ganhou o bicampeonato na Libertadores, mas acumulou frustrações no Brasileirão. Desde os vice-campeonatos em 2005 e 2006, o Inter só teve chance de reconquistar o título nacional em 2009. Nos outros anos, não foi além do quinto lugar. Muito pouco para a folha salarial paga pelos colorados.

– O apego às gerações vencedoras
Clemer assume o Inter interinamente após a demissão de Dunga
Clemer assume o Inter interinamente após a demissão de Dunga

O Inter campeão da América e do Mundo em 2006 merece todas as honras. Mas, se os resultados não aparecem, infelizmente as glórias devem se limitar à memória. Bolívar, Fabiano Eller, Rafael Sóbis e Tinga saíram após os títulos e voltaram tempos depois, sem render. Alex é o último dessa leva e, por enquanto, está aquém de seu passado. Índio sequer foi vendido, mas também se mantém no time pelo que representa. Fernandão teve uma passagem frustrada pelo comando do time. E o último a se juntar à vasta lista é Clemer, questionado até mesmo quando assumiu como técnico nas categorias de base, e que agora se torna treinador interino com a demissão de Dunga.

Se os antigos campeões atravancaram a evolução da equipe, da mesma forma os colorados se prenderam mais aos nomes em suas contratações mais recentes. Com Juan, Gabriel, Forlán, Jorge Henrique e Rafael Moura no time, todos acima dos 30 anos, o Internacional tem a segunda maior média de idade do Brasileirão, abaixo apenas do Atlético Mineiro. Como consequência, alguns dos bons valores das categorias de base demoram a ter espaço e, quando deslancham, logo são vendidos para fazer caixa.

– O fraco desempenho da defesa

Se os resultados neste Brasileirão não são satisfatórios, o sistema defensivo tem boas parcelas de culpa. Os colorados sofreram 37 gols, quatro a menos que o lanterna Náutico. A equipe é apenas a 15ª em total de desarmes e a última em interceptações. As brechas dadas pelo setor tem sido constantes, como os próprios gols do Vasco nesta quinta mostram. E o número de ações defensivas por jogo diminuiu exatamente na recente sequência de quatro derrotas (veja o gráfico).

Ações defensivas do Inter por partida (Fonte: Squawka)
Ações defensivas do Inter por partida (Fonte: Squawka)

Além disso, a queda de desempenho nos minutos finais é notável, já que 45,9% dos tentos tomados pelo Inter acontecem na meia hora final das partidas. Assim, o time desperdiçou pontos importantes no torneio, como nas derrotas para Náutico e Portuguesa. Olhando para a média de idade de uma linha defensiva que conta com Juan, Kléber, Gabriel e Índio, dá para entender os motivos dessa perda de rendimento.

– O jejum do ataque nos últimos jogos
D'Alessandro é um dos poucos que tem se salvado no Inter
D’Alessandro é um dos poucos que tem se salvado no Inter

Ao contrário da defesa, o setor ofensivo do Internacional está entre os melhores do Brasileirão. O ataque colorado só marcou menos gols que Cruzeiro e Atlético Paranaense, o terceiro mais efetivo do torneio. O problema é que os homens de frente estiveram muito abaixo da média nas últimas exibições do time. As redes adversárias só foram balançadas três vezes em cinco partidas – um empate e quatro derrotas. E o problema é generalizado: Scocco não marca há sete rodadas, Damião há dez, enquanto Forlán e Rafael Moura estão em jejum desde julho. Não fosse D’Alessandro, praticamente um oásis no time ao participar de sete dos últimos 13 tentos, a situação seria bem mais preocupante.

– A falta que o Beira-Rio faz

O desempenho do Internacional como mandante é um dos piores do Brasileirão. São apenas quatro vitórias em seus domínios, mais apenas que os ameaçados Náutico e Ponte Preta. E não dá nem para dizer que os colorados têm uma casa, já que a equipe utilizou dois estádios durante a campanha. Nos quatro primeiro jogos, em Caxias, os resultados foram satisfatórios, com três vitórias. Porém, desde que o time se mudou para Novo Hamburgo, só venceu um das oito partidas que fez, contra o Corinthians. No Beira-Rio, desde que o Campeonato Brasileiro passou a contar com 38 rodadas, em 2006, foram sempre nove triunfos ou mais como mandante. Sem fazer a diferença em seus domínios, fica difícil de deslanchar.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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