Os cinco maiores méritos de Cuca em seu (curto) trabalho no Palmeiras
Cuca foi efêmero no Palmeiras. Conquistou o título que a torcida não via há 22 anos e foi embora. Não discutimos assuntos familiares. Até porque o treinador cumpriu, com excelência, o contrato que havia firmado com o clube até o final. Não quebrou sua promessa. Ao contrário, concretizou a que fez antes do Campeonato Brasileiro começar, quando disse que o seu time seria campeão brasileiro. O Verdão, agora, procura um novo comandante.
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Foram 50 partidas desde março, com 28 vitórias, 11 empates e 11 derrotas, e muitos méritos, que pese não ter conseguido que seu time jogasse um futebol à altura do elenco que tinha em mãos em muitas partidas de reta final. Seu maior mérito foi evidentemente ser campeão, mas destacamos cinco pequenos feitos que o técnico conseguiu realizar nesses nove meses.
Impacto inicial
Cuca não teve medo de assumir o Palmeiras no olho do furacão. Marcelo Oliveira havia conquistado a Copa do Brasil, no final do ano passado, mas seu time já dava sinais de que estava enfraquecido, principalmente do ponto de vista tático e coletivo. A demissão de Oliveira saiu quando a eliminação na fase de grupos da Libertadores já era praticamente certa. Os três primeiros jogos de Cuca terminaram com derrota, inclusive a goleada para o Água Santa.
Mas, mesmo sem tempo para treinar, não demorou para fazer o time melhorar. No quinto jogo, montou uma estratégia – time fechado em duas linhas de quatro – para vencer o Corinthians e conseguiu empatar com o Rosario Central, fora de casa, mantendo as chances de classificação às oitavas de final na última rodada do grupo. Por depender de outros resultados, a vitória por 4 a 0 sobre o River Plate, do Uruguai, não foi o bastante.
Ainda havia a chance de chegar à decisão do Campeonato Paulista. O adversário da semifinal era o Santos, que abriu 2 a 0, a 15 minutos do fim. Mas Rafael Marques, que Cuca colocou em campo no segundo tempo, marcou dois gols quando o cronômetro se aproximava do fim e levou a partida à disputa de pênaltis. Por essas crueldades, o próprio Rafael Marques (e Lucas Barrios) errou a sua cobrança, e o Palmeiras foi eliminado. Cuca ganhou dez dias para treinar.
Adaptar escalação e sistema
Com a memória do seu Atlético Mineiro ainda muito recente, havia receio de que Cuca mantivesse a anarquia tática que marcou o Palmeiras de Marcelo Oliveira. Mas o treinador soube adaptar tanto a sua escalação quanto o sistema de jogo às necessidades. Sem falar nas vezes em que impactou o decorrer da partida com boas substituições, como em outra vitória sobre o Corinthians – aliás, como técnico do Verdão, Cuca enfrentou o maior rival três vezes e venceu todos esses jogos, sem levar nenhum gol.
A primeira vitória sobre o Corinthians é um exemplo de como ele adaptou as escalações aos adversários. Escalou a equipe com duas linhas de quatro, com Zé Roberto pela esquerda do meio-campo, e Robinho, à direita. No jogo seguinte, contra o Rosário Central, escalou três zagueiros. No retorno ao Campeonato Paulista, voltou ao 4-2-3-1.
A principal mudança que ele implementou, no entanto, foi no sistema de jogo durante o Campeonato Brasileiro. Começou com uma equipe ofensiva, mais aberta defensivamente, que marcou 2,2 gols e sofreu um por jogo, em média, durante as 13 primeiras rodadas. Depois de uma sequência ruim de resultados, tentou minimizar os riscos para buscar a taça. O Palmeiras passou a atuar mais recuado, buscando os contra-ataques.
A partir do confronto contra o Vitória, na última rodada do primeiro turno, até a vitória contra o Botafogo na 36ª rodada, quando praticamente selou o título, as médias modificaram-se: 1,4 gols marcados e 0,6 sofridos. Foram dez vitórias por um gol de diferença e três por dois gols de diferença.
Sistema defensivo

Parecia um problema insolúvel do Palmeiras, que perdurava por anos, mas Cuca conseguiu dar solidez defensiva à equipe. A uma rodada do fim, tem a melhor defesa, com apenas 31 gols sofridos. E, como mostramos no tópico acima, a mudança de esquema representou uma fortaleza no segundo turno: vazado apenas 11 vezes em 18 partidas, média de 0,6 tentos por partida. Até o sistema de marcação individual, considerado por muitos especialistas modernos como ultrapassado, funcionou por ter sido realizado com ótima coordenação. Ajudou muito, depois de um ano e meio de tentativas, definir uma dupla de zaga, com Vitor Hugo e Mina.
Barrar medalhões e bancar apostas

Cuca poderia ter apostado em experiência. Tinha muitos jogadores de renome no elenco: Edu Dracena, Arouca, Cleiton Xavier e Lucas Barrios, por exemplo. Mas ele não teve receio em fazer apostas em vez de usar os medalhões. Usou bastante o jovem Thiago Martins no começo do seu trabalho. Fixou Moisés e Tchê Tchê na dupla de volantes, mesmo quando Arouca e Gabriel recuperaram-se de lesão. Cleiton Xavier foi utilizado muitas vezes – disputou 29 jogos no Brasileirão -, mas nem sempre como titular. Barrios e até Alecsandro, depois da polêmica do falso doping, ficaram mais na reserva que entre os onze primeiros. E, mesmo assim, navegou pelo Brasileirão sem muitas rusgas públicas. Soube administrar o elenco, um dos receios que se havia em relação a seu trabalho.
Lidar com a pressão
A pressão sobre os ombros de Cuca era muito grande – e não ajudou prometer o título antes de o campeonato começar. A fila de títulos brasileiros era muito grande, e o torcedor palmeirense havia vivido muitos anos difíceis em tempos recentes. Não tinha mais muita paciência. A ansiedade, por outro lado, ao ver a oportunidade de levantar a taça, era enorme. E o técnico soube lidar com essa situação muito bem. Manteve o discurso de jogo a jogo, ponto a ponto, até a reta final. Manteve seus jogadores concentrados e comprometidos com a causa. Foi marcante a maneira como eles se entregaram em cada jogo, principalmente na marcação. O jeito como o Palmeiras venceu seus últimos jogos, sempre na conta do chá, só contribuiu para a tensão. Mas, no fim, veio a glória e o alívio.



